Mourão, Mourão!

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Macuina o filme

A semana que passou me permitiu discutir alguns temas: coisas daqui, de nosso noticiário político; sem afastar o que nos vem de além, de la de fora, e de outrora em reflexos do que foi e do que volta, por ricochetes de projéteis perdidos em reflexos sem genuflexos.

Refletirei sobre o destaque “mal dito” pelo General da Reserva Remunerada do Exército, Hamilton Mourão, o candidato a Vice-Presidente da República, pelo PSL, na chapa encabeçada pelo Capitão, também da Reserva, o Deputado Jair Messias Bolsonaro, o Mito.

A grande imprensa, entre o dito e o não dito, e já cansando de bater no Lula, esqueceu o erudito e o que era dito, para desancar um novo mito, e seu Vice que passou a ser “maldito”.

Num arrebito de quase vomito, em dito, quase de delito, por calamitoso e desdenhoso, afirmara o general enquanto pérola de um outro mito, muito em voga antigamente, em escrito bem antigo quase proscrito, o famoso “mito das três raças”, ou das “três raças tristes”, partido do eugenista Conde Gobineau.

Esqueceram que tal mito passara destacado por Sergio Buarque de Holanda, no clássico “Raízes do Brasil”, e em outros que o reverberaram como Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, Roberto DaMatta, e até Fernando Henrique Cardoso, autores que segundo Jessé Souza, em seu recente livro “A Elite do Atraso, Da Escravidão À Lava Jato”, tiveram uma leitura decantada, “cuja influência continuada na cabeça das pessoas nos faz (ou nos tem feito, acrescento eu) de tolos”.

Influências significantes discorridas por Jessé que vê estes intelectuais “legitimando uma dominação oligárquica e antipopular com a aparência de estar fazendo crítica social”, assaz “amados pela direita e esquerda”.

Daí, ”’o brasileiro genérico’, o homem cordial de Sérgio Buarque, ou o homem do ’jeitinho brasileiro’ para um DaMatta”.

E até com esgares de escraches, risos e preguiças bem anotadas por Grande Otelo e Paulo José as visões macunaímicas tão exemplares, que nem Mario de Andrade pensara assim.

E aqui eu recomendo não só o livro de Jessé Souza, já citado, e o de Eduardo Gianetti, “O Elogio do Vira-Lata”, por contraponto.

E recomendo também rever, tanto o filme de Joaquim Pedro de Andrade, “Macunaíma”, quanto alguma apresentação de Chico Anísio com o seu personagem “Beto Carneiro, o vampiro brasileiro”, figuras inerentes a este pensar cordial, genérico, incompetente e de discutível caráter.

Neste particular, Macunaíma (Grande Otelo) é o anti-herói preguiçoso e sem caráter, nascido negro no sertão, mas que vira branco (Paulo José), vai para a cidade com os irmãos, se envolve com prostitutas, guerrilheiras, e enfrenta todo tipo de gente em sua jornada.

O filme foi lançado em novembro de 1969, em pleno regime autoritário militar, com Dina Sfat, Milton Gonçalves e Jardel Filho no elenco, classificado como comédia, exibindo músicas de Heitor Villa-Lobos, Jards Macalé, Orestes Barbosa, Sílvio Caldas e Antônio Maria.

Deixando o filme e as vinganças malignas do vampiro brasileiro, direi que Jessé Souza rediscute a nossa “Antropologia Social” e outros escritos festejados pela nossa intelectualidade que tinha o sociólogo Fernando Henrique Cardoso melhor guru das esquerdas descabeçadas.

Digo “das esquerdas descabeçadas”, porque por longo tempo fora assim.

FHC Vingara como um Dom Sebastião, “esperado por desejado”, não por ter falecido lutando em terras de África, mas por ter ressurgido como “un grand renard Sorbonnard”, tido como sofrido e perseguido pelo malfadado regime militar que o imaginara comunista perigoso.

E trotskista quem o sabe?, porque restou idolatrado e bem-amado pelas esquerdas em seus maus perlustres, tanto que vicejou como socialista, revolucionário discípulo de Caio Prado Junior, discursando em porta de fábrica para se eleger Senador, mas que se revelou um Presidente de uma República antraz privatista, neoliberal, falsa bandeira direitista sem igual.

Agora, quando a direita ousa dizer o seu nome e FHC não voga mais, eis que surge um novo Mourão, o candidato a Vice do Bolsonaro.

Digo um novo Mourão, porque houve um outro general, Olímpio Moirão Filho, o comandante que botou a tropa na rua em 31 de março de 1964, de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, deflagrando o movimento militar, tido como “Revolução” à direita e “Golpe” à esquerda, que implantou por duas décadas o “Regime Militar” ou “Ditadura Militar”, para gostos e desgostos iguais.

Deste primeiro Mourão, fala-se ter sido o autor intelectual do “Plano Cohen”, famoso esquema para a derrubada comunista, descoberto pela “inteligência” do Exército, e que foi recebido com alardes pelo seu Estado Maior, nos idos de 1937.

Tal plano levou o Presidente Constitucional de então, Getúlio Vargas, dar o golpe militar de 1937, cancelar as eleições marcadas, sendo instituído o “Estado Novo”.

