Max Gallo será lembrado

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Faleceu no dia 18 de julho passado o escritor, historiador, político e ensaísta francês Max Gallo.

O escritor Max Gallo

Nascido em Nice, em 7 de janeiro de 1932, o mediterrâneo Max Gallo possuía  descendência italiana de pais oriundos das regiões de Parma e do Piemonte.

Seu pai, um autodidata com extrema facilidade para consertos mecânicos, gostava de ler e estimulava o filho para a área de ciências exatas, tendo Gallo, por causa disso, se orientado para o estudo de Matemática.

Sobrevivente dos Dardanelos, grande desastre marítmo da 1a Grande Guerra (1914-1918), seu pai fora também um dos que resistiram à ocupação de Nice pelos alemães, durante a derrocada da França perante as tropas de Hitler, agora na 2a Grande Guerra (1939-1945).

Por ter participado de várias lutas e dificuldades inerentes à política, testemunhando a perda de amigos e familiares, e visto outros desconcertos e escaramuças daqueles tempos, inclusive por trazer consigo a memória sofrida de quem emigrara para Nice, em consequência dos reflexos intrínsicos das lutas pela unificação italiana, em história familiar memoriada em sua ancestralidade, seu pai queria que o filho se dedicasse a coisas práticas.

Se o pai pensava assim, a mãe gostava de poemas, recitava trechos da Divina Comédia e a avó sempre estava a repetir os fatos de sua vida, iniciando com a palavra “Amarcord”, que no seu dialeto, queria dizer: “Eu me lembro”.

Amarcord”, que depois resultou o grande filme de  Felline, imortalizando o nome ao relembrar fatos vividos de uma Itália que ficara na lembrança para jamais restar esquecida.

Após estudar Matemática, Max Gallo enveredou pelo estudo da História, e em particular da História da França, produzindo mais de cem livros, entre ensaios, ficção e biografias.

Alguns livros de Max Gallo

Do meu conhecimento, destaco as memoráveis biografias de Napoleão Bonaparte (4 volumes), Charles De Gaulle (4 volumes), Rosa Luxemburgo e Cesar Imperator.

Sobre a História da França, destaco ainda as séries, misto ficcional e realidade Les Patriotes (4 volumes) e Bleu Blanc Rouge (3 volumes).

Em Les Patriotes  Gallo destrinça o contexto ideológico  e político vigente durante os anos 1939-1945, hoje esquecido em tantos heróis surgidos, e outros convenientemente mimetizados pela sombra que tudo obscurece, afagando e apagando erros, a evidenciar que o fracasso é órfão e as vitórias possuem muitos pais.

História e Ficção.

Já em Bleu Blac Rouge, Gallo conta a história de seis famílias vivendo a História da França desde os idos do Terror da Grande Revolução Francesa, passando pela Revolução de 1848, a derrota de 1870 frente as tropas de Bismarck, o Caso Dreyfus, a 1a Grande Guerra e a 2a Guerra.

Tempos em que se destacam três mulheres: Mariella, Mathilde e Sarah, partícipes da trama que as acolhe num cenário tumultuado por real.

Há uma outra série que me prendeu por mais encanto. Trata-se da saga Les Chrétiens (3 volumes).

Conversão cristã da França: Saint Remi, Saint Martin de Tours, o batismo de Clovis com a unificação das Gálias e Saint Bernard de Clairvaux.

Nesta saga há um prólogo notável sobre a reconversão de Max Gallo à religião católica, ele que passara cerca de trinta anos afastado da Igreja.

Tudo aconteceu a partir de uma visita fortuita de Gallo à Igreja de Saint-Sulpice, por ocasião do batizado de um seu familiar.

Antes do batizado, conta Gallo, o sacerdote aproximou-se, dizendo-lhe: “Eu conheço seus livros. Você está no caminho. Você procura a unidade”.

“Você já leu os sermões de São Bernardo?”. Inquiriu o sacerdote. “Ele escreve num deles: ‘O que é necessário é a unidade, esta excelente parte que nunca nos será retirada. A divisão cessará quando vier a plenitude’”.

“Por que você não escreve um grande livro sobre os Cristãos?” Prosseguiu.

