Apreensões de Brasil Enraivecido.

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Espero que a onda de insensatez amaine rapidamente, e que o bom senso aporte às cabeças dos manifestantes tomados de ampla hidrofobia brasílica.

Digo hidrofobia, não por aversão à água, mas no sentido errôneo, aquele que representa a bem conhecida raiva canina, doença que desde a antiguidade, acreditava-se advir de motivos sobrenaturais, pois cães e lobos se enraiveciam, sem uma causa maior que o justificasse, parecendo estar possuídos por entidades malignas, mais especificamente por interferência maléfica da estrela Sirius, brilhante luzeiro da constelação do Cão Maior.

Hidrofobia de passeata, como a dos cães raivosos, ameaçando tudo e todos com sua baba elástica, tão pegajosa quão perigosa à circunstância, que em nada contribui para a democracia.

Raiva que se não for contida será um perigo para as instituições, sobremodo se contaminar tudo, porque o racional e diligente, uma vez inoculado por esta ira canina, ei-lo canicalho humano enlouquecido, sem cura, tratamento ou conforto, a ser mantido recluso na canalha que anarquiza e faz bandalha.

Porque no caso desses homens enlouquecidos na sarjeta, o desfecho pode ser caviloso e picareta, ensejando o sinistro viés totalitário, particular marcha da insensatez humana, que bem exibe os seus exemplos funestos, aqui não tão violentos, como os gemidos lá de fora ainda.

E se aqui é mais comum a brandura da cana dura, ainda, só por pacto das elites sem sangueiras, espera-se que a fúria de “freveção” do atual desfile momesco em rancho sem alegoria, bela musa, mestre-sala ou fantasia, seja pacificada pelo próprio cansaço do tempo, tanto no passo firme da intenção, quanto no compasso fora de passo da sua real construção.

Neste sentido, almejam os de bom senso e temperança, que tal cansaço fustigue o grito irracional e desperte a construtividade, afinal o que edifica uma passeata, ou mesmo um bloco de sujos, senão a balbúrdia de um protesto inútil que sempre resta mais destrutivo que realizador?

E no rasto desta sujeira ampliando o trabalho de garis, não serão tais desfiles uma perda inútil de energia reativa, na hora errada, no momento pior, no local mais indevido, algo que permeia o cinismo e diverge em objetividade?

“O povo unido jamais será vencido“ – dir-me-ão em grito louco, se possível querendo que me cale, porque devo endossar acriticamente que “A voz do povo é a voz de Deus”, quando Deus não verbaliza incertezas.

E o povo, em maioria, fracassa e claudica nestes equívocos.

Neste ponto, meu Deus é outro. Ele não fala por radicais nem por insolentes, nem aplaude a insensatez por demagogia.

“Ah, não fora assim, não se baixaria o preço das passagens dos coletivos!” – dirá logo o apressado idiota da objetividade com o resultado rápido, em nome de algo impossível; o transporte gratuito, este mito que empolga a tantos neste gigante dorminhoco, que em verdade, o que decretou foi uma ampliação de 20 centavos nos nossos custos amplos, gerais e irrestritos, afinal sempre acreditamos na merenda gratuita, gastança dos velhos carcomidos da minha geração, e na esbórnia dos jovens de agora, “acordando o ‘gigante’” no mesmíssimo pesadelo.

E neste contexto perdulário nacional, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, e o amplo estuário partidário, PT à frente para decepção da classe obreira, espantariam até Montesquieu pela unidade de ação no assalto ao erário.

Porque também vem aplaudida em qualquer passeata uma violação ao tesouro público, não só por esta excrescência nova do Movimento Passe Livre, mas toda reunião massiva, sem exceção, a querer que “a viúva” remunere os nossos custos.

Daí o termo “a viúva”, que não é novo, nem meu, e que aqui está incluído, por veraz e contumaz do proto-cinismo nacional, todo exaltador de amor febril pelo Brasil, desde que a pátria mãe gentil banque a esbórnia como nação indefesa, vulnerável e promíscua.

Mas, como diria Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes!”

“Nem os profissionais nos compreendem!” – poderia bem completar Diogo Mainardi, nós que já lutamos em muitas passeatas até por contraposição à ciência, toda a ciência; do Sistema Métrico Decimal à vacinação contra a Varíola, com direito a demonizar o quilograma e satanizar Oswaldo Cruz! Agora vamos lutar pela gasolina gratuita, ou a preços bolivarianos.

