Há um velho hábito na política brasileira: entregar um benefício para quem ainda vai chegar e esquecer quem passou a vida inteira sustentando a casa. A Assembleia Legislativa aprovou a mudança no Estatuto dos Policiais Militares, elevando para 67 anos a idade da reserva compulsória e adequando a carreira à nova realidade de ingresso na corporação. A medida tem mérito. É justa para quem entra mais tarde e precisa completar sua trajetória funcional. Mas a pergunta que ecoa nos quartéis, nas associações militares, no movimento Polícia Unida e, principalmente, nas casas dos veteranos é outra: e quem já cumpriu a missão? Para esses, a resposta continua chegando todo mês no contracheque, com um desconto de 10,5% que insiste em lembrar que a aposentadoria militar, em Sergipe, ainda não conhece descanso.
A verdade é que o governo resolveu olhar para o policial do futuro e virou as costas para o policial do passado. O jovem que sonha vestir a farda ganhou mais tempo de carreira. O veterano que passou trinta anos enfrentando plantões, perseguições, tiroteios, acidentes e madrugadas continua pagando para permanecer aposentado. O pensionista, muitas vezes viúva de policial ou dependente que já perdeu o principal provedor da família, também continua contribuindo. É como se o Estado dissesse: “Obrigado pelos serviços prestados. Agora continue colaborando.” A gratidão oficial, pelo visto, vem acompanhada de desconto em folha.
O governador Fábio Mitidieri tem todo o direito de defender a modernização do Estatuto. E, sob esse aspecto, há avanços que merecem reconhecimento. O problema é transformar uma boa medida administrativa em símbolo de valorização da tropa enquanto a principal reivindicação dos militares da reserva permanece esquecida na gaveta. Há anos entidades representativas pedem a revisão da contribuição dos inativos e pensionistas e o sargento Moraes sabe bem disso. Há anos esse debate aparece em reuniões, assembleias, entrevistas e documentos oficiais. Mas, quando chega a hora da decisão política, o assunto desaparece com a mesma rapidez de promessa depois da eleição.
A ironia é quase literária. A política constrói discursos sólidos sobre reconhecimento, valorização e respeito à farda. Mas, quando o policial finalmente pendura o cinto de guarnição, continua descobrindo que o Estado ainda lhe estende a mão… para retirar mais um pedaço do contracheque. Lembra, em certo sentido, a atmosfera da obra Construção, de Chico Buarque: o trabalhador que dedicou toda a vida ao seu ofício acaba reduzido à frieza da engrenagem, como se sua história pessoal fosse apenas mais uma peça substituível dentro da máquina pública.
Enquanto isso, os discursos continuam impecáveis. Cerimônias bonitas. Medalhas reluzentes. Homenagens emocionadas. Fotos oficiais. Palmas. Discursos sobre coragem e heroísmo. Mas o policial da reserva sabe que a verdadeira homenagem não cabe num púlpito nem numa solenidade. Ela aparece quando o Estado reconhece que quem já serviu merece um pouco mais de tranquilidade financeira. Porque patriotismo não paga farmácia. Medalha não compra remédio. E continência não reduz boleto.
Há outro detalhe que torna esse debate ainda mais incômodo para a categoria. Sempre que surge uma nova proposta para a Polícia Militar, multiplicam-se os discursos sobre valorização da tropa, respeito à farda e reconhecimento aos homens e mulheres que dedicaram a vida à segurança pública. Mas, quando o assunto é enfrentar a contribuição de 10,5% que continua incidindo sobre policiais da reserva, reformados e pensionistas, o entusiasmo desaparece. O veterano não pede privilégio. Pede coerência. Pede que o Estado tenha a mesma disposição para aliviar seu contracheque que tem para anunciar novas medidas administrativas.
Esse debate também alcança as lideranças políticas que historicamente se apresentaram como representantes da categoria. Afinal, quem fala em nome dos policiais militares naturalmente passa a ser cobrado pelas decisões tomadas ou defendidas ao longo da carreira pública. Todo militar que recebe o contracheque e vê a contribuição continuar incidindo tem o direito de perguntar quais representantes defenderam efetivamente a revisão desse modelo e quais permaneceram em silêncio, talvez lembrem do capitão Samuel, eleito pelos militares e votou a favor do desconto. Em democracia, a memória também faz parte da prestação de contas. O voto passa, o mandato termina, mas as consequências das decisões permanecem todos os meses na folha de pagamento.
Do ponto de vista jurídico, o governo tem respaldo para manter a contribuição dentro do Sistema de Proteção Social dos Militares, estruturado pela legislação federal e estadual. Mas legalidade não encerra o debate político. Existem medidas legais que podem ser socialmente injustas. E é exatamente por isso que existem governadores, assembleias legislativas e representantes eleitos: para discutir prioridades. Se houve disposição política para alterar o Estatuto da ativa, por que não abrir uma discussão séria sobre quem já passou para a reserva? Essa talvez seja a pergunta que realmente interessa à categoria.
No fim das contas, o novo Estatuto resolve um problema importante, mas deixa outro muito maior sentado na mesma cadeira de sempre. O policial que ainda fará concurso recebeu uma boa notícia. O policial que envelheceu protegendo a sociedade continua esperando a sua. Talvez esteja aí a maior lição dessa história: valorizar a segurança pública não é apenas contratar novos soldados. É também honrar quem já escreveu essa história com a própria vida. Porque governo que cuida apenas da porta de entrada da carreira e esquece a porta de saída acaba fazendo uma reforma pela metade. E reforma pela metade, na política, costuma ter outro nome: oportunidade perdida.
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