“La Chienlit”.

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O termo “La Chienlit”, quando pronunciado em maio de 1968, perplexara a sociedade francesa, por ser expressão em completo desuso, e pleno desconhecimento.

A sociedade de bem-falantes parisienses ficara com a pulga atrás da orelha consultando dicionários enciclopédicos quando o General De Gaulle dissera laconicamente a seus ministros: “La réforme, oui; la chienlit, non”.

A frase refletia uma decisão firme do velho soldado perante a bagunça generalizada que campeava nas ruas da Sorbonne, naqueles idos de 1968.

Por “Chienlit”, após dúvidas repartidas e pesquisas exaustivas, soube-se de um preconceito longínquo contra os cozinheiros que assavam pães nas cinzas, segundo escritos de François Rabelais (1494-1553).

Pantagruel, o filho de Gargâtua, criação de François Rabelais e ilustração de Gustave Doré.

Pelo menos era assim que seu personagem, Gargântua, o pai de Pantagruel, se referia em desapreço àqueles que cozinhavam estes alimentos em meio às cinzas, espécie de “chienlicts”, algo como cama de cahorro; uma manipulação em “leito de merda”, ou sujos assim, a permitir farta interpretação bem além do que pensara o esquecido Rabelais

Só para relembrar, François Rabelais foi um padre francês e também médico, que se notabilizara por escrever obras cômicas como Pantagruel e Gargântua, tidas como obscenas pelos “Sorbonnards” de então, por excessos de insultos, trocadilhos, violência e humor negro.

Pantagruel, por gigantismo exagerado, nascera matando a mãe após um parto doloroso fruto de uma gestação interminável de onze meses.

O sofrimento fora tamanho que sua mãe tentou e intentou castrar Gargântua, para que este nunca mais fecundasse uma mulher.

Já Pantagruel, um glutão gozador, nascera pedindo cerveja, e com uma ereção de várias jardas de comprimento, para delírio de bandalha de quem lhe atava fraldas e o badalo.

Como seu gigantismo ensejava chacotas, Pantagruel entre seus feitos de adulto afundara alguns parisienses, urinando-os sem piedade e ensejando risos do resto da cidade. Pelo menos foi daí que restou o nome da velha Lutércia: “Par-ris” – para riso. Isso para o gozo de Rabelais.

Risos à parte, soube-se ainda que o termo “chienlit” também fora usado por Balzac, Zola e outros autores mais recentes, porque assim se chamavam alguns blocos carnavalescos em que os foliões se apresentavam com os fundilhos manchados de lama ou de mostarda, a insinuar uma diarreia, ou daqueles que assim se sujavam enquanto decaídos pela degradação humana, caso de L’Assommoir (A Taberna). Romance do crítico e ativista político Émile Zola (1840-1902)

“Chi-en-lit”, por outro lado, também representa uma derivação do verbo “chier”,  cagar-se, bem aplicável aos que assim o fazem no leito.

Neste particular, o resmungo de De Gaulle, fora dito e não compreendido, com intenção assaz depreciativa contra a revolta das ruas naquele maio, tido pelas esquerdas mundo a fora, e aqui também, como prenuncio primaveril de liberdade. Um ano que por aqui, e só aqui, restou inacabado; em excesso de tolice histórica e literária. Tudo porque acabou prometendo muito e distribuindo pouco: porrada pouca e muito choro!

Porradas rareadas em tantas lágrimas diluvianas pouco enxutas, mas bem remuneradas à parte e às carradas, o léxico “La Chienlit”, dito pelo General, podia ser tido por seus ministros como um aboio ruinoso da rua, enquanto, canalha insurgente em latidos insolentes.

“La reforme oui; la chienlit non”, repetira o Ministro Pompidou ecoando bestificado o que dissera o General, afinal nem ele o Primeiro Ministro de então, tremendo na onda e no furacão, entendera a tal da “chienlit”, tanto que a repetira com aspas e impostação gaulliennes.

Que seria a “chienlit”? Ninguém soube nem sabia? Perguntava-se a canalha entre doutos e moucos, no seu vasto amparo valhacouto.

Ver-se-ia depois que o general sufocaria aqueles que em tantas gargantas só bem sabem se sujar na cama e provocar desordem.

Utilizo o General e seu vocábulo vigoroso e verberal, porque estamos a viver mais uma vez no país, momentos exagerados de desordem.

Não, não se trata de uma greve convescote estudantil. Um pic-nic de coxinhas e mortadelas, só para citar, maus degustes de cardápios e preferências.

A desordem vem do alto; ensaia-se uma ditadura do judiciário e sua toga perigosa. E a nossa “chienlit” se esbalda em aplauso e grande alarido.