“A maneira como a Gália foi evangelizada e se tornou a França, permanece mal conhecida, misteriosa, opaca mesmo, para a maior parte dos franceses. Quem conhece a vida de São Martim, as circunstâncias do batismo de Clovis, ou as obras em pedra e palavras de Bernardo de Clairvaux? Eis aí as três colunas que sustentam o edifício de nosso país. Pense nisso! O batismo é o momento capital, a entrada na comunidade dos crentes, no seio da Igreja, o ato pelo qual tudo se torna possível. O Batismo é um ato de Esperança, para o batizado e para todos que o assistem”.

As palavras do padre tocaram o escritor quase o levando às lágrimas.

Estava afastado da Igreja há trinta anos, desde quando soubera do infausto acontecimento do suicídio de sua filha Mathilda aos dezesseis anos de idade.

E este choque terrível ele o recebera, justamente ali, na Pracinha de Saint-Sulpice, local onde possuía um pequeno escritório.

Daí para frente, na sua vida não mais houvera lugar para discussões sobre a Fé.

Quem também, entre todos da sua convivência desde aquele tempo, teria ousado falar de Deus e da Igreja se tinham tanto a realizar para mudar o mundo aqui em baixo?

Fora assim a sua vida. Procurava dissimular o suicídio da filha; o sentimento de culpa que o atingira, afinal aquela menina surgiu de uma gravidez indesejada tanto para a mão quanto por ele. Eram jovens, imaturos ainda, e se o aborto não foi tentado, o parto chegou em meio a dificuldades das quais preferia não falar a guisa de tentar esquecer.

Isso roera o pouco de crença que resistia à chaga aberta que guardava no íntimo sem confidências.

Houvera cassado Deus dos seus pensamentos, retomando os combates e os debates em nível do rés do chão, onde são preenchidas as nossas vidas em barulho e furor.

Escrevera vários livros, sofregamente, como se estivesse a querer um abrigo, um consolo.

Nunca estivera a falar da Fé, da religião de tantos homens, ou desenhado a figura de Deus.

O seu céu era vazio. Estava convencido de que o futuro não mais poderia pertencer às velhas religiões que apodreciam sob o seu olhar.

Seu desejo era que estas, sobretudo a Católica, fossem sepultadas, sem choro nem vela, sobre os seus compromissos com os poderes.

“Que as igrejas cada vez mais vazias fossem transformadas em salas de baile ou de conferência!” Pensava.

“E que os padres se casassem. Ora essa! Que se tornassem acinzentados como a multidão!” Imprecava.

Esta era a sua vontade. E a repulsa lhe era tão forte que o impedia de ingressar na Igreja até para ver uma solenidade qualquer, como aquele batizado de um seu familiar, cuja presença infirmaria um reparo.

Preferia permanecer fora da Igreja. E ali só entrou porque um familiar insistira. “Eu já vou”, lhe disse, “eu sou um crente”.

Daí para frente, Max Gallo virou um homem cheio de Deus. Estava impregnado pelo absoluto como Claudel.

Max Gallo também foi político. Pertenceu ao Partido Comunista, aderiu ao Partido Socialista, foi Deputado, chegou a ser porta-voz do primeiro-ministro Pierre de Mauroy, sob a presidência de François Miterrand, tempo em o Ex-presidente François Hollande fora seu secretário particular.

Como intelectual tentou ingressar na Academia de Letras da França, concorrendo à cadeira número 10, vaga com a morte do Filósofo Jean Guiton. Só conseguiu seis votos. Foi derrotado por Florence Delay.

Com a morte de seu amigo JeanFrançois Revel em  2007, Max Gallo o substitui ocupando a cadeira 24 da referida Academia.

Há uma influência notável de seu pai. Ele lhe deu a primeira máquina de datilografia: “com ela tu conquistarás o mundo.”

“Eduque tua vontade – dizia também –  se eu te legar isso, não terei desperdiçado minha vida.”
Quando da morte de Sacco e Vanzetti na cadeira elétrica seu pai comentou numa entrevista republicada no Figaro Magazine: “Os homens não são ratos, mas são tratados como se assim fossem. A vida não é um paraíso. Tenha uma vontade de aço, senão…”

“Eu estou de pé nos ombros de meu pai”, Max Gallo repetia uma frase que não era sua.

Também era sua a convicção de Rigord, monge da Abadia de Saint-Denis do século XIII: “Não morrem, nem vão para o inferno senão aqueles de quem não conseguimos  lembrar O esquecimento é a astúcia do diabo”.

Max Gallo será lembrado.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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