Estamos todos perdidos ou no caminho certo?

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Em tempos recentes, vem sendo rotineiro, denunciar o pensamento dito de “esquerda”.

Há pouco tempo, ser de  “esquerda”, ou a ela pertencer, era afirmar-se glorioso, sensível, posar quase amável, senão afetuoso, aberto à diferença, intolerável jamais e em tempo algum; por melhor compungir, e fingir, ser amigo do povo e a ele solidário, sobretudo aos mais carentes e humildes.

Ser de “esquerda”, viu-se depois, era também ser conviva ideal para poder sorver iguarias frugais, deglutir vinhos licorosos e manjares sem riscos e laivos de contaminações burguesas ou nobres, afinal na sua faina, seu quefazer, de a plebe iludir e representar, valia tudo, tudo valendo, até bem conhecer a fina etiqueta de bem se portar à mesa do argentário potente, sendo-lhe bom servidor e confidente, um veraz subserviente, aliado ideal por ordinário, sendo-lhe até mesmo em voz e pena, o seu melhor escudeiro, pistoleiro e até cangaceiro, ou sicário, se necessário.

Por ser assim, situar-se na “esquerda” virou uma exibição desprezada, esmolambada, um rótulo sujo, de velhas garrafas com conteúdo avinagrados.

E aí deixou de ser moda; virou démodé. Virou xingamento, quase excremento de quem não se sente feder.

Se a “esquerda” perdeu ibope, os partidos de “esquerda”, uma miríade deles, agora gritam esganados sem trinar melhor canto nas ameias em que se acastelaram.

Viraram sinistras sereias, grasnando agouros, agourentas; chatíssimas por birrentas!

Historicamente, poder-se-á dizer, que ser de “direita” ou de “esquerda” fora simples resquício da Revolução Francesa, sem qualquer contexto de ideologia, ditado apenas por mero assento dos deputados perante o Presidente das Assembleias, aqueles que o ladeavam, cada um gritando mais alto sem microfone, tanto à destra, como à canhota.

Sinistras eram ambas, porque nenhuma delas foi mais branda, nem tolerante, muito menos, aqueles que se assentavam entre estas, fingindo parecer moderados e indecisos, pantanosos, viscosos e poucos verbosos, e nunca eloquentes, com ambidestra malícia enquanto funesta milícia, por “centrão”, de ocasião, eliminando cada um em seu momento, e a todos por conclusão.

Se o “Centrão” não vingou na Francesa Revolução, ele surgiu no Brasil por conta das discussões da Constituinte de 1989 na incubação da infecunda “Constituição Cidadã”.

Por “Centrão” surgira à reação a uma tentativa dos nossos Constituintes de então, que no afã de sepultar o “entulho autoritário vigente”, e sob o vácuo de um governo de parca legitimidade, o do Presidente Sarney, quiseram, via votação por maioria simples congressual, implantar uma modelar República Socialista à brasileira, erigindo um Estado distribuidor de benesses, em excessiva política isolacionista e xenófoba, cujos sobejos desmandos estamos ainda a colher: um Presidencialismo Emasculado por um Congresso contumaz corrompido e por um Judiciário voraz legislador, o mal a todos planeando, sem a justa  punição saneadora.

Como todos estavam felizes espinafrando o regime militar que caíra, enterrado sobretudo por aqueles a quem beneficiara, a “esquerda” foi crescendo e desembestou.

E, sem que ninguém percebesse, a doce pátria mãe gentil sorriu qual dona de bordel com o roubo que se fazia a seu gozo e revelia.

E assim, nunca tantos roubaram tantos e não se fartavam de roubar nas eleições e mandatos que se sucediam, o povo aplaudindo a todos, bestificado, sem exceção.

De repente, nunca tantos empresários e políticos foram pegos em tantos outros que escaparam, só porque lhes escasseiam ainda uma premiada delação.

A política restou desmoralizada, sobrando lama para todos, sem exceção.

Surgiu então um candidato “fora-da-lei”, um “ficha-limpa” que não roubava, mas…, era um cara a ser execrado por pior caráter: “um sujeito xenófobo, racista e ‘estuprador’, alguém que separava mulheres como fêmeas ‘inestupráveis’ e estupráveis, por melhor atração e tesão…

Um candidato que não era “out-law”, mas que por conceito bem pior: elogiava o regime militar a quem todos deveriam execrar como crime inafiançável, defendendo também a tortura do malfeitor, enquanto empoderamento do “cidadão-de-bem”, e o seu direito de poder se armar, para se defender.

De repente, ao arrepio inesperável, tal candidato “fora-do-gosto-desejável” da imprensa que nunca se achara em pior vista e rejeição, caiu na graça do povo, “essa desgraça que sempre acontece para nojo e desprezo de bem falantes pensadores e formadores de opinião”.

E aí o mundo desabou.

O que era para não ser; foi.

Falharam todos; a Folha de São Paulo, o Globo, o Estadão, todos virando lixo, no país inteiro, enquanto opinião, e até uma facada encomendada que se não prestou, enquanto desejado desfecho, nunca  e jamais restou, bem confessado.

E de lá para cá, haja meses e dias de inócua opinião! Um incômodo para o leitor, o telespectador diário, só faltando vir do céu apenas, um fulminante raio ou anjo exterminador, em tantas pragas desejadas a cair na prensa e sobre a imprensa, por tantos ledores que cobram dos formadores de opinião um laivo mínimo de reflexão, um pouco de seriedade talvez, enquanto honesta apreciação.

Mas, qual seria tal apreciação honesta, se o modo de ver o mundo de nossa imprensa a impede de aceitar o divergir necessário que lhe fertilizaria a notícia?

Assim, eis o Presidente Bolsonaro sendo cassado por cães e lobos, quais famélicas hienas querendo fazer-lhe, livre, leve e solto ainda, virar carcaça em tantas mordidas que lhe dão.

E com tanto atassalho recebido, não é notável que o Mito Presidente, sem corromper o Parlamento, nem dispor de grande Partido, e sem saber formar e liderar conchavos, tenha aprovado uma difícil Reforma como a da Previdência, defendendo ainda uma pauta “insana”, por liberal, e continue chegar ao final de quase um ano de sucesso, em passo progressivo contínuo e marcial, carregando consigo um terço de aprovação do eleitorado só para si e seus auxiliares?

Estamos todos perdidos ou no bom caminho?

 

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