O Brasil acorda em 1874 para lutar contra o Sistema Métrico Decimal.

E neste destoar emoliente, nossas instituições deslizam, derrapam e se dissolvem, perdendo consistência e coerência, para um estudo mais conciso e axiomático, tal a imprecisão de nossos sonhos permanentes, sempre concedentes e consequentes às motivações e improvisações provisórias.

Não é o que se vê agora, justo quando o país vinha bem, posando de BRIC, de primeiro mundo em plena democracia!?

Que querem as ruas enraivecidas? Quebrar tudo? – “Não, quebrar tudo não! Isso é coisa de vândalos”.

Como só é coisa de vândalos? E quem são os vândalos, se são os ardorosos e belicosos, e não os pacíficos que dão a percuciência e a contundência de qualquer movimento reivindicador?

Por acaso um movimento reivindicatório com a massa gritando louca e enraivecida pode fazer uma omeleta sem quebrar os ovos?

Alguém pode imaginar que as pessoas consigam se prender às boas intenções, quebrando os próprios ovos, sem partir para as vias reais de fato, quando se inserem numa intentona belicosa? Não é se aquilatar mais ternos que cordeiros, mesmo rangendo dentes como lobos furiosos embraveados?

Não, eu não simpatizo com estas passeatas que rotineiramente acordam o Brasil, para lembrá-lo regressivamente da desordem sempre recrudescente na nossa história.

O Brasil acordou em 1904 para lutar contra a vacinação de Osvaldo Cruz e pelo direito de contrair a varíola. 

“Bastava vergonha!” – Repetiria Capistrano de Abreu, se visse tantos desalmados e desalinhados desconstruindo a nação e reclamando das balas de borracha e do jato de pimenta utilizado pela reação.

Vergonha sim, porque para estes sem vergonhas, a polícia é a causa e o efeito da violência.

Brutalidade denunciada pela grande imprensa nacional que maximizou qualquer erro na ação suasória da Polícia.

Talvez, quem o sabe, querendo um caos maior. Porque, quando o caldo engrossa, quanto pior, melhor; sobretudo para os articulistas e formadores de opinião, aqueles que inflamam o rastilho, mas que não sabem extinguir o fogaréu.

E nesse escarcéu solto ao léu, semeia-se a desmoralização das forças da ordem, quando a despeito de seus erros e limitações, enquanto brigada pública, a Polícia tem se conduzido nestes dias tormentosos e dolorosos com disciplina, determinação e firmeza.

Um desafio a exigir fibra, hierarquia e tenacidade, porque a anarquia quando não consegue achincalhar os policiais na rua, denunciando-lhe violência e incompetência na guarda patrimonial da ordem e da lei, esforça-se em aliciá-los ao seu favor com gestos angelicais e aromas florais; tudo o que pode alucinar, mimetizar e paralisar o bem agir em disciplina.

No mais, vejo sempre com tristeza, o emprego da sublevação popular como discutível queima de etapas revolucionárias, sobretudo agora num tempo provado e comprovado, à exaustão, da falência de todas as utopias.

Mas, se ainda podemos sofrer e gemer a dor pouco dorida, relembro que não existe na história dos povos insurreições isentas de sinistras intenções, como não há revolução sem líderes, nem rebeliões sem traumas.

As passeatas, com sói toda manifestação de rua, despertam o colorido e o alarido das massas em euforia.

Vale, porém a intervenção do Governador Marcelo Deda, que tanto gostava disso tudo, mas que na fragilidade de um leito hospitalar contempla a multidão, fazendo até quem o sabe, uma releitura de seu antigo agir, tão consistente a estes arroubos juvenis: “Cuidado imprensa, TV Globo, etc.: não se dança valsa na cratera do Etna. Não dá pra prever que caminho tomará a lava”.

Pois é! Para onde vai esta lava?! E em tantas apreensões possíveis, a pergunta se faz inquietante, diante de outras manifestações iguais ou parecidas que desencaminharam o país, sobretudo porque sempre foi a grande imprensa, aquela que melhor soube erigir o chicote; mangual a quem se vergou e bem serviu.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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