Missão de pai, em desafios e desavios

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Eu acho que a maior missão de um pai de família é ser o provedor da casa.

 

Quem assim não pensar, não se case, nem constitua família.

 

Ao dizer assim, eu quero consignar que a paternidade irresponsável, como o abortamento, deveriam ser criminalizados. Todos dois, porque são crimes contra o menor, o insubsistente. Um crime de quem se exime como provedor de uma sua descendência.

 

Qual seria a pena não sei.

 

Já o estuprador, um amigo meu acha que deveria ser, capado a macete em praça pública.

 

Na França há uma discussão sobre a castração química; a ingestão de uma droga que inibe a libido do tarado.

 

Não chego a tanto, mas eu lembro do pai de um amigo, que lá pras bandas de Japaratuba, castrou um indivíduo, nos anos 50, que lhe estuprara uma filha menor. Caso verídico, com direito a processo e escândalo.

 

Se fosse a júri popular eu não condenaria. Chamem-me de medieval, radical, o que quiserem. Estuprador me dá mais do que nojo. Revira-me o ser, literalmente, como se estivesse a me desavessar em vômito, despertando em mim o desumano.

 

Aceito, porém, quem pense diferente. É lamentável! Coisas do humano! Se há muito gaiato que insinua à estuprada um orgasmo conferido e bem consentido, ao estuprador sempre se achega muita condescendência e tolerância.

 

Igual a esta tolerância com o caso da menina de Abaetuba no Pará, presa numa cela com vinte homens. Tolerância que dizem ser normal lá pras bandas da Amazônia, justamente na terra das mulheres guerreiras.

 

Mas este não é o meu tema. Pretendo falar de uma entre tantas missões de um pai.

 

Devo acrescentar também, só para não abandonar o tema inicial de criminalizar a paternidade irresponsável, que uma coisa terrível que a isso somo, por mais desprezível, é uma mulher deixar-se iludir e engravidar por quem não a respeita, sobretudo com os métodos de contracepção existentes, tipo camisinha e anticoncepcionais, sem falar no principal, conservar-se pura e íntegra.

 

Porque a paternidade é coisa seria. É um dom de Deus que não deve ser conduzido na irresponsabilidade de uma farra imprevidente.

 

Ser pai é prover, educar, zelar por sua prole, sua responsabilidade e não de outrem.

 

E eu ingresso neste tema, porque estamos num novo ano, às vésperas do retorno das aulas, pegando o mote de uma conversa ouvida nestes bate-papos da vida com um profissional liberal bem sucedido, que estava a me reclamar dos gastos que teria com a educação de seu filho único.

 

O curioso é que este papo se dava, logo após um outro, bem mais medíocre, em que ele destilava o seu conhecimento como refinado degustador de vinícola européia, bom freqüentador que é, dos restaurantes sofisticados de iguarias custosas.

 

E eu o ouvia, sentindo-lhe ainda no hálito o mordiscado bacalhau à lagareiro, com batatas ao murro, regado a uma botelha de Quinta da Bacalhoa, que ainda exalava na dentição mal escovada.

 

Dava murros contra a exorbitância do custo do material escolar, das aulas de reforço, do curso de inglês, tudo o que será maior assunto nestes primeiros dias que antecedem o ano letivo de seu filho menor.

 

E eu me sentia incomodado com a conversa porque nunca considerei um gasto na educação de um filho como algo a reclamar, entre tantas coisas que nos rodeiam.

 

Sempre achei, como investidor que não sabe onde encontrar maiores lucros, e bebedor de vinhos mais modestos, que o único e essencial investimento de minha vida seria a educação de meus filhos. E continuo a pensar assim, agora que estão adultos, colhendo as próprias vitórias.

 

Talvez seja porque eu nunca tenha visado uma outra vitória, com maiores sucessos pessoal ou financeiro. Talvez seja porque eu não seja movido a dinheiro. Talvez seja por burrice, preguiça, ausência de esperteza e vivacidade, ou uma mistura de pouca e rala criatividade, elegemos Tereza e eu, a educação de nossos filhos como meta maior familiar.

 

De forma que nada nos é mais gratificante do que o sucesso deles, dos três, cada uma a seu modo, sem exceção.

 

A exceção para mim, é ver ainda nestes tempos em que só o saber conduz ao poder, muita gente imaginar que cultura é bem supérfluo, um gasto desnecessário, consigo e com seus filhos.

 

E assim este papo de reclamação de preço de colégio, de livro, de farda, etc, não é um assunto que me agrada. Chego a achar lamentável estes ajuntamentos de pais que acreditam poder pressionar por uma redução das mensalidades escolares sem o aviltamento do ensino contra-prestado pela escola.

 

Mas, enfim, eu tenho que os aceitar, sob pena de não ser apedrejado na rua, por um anônimo qualquer, afinal muitos acham que isso tudo é uma guerra, que é sempre possível regatear, e os pais têm que se armar de tudo contra os donos de colégio.

 

Acho que há coisas que não têm preço. E educação é uma delas, sobretudo num bom colégio.

 

Porque há colégios e há colégios. E eu sei disso, sobretudo, porque não sou dono de colégio.

 

Há inclusive alguns colégios que tudo prometem em sucesso e facilidades. São enganadores que se servem do marketing para alisar o enrugado; coisa de cosmética, de máscara e de encenação. Porque o que evita o fracasso e conduz ao sucesso é o esforço, a dedicação e persistência.

 

Dito assim, é preciso destacar que não basta colocar um filho num bom colégio. É preciso acompanhá-lo sempre nos exercícios e provas, sobretudo nos exames mais importantes.

 

No meu caso particular, por exemplo, sempre estive junto a meus filhos lhes tirando dúvidas de matemática, física, química, história, português, inglês e literatura, estudando o que não sabia pra melhor supri-los.

 

Acrescento ainda que se o assunto enveredava por outros temas, nos quais sou semi-analfabeto, bastava-me acompanhá-los nas vigílias de estudo; eles lá queimando as pestanas, eu perto deles estudando as minhas coisas.

 

Hoje ao relembrar tudo isso, com meus filhos em sorriso de lembranças, eu agradeço a Deus por me fazer sonhar apenas com estas coisas tão pequenas, tão sem brilho e sem alardes. Afinal a vida nos desafia muito mais que isso. A maior parte passageira e fugaz. Alguns descaminhos inclusive.

 

“Não há nada de novo debaixo dos céus”, diz a Bíblia, um livro de muitas verdades, em lição sempre correta e permanente. Porque a obra humana se desfaz na “insustentável leveza do ser”, só para usar o mote de Milan Kundera no seu romance cantante de vida e esperança, em meio às angústias e as misérias dos homens.

 

E assim eu termino neste início de 2008 de muitas esperanças, em que falei de violências, estupros, acepipes e gozos rotineiros e passageiros, conclamando os pais a jamais negarem o leite e a cultura à sua descendência.

 

Que em 2008 saibamos vencer os nossos desafios e desavios.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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