Um bem amado na Academia

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A Academia Sergipana de Letras vem se renovando de tempos em tempos, ancorada em seu passado histórico  mas com  olhar atento ao presente. Na semana que passou ela se engalanou para receber uma pessoa ilustre. O médico e escritor Paulo Amado foi empossado na Cadeira 6, na sucessão do jurista, professor e poeta José Amado Nascimento, falecido recentemente. Na verdade, Paulo assume um posto de eminentes personalidades, desde o patrono, Gumersindo Bessa, passando pelo fundador da cadeira, o inolvidável Gilberto Amado. Faz-se assim uma transição, de “amado para amado”, na melhor geração de nossos intelectuais.

A solenidade de posse foi magistral, no melhor estilo clássico, com pompa e circunstancia e grande assistência. Os discursos de José Anderson Nascimento, que fez a saudação acadêmica e a do recipiendário, foram magníficas, à altura de suas competências. Portanto, mostrou-se temerária e arriscada, além de fugir ao protocolo padrão, a minha participação para saudá-lo em nome dos meus pares da Academia de Medicina. Mas falou mais alto o coração, bem

Amado presta o Juramento de praxa acima da razão. Deixo com vocês, para apreciação:

Excelências, Confrade Paulo Amado Oliveira,

O dizer de Brecht cai bem em você: “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”

A sua trajetória de vida já o tornou imprescindível para as entidades médicas, nas quais a presença constante em todas elas sempre foi incessante e que agora passa a ser imprescindível também para as entidades culturais e literárias do Estado. Integrando a Academia  Estanciana de Letras, o Movimento Cultural Antônio Garcia Filho, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, os institutos e instituições da Igreja Apostólica Romana, a nossa Academia de Medicina e a SOBRAMES Sergipe, a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – que presido atualmente, transmuda-se num gigante nas horas mais difíceis, sempre presente, doando a sua inteligência e capacidade de arregimentação na busca de soluções.

Para mim, é um honra sem medida poder saudá-lo, na hora que adentra à Casa de Tobias, representando os meus pares da Academia Sergipana de Medicina, na qual você ocupa a Cadeira de número 20, que tem como Patrono o Dr. José Thomaz D’Ávila Nabuco, na sucessão do professor José Leite Primo, desde 27 de agosto de 2008 quando ocorreu a sua posse, sendo saudado na ocasião pelo colega e confrade Antônio Carlos Sobral Sousa, médico e escritor, ciência e literatura pujantes, nome que honra a sociedade sergipana, pesquisador de renome, festejado na medicina brasileira e mundial, digo sem medo de errar, um exemplo de profissional no desempenho de suas funções de médico e professor, pautando-se sempre na respeito pela pessoa humana e na partilha de conhecimentos. Bastou apenas seis anos, nobre esculápio, para que assumisse o mais alto cargo do sodalício, a presidência da Academia Sergipana de Medicina. A sua administração à frente da Casa de Gileno, por dois mandatos, foi de uma marcante presença e de múltiplas realizações.

Agora, você chega para compartilhar a ciência com a cultura, a medicina com a literatura, por isso seja bem-vindo.

A doença nasce em silêncio, seja pela ação de germes, ou de substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. E, em algum momento, algo chamará a atenção: uma febre, uma dor, uma tontura, uma falta de ar…. A consciência da anormalidade desperta a angústia, e a angústia se expressará em palavras. Mais cedo ou mais tarde um médico as ouvirá. E também ele traduzirá aquilo que ouviu, aquilo que constatou, aquilo que pensa, em palavras. Palavras dirigidas ao paciente, aos familiares, a outros médicos, a estudantes, ao público. Pessoas falarão da doença, pois não há como não falar nessa experiência que todos partilhamos. Frequentemente as palavras serão postas no papel: a história clínica, o artigo científico, o ensaio, a ficção.

A história da medicina é uma história de vozes. As vozes misteriosas do corpo: o sopro, o sibilo, o borborismo, a crepitação, o estridor. As vozes inarticuladas do paciente: o gemido, o grito, o estertor. As vozes articuladas: a queixa da doença, as perguntas inquietas…A voz articulada do médico: o diagnóstico e o prognóstico. Vozes que falam da doença, vozes sábias, resignadas ou revoltadas. Vozes que se querem perpetuar, palavras escritas em argila, em pergaminho, em papel; no prontuário, na revista, no livro, na tela do computador.

É da palavra escrita que tratamos aqui. Os médicos escrevem. É natural que os médicos escrevam. Eles habitam o universo da palavra escrita. Sempre buscaram conhecimento em textos clássicos e até pensam, segundo o aforisma do grande clínico William Osler, no paciente como um texto. Um texto às vezes fácil, às vezes difícil. A medicina trabalha com uma margem de incerteza que não é habitual nas ciências. O escritor Somerset Maugham, que estudou medicina, lembra que seu professor de anatomia lhe pediu que procurasse  certo nervo no cadáver. Ele não encontrou, porque não estava no local habitual. Comentário do professor: em anatomia, o normal é a exceção. O normal em medicina é um evento estatístico.

Essas reflexões estão contidas no livro “A Paixão Transformadora – história da Medicina na Literatura”, do médico e escritor Moacir Scliar e mostra a enorme afinidade entre a medicina e a literatura.

Completam-se, pois,  em você, confrade Paulo Amado, os postulados de Brecht.

Do médico e do escritor, do agente de cultura, que se senta doravante na Cadeira 6, de Gumercindo, patrono, Gilberto Amado, fundador, e do seu antecessor, José Amado Nascimento. O mundo precisa de “imprescindíveis” como você!

Como escreveu Camões, nos Lusíadas, no Canto Décimo, 154: “

Mas eu que falo humilde, baixo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Das bocas dos pequenos sei, com tudo,
que o louvor sai às vezes acabado…
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente”.

Eis, pois, uma posição difícil de distinguir: entre o coração e o cérebro, a mente e o sofrimento, o ideal e o pragmático, ao homenagear o confrade Paulo Amado Oliveira na ocasião de sua posse nessa vetusta Academia.

Parabéns, confrade, muitas felicidades nessa nova caminhada.
O mundo sempre vai precisar dos imprescindíveis.

Obrigado a todos.

(Discurso pronunciado pelo Acad. Lucio Antônio Prado Dias, em 1º de agosto de 2018, na posse do Dr. Paulo Amado Oliveira, na Cadeira 06 da ASL)

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