E o Oscar – ainda importa?

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Ali na década de 1970 Marlon Brando, bem como Woody Allen, desistem de ir à cerimonia da premiação da indústria cinematográfica dos EUA. Brando pede a uma indígena sioux para ler um texto em seu lugar. Um texto anticolonialista. Allen diz que não pode deixar sua banda em Nova York sem o seu pior instrumentista.

Desde a década mencionada, a indústria já não é a mesma. E o Oscar pareceu se tornar uma espécie de conciliador entre uma espécie de submundo independente – sim, existem milhares de empregados nesse mundo – , e um main stream clássico, com as velhas cartas ainda atuantes. Isso porque seria praticamente impossível conceber há 10 anos atrás, nos 60, um filme como Star Wars, por exemplo, chegar ao Óscar.

Hoje, existe algo semelhante acontecendo. Há 10 anos atrás, anos 2000, seria difícil conceber filmes baseados em HQ ganhando a estatueta. Estamos longe de um julgamento sobre a qualidade dos filmes, se você não está percebendo. E, após essas crises na indústria do entretenimento, novidades surgem.

Spike Lee, como cineasta contra esse status quo racista e supremacista branco dos norte-americanos, ontem vibrou como uma criança ao ganhar o prêmio. Demorou, mas ele chegou a seu ápice – Cannes e o Óscar, com premiações a seu filme Infiltrado na Klan (BlacKKKlansman). Sai um discurso contra o presidente indiferente aos imigrantes e aos negros nos EUA, Donald Trump.

Este mesmo presidente que, uma vez, chegou a dizer que os mexicanos devem falar inglês nos EUA. Na mesma cerimônia, ontem, vimos Diego Luna, e o diretor vencedor Afonso Cuarón falando alto na sua língua materna, contra o discurso hegemônico supremacista. É, portanto, uma questão não só de afirmação, mas de contraposição ao que existe de mais estúpido em nossa espécie: o ódio, transformado em exclusão social.

O mais relevante, ontem, na cerimônia de 2019, foi a ausência de um(a) apresentador (a). A aparência de algo produzido com pressa, daquele jeito de uma troca de envelopes dos filmes ganhadores, volta. Seria como se a cerimônia estivesse deixando de ser algo grandioso em arte, técnica, domínio do audiovisual, e se transmutasse numa espécie de festa dos famosos. Ok, sempre foi isso – mas os famosos, um dia, foram centros de convergência de produção. Hoje, a indústria sobrevive das investidas criativas de imigrantes e de negros americanos.

Não poderia ser diferente, já que o mercado foi dominado tanto pelos serviços streaming quanto pelas produções da Marvel. Algo de diferente teria que aparecer. E é isso o que acontece. Hoje, no Óscar, não basta ser independente. Tem que ser independente, criativo, político. Por isso Cuarón, Iñarritu, Rodriguez, Guillermo, também Spike, Jenkins, Peele. Não são apenas novos diretores: são a saída para a indústria.

Pena que ainda exista a conciliação com os mais clássicos e conservadores. A ver, o prêmio a Green Book e a Nasce uma estrela (A star is born).

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