Um Presidente da República fragilizado, quase emasculado, é apeado e impedido de nomear um dos seus auxiliares, bônus ou ônus de um governo, porque precisa da autorização, um consentimento, uma bênção sacral “pro bono”, requerida por uma Associação dita de Advogados Trabalhistas Independentes, tão aérea, nebulosa e inconsistente, de impensável leveza e leviana incerteza, a se desmanchar no vapor do mal fumo, ou do des-fumo do “fumus boni iuris” em procrastinação perigosa e calamitosa sem “periculum in mora”, só para listar termos latinos intestinos a todo e qualquer petição boa ou má redigida.

Redação que recolhe e recebe total acolhimento, sem restrição nem mesmo por horas tardas, silenciosas, ruinosas e trevosas de áridas madrugadas.

Consentimento justamente pelo Supremo Tribunal Federal, um órgão que jamais ressona, com a “chienlit” aplaudindo por via sorrelfa, enquanto vácuo pesadelo de lutas gibelinas e guelfas, ressurgidas no Planalto Central, lá em Brasília, em escaramuças por bem urdidos petitórios, a requerer prole em sucessão de golpes bem consentidos contra Lula e Dilma, e agora contra Temer e o parlamento, para desequilíbrio de Montesquieu e a teoria funesta de insatisfatória congesta, “pero sempre repuesta” em requeridos “checks and balances”, como repetem em cachoeira até por cascata os bons diletantes e falantes.

Porque da teoria dos “checks and balances”, lê-se em “Burr”,  de Gore Vidal, um diálogo memorial ou ficcional entre o matador de Alexander Hamilton (1757-1804), o Vice-Presidente Aaron Burr (1756-1836) de Thomas Jefferson (1743-1826).

Neste diálogo Jefferson, afirmava a seu Vice, ver duas fraquezas na Constituição do nascente Estados Unidos da América.

A primeira era “o chamado direito inerente de qualquer estado para dissolver seus laços com a União”. Uma fraqueza que levaria a uma guerra, meio século depois, mas que dividiria a alma nacional.

A segunda e pouco lembrada, vale à pena repeti-la.

Não era a Presidência Imperial como se podia imaginar: era “o seu medo dos tribunais, particularmente da Corte Suprema, nas mãos de um autocrata como John Marshall”(1755-1835).

E continua Gore Vidal às folhas 375 pondo palavras na boca de Thomas Jefferson: “A questão é tão simples! Marshall acreditava que as cortes têm o direito de revogar atos do Congresso. Isso é intolerável! Golpeia o coração do nosso sistema de governo! E, pelos céus, o fato de esses juízes exercerem seus cargos com vitaliciedade, ora, é um tipo de coisa que representa um convite à tirania!”

Deixando Vidal, qualquer ficção ou exagero real por extensão, confesso que o Congresso Nacional brincou com o fogo ateado por Eduardo Cunha ao elevar a idade da aposentadoria consultoria em demanda à vitaliciedade.  Felizmente foi ele, o Ex-Deputado, o melhor aquinhoado com a sua decisão.

Daí o excesso de desordem, com pedidos e requeridos à exaustão.

E o resultado é o que se vê: Lula respondendo no pelourinho como pior criminoso da nação, e o Ex-Governador sendo acorrentado e açulado como se fora ideal Jean Valjean, um dos Miseráveis de Victor Hugo. Tudo com a “chienlit” aplaudindo na rua.

Do judiciário, ninguém pode eximi-lo, em qualquer tempo, aqui e alhures, que se possa alforriá-lo de inculpação pelos excessos cometidos em todos os momentos onde o terror foi instaurado. Ou alguém duvida que os ditadores e matadores não tiveram muitas togas a lhes aprovar os atos e destratos?

Quanto à “chienlit”, o velho General bem sabia que ela nada merecia; aplauso ou apupo.

Pelo menos fora assim que De Gaulle dissera a seu aliado Georges Bidault (1899-1983) da Resistência Francesa, quando da parada vitoriosa na Avenida Champs Elysée em demanda ao Arco do Triunfo, isso em agosto de 1944, contemplando tanto excesso de coragem perante o nazismo, em tanto aplauso e demasia: “Alors, Bidault, c’est la chienlit!

Sem falar do bom convívio e submissão perante o invasor, para boa lembrança e até por denuncia de lambança, aquele mesmo cenário e em meio aos mesmos circunstantes, as tropas nazistas vitoriosas realizavam suas paradas ao escafedo da assistência ao seu redor.

Depois nada acontece, porque a “chienlit”, sem brio, nem cio, sempre se suja sem desvio; no leito e na calçada, no eito e na calça, e até no meio fio, por desbrio. “Cette  chose de merde seulement”.

Vivemos tempos terríveis de “Chienlit”! Ou não?

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