Fui à feira.

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Fui à feira. Queria comprar umas sirias ovadas. Ainda bem que os defensores do meio ambiente ainda não criminalizaram o consumo de sirias ovadas; uma delícia!"

Minha mulher não gosta.

Aliás, ninguém gosta, falando do povo daqui de casa! Os de casa mesmo, eu nem sei mesmo do que gostam. Acho que preferem reclamar dos meus gostos! E olhe que eu faço de tudo para agradar. Compro filet mignon, picanha argentina, cordeiro patagônico, vinhos das melhores safras que nos chegam por rebotalho; um verdadeiro escangalho. Não ficam satisfeitos.

E ainda deixam os pratos sujos para eu lavar no final. Porque sobra pra mim, se eu quiser patrocinar uma farra!

Certa feita mesmo, na lavação final, eu quebrei quase todas as taças. Lavar taça cheio de vinho é um desequilíbrio que não tem tamanho.

Mas, como já disse antes, eu queria ir à feira comprar umas sirias, que o editor de textos "pages"do meu Ipad teima em grafar em vermelho, porque acha que eu deveria comprar sírias e não sirias, ou sítios, de onde estou fugindo, ou símios, macacada, que eu não chego a tanto, e outros silvos e silvas, que me afastam de minhas sirias ovadas.

Desvios de edição à parte, eu também estou aprendendo a digitar, enquanto cata milho, de dois dedos, ou um apenas, estou, como péssimo aluno da escola do Sr. Schimene, para quem destino minhas orações e a tantos mestres da minha lembrança carinhosa e terna. Tão terna e sempiterna, que preciso me afastar agora, afinal a lembrança me desvia como o canto das sereias atraía Ulisses, o maior Rei de Ítaca, saudoso da sua Penélope. Divagações das quais me devo afastar, afinal o tema é outro: sirias e ostras; coisa de feira, de mercado, e do mercado Thales Ferraz.

Mas eu não queria comprar ostras somente.

Eu queria comprar umas cartucheiras de celular e uns cinturões.

Minha mulher, a única que me abençoa os dias; e me protege, e me aguenta com as carícias que sonho e desejo…. Minha mulher disse para mim: "Não compre cinturão na feira. O povo vai pensar que você é um velho que fracassou na vida e vive de biscates".

Se alguém me encontrar exibindo vestuário de grife da moda; tenha certeza que foi presente. Se não encontrar é porque os presentes andam fracos.

Mas, voltemos a minha mulher e o seu receio. – "E eu não sou motorista de madame?!"- perguntei-lhe completando. – "Eu não sou seu motorista?"

A pergunta me ficou encasquetando, afinal se há uma coisa que minha mulher gosta é me ter como seu motorista. Parece Jessika Tandy sendo conduzida por Morgan Freeman, em "Conduzindo Miss Daizy.

Mas, o meu assunto deve girar em torno das sirias ovadas, das ostras, das cartucheiras de celular, dos cinturões, da lanterna de pilha que meu neto pediu, e o que mais, meu Deus?! Sei lá!

O que sei é que fui ao mercado. Adoro o mercado! Ali eu tenho os meus velhos fregueses. Se alguém me perguntar o nome deles eu posso errar. São fregueses, desde o tempo em que eu menino ia à feira com Nanan, minha segunda mãe, aquela cujo arranhar carraspento ainda sinto na minha cabeça de criança me pondo para dormir.

Oh meu Deus! Quanta gente santa no entorno de minha vida1 Nanan, tão querida! Que me ensinou a distinguir no corte bovino a banana, que hoje é lagarto, a chã de dentro que hoje é coxão mole, o pé de bunda que hoje é alcatra, o chupa molho, o acém, o patinho, bom de bife e razoável de gosto, que morreu sem saber que a capa do pé de bunda tem o nome pomposo de tapa do quadril e que hoje é carne superior a contra-filé, e em preço igual ao filé. E o porco, cujo corte tem que ficar com o filezinho próximo a costelinha.

E aí estou eu a lembrar um velhinho maçudo, alemãozado, de bigodinho, que vendia a carne de porco e também a banha. Porque nesse tempo banha de porco não dava colesterol e Nanan comprava a banha fresca, para fazer em casa. E eu já adulto quis fazer a banha em casa. E foi uma novela, porque a banha salpicava me queimando todo, de modo que o torresmo não valia à pena.

E o que dizer dos pernis de carneiro, num tempo em que não existia nem pernil, nem paleta, e tudo se resumia no dianteiro e no traseiro. E que eu ainda hoje prefiro o traseiro, antes tirando, sei lá como se chamava, aquela glândula, que deixa o cordeiro, o bode, o ovino, ou o caprino, com um cheiro fedentino.

E os peixes, de qualidades imensas; acarepeba na frente, robalo, pescada selvagem, abadejo ou sirigado, curiman, vermelha que é deveras apreciado, cavala,… e outros como atum, cação que fede quando se trata e é uma delícia depois, e arraia, desde que não seja mijona. Ou seja, no mercado eu encontro tudo isso, da melhor qualidade, com os meus fregueses. A começar da carne do sol. E da galinha que lhe fica na frente, e que já sabe o corte do meu jeito. Do jeito do professor! Eu que não sei quem lhes disse que fui um professor. Mas, nessa vida quem não é professor ou estudante?

E assim, eis-me fazendo as compras. Primeiro as sirias ovadas! A freguesa pediu dez reais, por dúzia. Mas tinha umas guardadas num saco à parte, duas dúzias e meia, cujo preço era quinze reais a dúzia.

Salivando como o cachorro de Pavlov, eu me questionava, que vou fazer com duas dúzias e meia de siria se ninguém lá em casa me vai ajudar a degustá-las?

Terminei comprando oito unidades por dez reais. Magníficas!!!! Ovadíssimas!!! As sirias botaram no chulé as ostras que comprei. Acho que naquele horário as boas ostras estavam tentando gerar pérolas.

Depois comprei pitomba e pinha para minha mulher, e limão para acompanhamento das ostras. Só não comprei jaca, porque de ontem para hoje subiu de 4 para 5 reais! Um aumento de 25% numa noite não merece apreço. O comerciante brasileiro tem essa mania: da noite para o dia resolve dar um aumento de 25, 50 e até cem por cento! Triste de quem não guardá-lo de memória.

No mais comprei o filé da carne do sol de meu amigo, colega da fisioterapia do ombro, que está conseguindo levantar o braço bem melhor, e eu também.

Comprei tudo isso e ainda trouxe cinco cinturões, três cartucheiras de celular, uma lanterna de led para meu neto, e agora estou refestelado escrevendo pela primeira vez num teclado Logitech, via bluetuph, se é que se escreve assim, depois de ter degustado as ostras, as sirias, algumas latas de cerveja, e "otras cositas mas".

O que eu quero dizer, é que nada é tão gratificante como ir à feira!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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