Conflitos à Abimelec

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Fala-nos a Bíblia em Juízes 8,22: Os israelitas disseram a Gedeão: ‘Sê o rei, tu e teu filho, e o filho de teu filho, porque tu nos livraste das mãos dos madianitas.’ “Não, respondeu ele, não responderei sobre vós, nem meu filho tampouco; é o Senhor que será vosso rei.”

Depois acrescentou : “Tenho um pedido a vos fazer: Que cada um de vós me dê as argolas de vosso despojo”.

As argolas eram de ouro e foram tomadas dos madianitas, junto com todos os seus pertences, como esbulho comum dos vencedores aos vencidos.
Os despojos, além das argolas, brincos, arreios de animais, cerca de mil e setecentos ciclos de ouro, cerca de 12 gramas um ciclo, foram entregues, de bom grado ao que parece, e com ele Gedeão fez um efode; espécie de sobrepeliz para colocar sobre as vestes do sacerdote.

O efode, ao que parece, era tão pesado que nem Gedeão usara, contudo houve paz entre os israelitas e seus vizinhos, que não mais conseguiram erguer a cabeça.

Após uma longa vida, morreu Gideão deixando “setenta filhos, saídos todos dele, porque tinha numerosas mulheres”, um destaque a firmar ilações várias, afinal o humano é o mesmo, os hormônios também, não se podendo descrer nos comuns conflitos no seio familiar, do ciúmes e dos queixumes em cada cangote ou queixo, dos rumores e dos murmúrios sabidos nos comuns haréns, nos gineceus, ou nos chiqueiros incubadores das comuns alimárias, tudo aquilo que envolve a concupiscência e a incontinência, a inapetência a até a impotência de tudo bem sortir e fertilizar, gerir e felicitar, higienicamente sem promiscuidade, e sem contamino, portanto, de DST, porque naquele tempo não havia embora bem existisse a poligamia e o concubinato.

Porque foi de uma concubina coberta em Siquém, que nasceu Abimelec, o seu mais famoso filho, aquele que para se manter no poder, matou setenta filhos de Gedeão, seu pai, setenta vezes fratricida.

Safou-se desse extermínio, um outro irmão, o mais novo, chamado Joatão?

De Joatão nos vem a história que melhor interessa, porque se Gedeão, seu pai, fora extraordinário nos seus feitos guerreiros em combinação com o Senhor, uma história que vale a pena a releitura, porque Deus quando o deseja, faz o homem tudo poder, desse irmão sobrevivente e caçula, nos chega uma lição fabular notável.

Porque se Gedeão, o pai, nunca quisera ser Rei, o filho Abimelec, matara tudo e todos para sê-lo.

É quando Joatão, do alto de uma montanha, o monte Garizim, grita aos homens de Siquém que estavam a proclamar Abimelec como seu Rei: “Ouvi-me homens de Siquém, para que Deus vos ouça! As árvores resolveram um dia eleger um rei para governá-las e disseram à oliveira: Reina sobre nós! Mas ela respondeu: Renunciarei porventura, ao meu óleo que constitui minha glória aos olhos de Deus e dos homens para colocar-me acima das outras árvores? E as árvores disseram à figueira: Vem tu, e reina sobre nós! Mas a figueira disse-lhes: Poderia eu, porventura, renunciar à doçura de meu delicioso fruto, para colocar-me acima das outras árvores? E as árvores disseram à videira: Vem tu, reina sobre nós! Mas a videira respondeu: Poderia eu renunciar ao meu vinho que faz a alegria de Deus e dos homens, para colocar-me acima das outras árvores. E todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, reina sobre nós! E o espinheiro respondeu: Se realmente me quereis escolher para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos na minha sombra; mas se não o quereis, saia fogo do espinheiro e devore os cedros do Líbano”.

Se hoje há ainda Cedro no Líbano, a história é longa, e cabe um retorno com recorte, lembrando que Abimelec reinou em Siquém por três anos, suscitando ampla revolta do povo contra aquele que, para reinar, matara os setenta filhos de seu pai.

Na guerra do poder, servir ao espinheiro, ficar a sua sombra, é difícil!

Fica-se algum tempo, mas o incômodo é terrível.

Espinhos e garranchentos à parte, estamos a viver um conflito no nosso país.

À falta de Gideão, a nossa Constituição estabeleceu o intocável triunvirato ditado por Montesquieu: Três poderes; Executivo, Legislativo e Judiciário, em “check in balance”;

Tudo norteado na Lei.

O problema é que nesse mesmo balanceio, todos querem mandar e nenhum o quer obedecer; ao povo restando ser a mesma besta para escolher qualquer um Abimelec, sempre um moleque, mal escolhido, em eleições sempre requeridas para serem depois refutadas e passíveis de ser anuladas, sem vício, mediante qualquer artifício talar, em pior ofício.

Oficialismos por arte e por descarte, eis que o Judiciário se assoma, qual Zeus, Netuno ou Marte, em delírios de Cassandra e trejeitos de herói-pátrio Malasartes, tomando ares de tudo poder e mandar, só porque o Executivo não lhe está zanzando no seu agrado, e o Legislativo, dominado por um “Centrão”, dito funesto, desafia o seu novo Almagesto, essa doutrina com a qual pretende exercer a sua “suprema” elucubração, para ordenar os graves e os bólidos sob suas doutas intenções.

E sem muquim intenção, eis que em outras vias, ousam muitos querer impor uma “terceira via”, se possível com a serventia de inelegibilidades decretadas, instauro de um semi ou hemi, parlamentarismo, um artificio inseminado, quiçá “onzívero” ou um “undecêmviro”, um poder, superpoder, por onze capelos, exercidos e envaidecidos, a nos quere convencer que tudo terminará bem, mesmo o que no mal se gesta, igual a Abimelec, tudo arrasando.

Todavia, com tanta gesta sendo exarada, eis o Presidente Bolsonaro, o único e comum alvejado, e criminalizado, restando-lhe o “jus sperniandi” em falas mil de Joatão, poldro e chucro chotão, pouco e pior, mal escutado: esboçar seu desejo simples, por pueril e rouco simplório; querer um voto livre, por auditável!

Isto é: poder abrir a caixa preta das nossas eleições, que deveriam ser opcionais, inclusive!

Se as árvores de Joatão recusavam mandar uma nas outras, alguns querem até o mando do espinheiro: menos o voto do povo!

Já no Líbano, onde havia muito cedro, também não vinga nem mais a tenra democracia: a primeira das primaveras árabes que ainda vigia.

Espinhos a conferir ainda, com apoio do povo nas ruas, o presidente mandou o Congresso libanês para um resfolego em casa, em off e sem home office, e em féria igual até ao judiciário.

Coisas de check in balance mal balançado, ou simples usurpação: à Abimelec!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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