Getúlio com este golpe ficou no poder por oito anos, agora como ditador, apoiado pelos generais Góes Monteiro e Eurico Dutra, sob uma nova Constituição, a “Polaca”, da lavra do jurista Francisco Campos, o “Chico Ciência”, outorgada pelo próprio Vargas, o Ditador Sorridente, carta de inspiração polonesa, não de Karol Vojtila, o Papa João Paulo II, mas de Josef Pilsudisk, o então Presidente autoritário da Polônia. Isso, porém, é história, fato irreversível que não voga mais.

Deste primeiro Mourão, cujo livro de Memórias possuo, inclusive com aportes de Hélio Silva, há toda descrição da tropa desfilando vitoriosa sem resistências, atravessando o Rio Paraibuna, divisa Minas-Rio de Janeiro, chegando no Ministério da Guerra, na Avenida Presidente Vargas, bater continência ao seu superior o General Costa e Silva, que o mandou se recolher à sua, digo eu, insignificância.

Sem jumentos a apear, nem obelisco a apoia-los, Mourão viu-se igual ao que jamais quisera ser: uma “vaca fardada”, somente.

Porque era assim que ele se entendia quando na reserva estivesse como “General de Pijama”.

Já o Mourão atual, na ativa ou na reserva, tem se revelado igual ao outro, falastrão.

Na ativa andou dizendo coisas a desafiar o Presidente da República seu superior constitucional.

Como o Presidente Temer apanha de todos; sofre o diabo, pior que sovaco de aleijado, de delegado a juiz, de promotor a ministro, sinistros gravames, gravados e degravados, milícias de polícias em muitas promessas de sevícias, o general restou não punido e aplaudido, tanto que agora virou candidato a Vice-Presidente da República.

E é como recém candidato, que restaura em palavras tolas uma imprecação reportadamente mal ecoada pela nação.

Disse o Morão general: “Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem. Nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano. Então, esse é o nosso ‘cadinho’ cultural”.

Num caidinho divergente, como se dizia na minha infância nas quedas dos dentes de leite: “Mourão, mourão, leve esse dente podre e me traga um são!”

Mourão, Mourão, o dentre podre jogado, com tanta vitupério e condenação, é refém do velho mito das três raças tristes, não lembrados mais por ninguém, que se crê agora não mais possuir o “Complexo de Vira-Lata”, só porque Nelson Rodrigues não veria a “Pátria de Chuteiras” tomar a exemplar surra de 7 a 1 contra os conterrâneos de Kant e Schiller.

Oportunidade para lembrar Tobias Barreto o nosso melhor germânico, para quem o “gigante se conhece pelo tamanho da unha”, que lamentava o ufanismo de nossos estuários em tão desértico pensamento.

Tobias que contemplara o que lhe saltava aos olhos, enquanto “fenômeno mais saliente da vida geral do País, a falta de coesão social, o desagregamento dos indivíduos, alguma coisa que os reduz ao estado de isolamento absoluto, de átomos inorgânicos, quase podia dizer, de poeira impalpável e estéril”, no dizer de João Gaspar Rodrigues, em seu texto “O caráter do povo brasileiro: um tributo ao pensamento de Tobias Barreto.

Constatação tobiática rodriguiana de que o nosso povo era e continua, “amorfo e dissolvido, sem outro vínculo entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo… Bem entendido: quando se trata do povo, no sentido elevado da expressão, e não, como sucede por exemplo entre nós, de um simples nome coletivo, que significa uma multidão de homens, como porcada quer dizer um grande número de porcos”

E haja porcos e porcadas, com ferroadas de zangões!

E muitas cabeçadas de zangados mourões!, afinal o urro continua, em rugido de galeras e muitos gritos de gol em solfejos inescapáveis à sagacidade de Tobias.

De Gaspar Rodrigues bem se poderia continuar, afinal “essas são as notas que parecem permanentes no caráter nacional brasileiro, e que não escaparam à sagacidade de Tobias”, entre tantas por “ele acrescentadas, como por exemplo: a mania de imitar outros povos e outras formas de governo, importando modelos políticos; a afilhadagem e o compadrio; o otimismo imediatista e a ausência de ideal, que nos leve, este último, a certa penúria moral e à falta de missão”.

E por último, em áureo arremate sem zurra e urros de gol, decepcionado e questionador, deblaterava o mulato sergipano que em “mangas de camisa” em gritos ecoados bem além de Escada ao Recife: “Por-que-me-ufano-do-meu-país, que conduz a cantar os grandes rios e não os grandes homens?”

Por que não colocar entre estes grandes homens, o pernambucano de Apipucos, Gilberto Freire, e seu monumental Casa Grande e Senzala, que longe de ver o encontro das três raças tristes, e o consequente vira-latismo pátrio entranhado e enquistado no politicamente correto, que só desconstrói por obscuro?

Freire que viu no caldeamento das raças a ternura e a escultura de um povo bonito, inteligente e criativo, que bem melhor se faria, se se autocontemplasse, um pouco como Narciso, em melhor sizo.

Para concluir, e ainda perquirindo sobre a fala do Mourão e as três raças tristes, lembremos do carioca Olavo Bilac e seu soneto, flor amorosa, destas raças nossas.

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.

A fala do general Mourão, para mim foi notável, afinal nos levou a pensar um pouco sobre o que somos e desejamos.

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