Máscara e camisinha: a difícil luta pelo convencimento

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Vivenciamos duas Pandemias. Uma é destaque em todos locais do mundo: a Pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19. A outra anda um pouco esquecida: a Pandemia do HIV, vírus causador da Aids. O número de casos de Covid-19 no mundo chegou a 13 milhões com 570 mil mortes. O número de casos de HIV/Aids no mundo chega 35 milhões com outros 35 milhões de mortes. A prevenção de ambas depende de mudança de atitude das pessoas.

As pandemias da Covid-19 e Aids apresentam fatores em comum. Ambas podem levar ao óbito. Isso poderia assustar as pessoas, contribuindo para mudança de comportamento e, consequentemente, favorecendo ao uso, respectivamente, da máscara e do preservativo. Mas na prática, isso não ocorre. Temos muita gente não usando a máscara ou usando no queixo ou na cabeça, como também temos pessoas não usando o preservativo nas relações sexuais ou colocando a camisinha de forma errada.

Por que é difícil convencer as pessoas

São vários fatores que influenciam negativamente para a prevenção dessas pandemias. Ambas começaram com notícias falsas, que hoje são chamadas de Fake News. No início da Aids, existiam várias informações erradas e mitos que dificultavam o nosso trabalho de convencimento para as pessoas usarem a camisinha. Na pandemia da Covid-19, informações equivocadas vêm contribuindo para o não uso da máscara.

Em primeiro lugar, o chamado  “Pensamento Mágico”: a ideia de que este problema não acontece comigo e sim com os outros. Em segundo lugar, a questão da morte ficou banalizada. Parece que morrer de covid-19 ou de Aids virou uma rotina. Ideias errôneas e preconceituosas sobre as mortes, atrapalham a prevenção: “os números de óbitos são mentirosos”; “a covid-19 só mata   idoso” e a “Aids é doença só de gays e prostitutas”. Em terceiro lugar, a divulgação de mensagens erradas tanto sobre o uso de máscara como com relação ao uso da camisinha.  Um médico do Rio de Janeiro divulgou nas redes sociais que “se usar máscara, o gás carbônico vai aumentar no sangue, que ficando ácido, favorece a infecção pelo novo coronavírus”; alguns políticos se exibindo publicamente sem máscara desafiando a pandemia, confundem a população e prejudicam a prevenção. Outro fato que confundiu a população foi que, no início da pandemia, o uso das máscaras estava limitado a pessoas com sintomas da Covid-19 e a quem estivesse próximo a elas, seja um profissional de saúde ou não. Depois veio a orientação da OMS, para que todos usassem máscaras.

Com relação à Aids, tivemos opiniões contrárias em diversas situações: no início da epidemia do HIV na  África, políticos procuraram negar a existência do vírus dizendo que as pessoas estavam morrendo de fome e não de Aids; religiões eram contrárias à divulgação do  uso do preservativo  pois diziam que “incentivavam o sexo” ou que o HIV passava pela camisinha; profissional de saúde  dizendo que  paciente grávida  não usasse o preservativo nas relações sexuais pois ia prejudicar o bebê; outros profissionais diziam que “usar camisinha resseca o útero”.  Algumas pessoas divulgavam que a camisinha tirava o prazer.

É importante lembrar que tanto o novo coronavírus como o HIV provocam infecções, na maioria das vezes, assintomáticas e que, no caso do HIV, já existem, além da camisinha, medicamentos, que comprovadamente reduzem a carga viral e diminuem a transmissão, em até 90%, de uma pessoa para outra.

Uma grande diferença do uso da máscara na prevenção da covid-19 para o uso da camisinha na prevenção do HIV é que, na covid-19 as duas pessoas que estão próximas ou em contato físico têm que usar a máscara, enquanto que na prevenção do HIV, basta uma das pessoas usar corretamente o preservativo masculino ou feminino.

Considerando que as aglomerações se constituem no maior potencial transmissor do novo coronavírus, podemos concluir que na prevenção da Covid-19, a decisão  tem que ser coletiva: “se nós estamos com  máscaras e chegamos em um ambiente com pessoas sem máscaras, todos nós estaremos expostos ao novo coronavírus”.

Precisamos ser “fiscais de máscaras” solicitando que as pessoas se protejam pois assim também estaremos protegidos. A outra alternativa é “nos retirarmos do ambiente que tem pessoas sem o uso das máscaras.”

*Almir Santana, médico sanitarista, da Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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