MUSIQUALIDADE

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M U S I Q U A L I D A D E

 

R E S E N H A

 

Cantora: VANESSA DA MATA

CD: “BICICLETAS, BOLOS E OUTRAS ALEGRIAS”

Gravadora: SONY MUSIC

 

Antes de lançar seu primeiro disco, a matogrossense Vanessa da Mata já vinha sendo incensada pelos aficcionados em MPB: é que ela havia composto com Chico César, então um talento emergente, a canção “A Força Que Nunca Seca”, gravada por Maria Bethânia em seu álbum lançado em 1999, o qual, aliás, terminou recebendo esse mesmo contundente título.

O primeiro CD (lançado em 2002) já mostrava uma artista talentosa, mas o fato é que ele não aconteceu de imediato. Foi preciso a intervenção poderosa da TV Globo para fazer com que os olhos do grande público se abrissem a Vanessa e isso se deu com a inclusão da regravação de “Nossa Canção” (de Luiz Ayrão) na trilha sonora da telenovela “Celebridade”. Inicialmente, esta música não estava presente no repertório do disco de Vanessa, o que se deu depois, numa apropriada reedição, mas a verdade é que terminou fazendo com que outras canções da cantora, dali em diante, começassem a ganhar as rádios (caso de “Não Me Deixe Só” e “Viagem”). O trabalho seguinte (“Essa Boneca Tem Manual”, de 2006) já saiu cercado de muita expectativa e, embora no começo, tenham se destacado as releituras de “Eu Sou Neguinha?” (de Caetano Veloso) e “História de uma Gata” (de Chico Buarque, Bacalov e Bardotti), o grande estouro se deu mesmo com a faixa autoral “Ai, Ai, Ai…”. Produzido por Liminha com o objetivo claro de ganhar as paradas de sucesso, aquele álbum ainda conseguiu engatar outros hits, a exemplo de “Ainda Bem” e “Joãozinho”. O próximo passo seria, então, sedimentar a carreira. Bem amparada pela gravadora, o CD “Sim” já chegou às lojas com a canção “Boa Sorte” maciçamente executada por várias rádios. O reggae chiclete contou com a participação especial de Ben Happer e, ao lado da delicada “Amado”, foi um dos temas mais executados de 2007.

Depois de pôr no mercado projeto ao vivo encampado pelo canal Multishow, o qual resultou no primeiro DVD da carreira (“Jardim e Perfumes de Sim”), Vanessa acaba de lançar, através da Sony Music, mais um CD. Trata-se de “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias”, o qual tem como missão principal se transformar em um dos produtos fonográficos de maior venda neste Natal. Contando com doze faixas, todas elas compostas pela própria cantora (que em apenas duas delas se abriu a parcerias, as quais, talvez por coincidência, resultaram nos momentos menos interessantes do disco: “Quando Amanhecer”, feita com Gilberto Gil, presente como convidado especial, e “Vá”, composta ao lado de Lokua Kanza), não se trata de um CD facilmente assimilável. Às primeiras audições, parece mesmo o disco menos inspirado de Vanessa. No entanto, após uma detalhada depuração, percebe-se que ele contém boas ideias. E se algumas melodias já ameaçam soar repetitivas, a produção competente de Kassin (que arregimentou músicos de ponta da cena pop nativa como o tecladista Donatinho, o guitarrista Fernando Catatau, o baterista Stephane San Juan e o guitarrista Gustavo Ruiz, entre outros) faz esfacelar essa impressão inicial.

Vanessa está cantando bem melhor, resultado das aulas de canto a que vem se submetendo, se bem que, em várias passagens, ainda insiste em fazer com que sua voz soe demasiadamente infantil.

Entre as canções candidatas a cair na boca de seus milhares de fãs, certamente estão as duas boas baladas (“Te Amo” e, em especial, “As Palavras”). Esperta, Vanessa foge dos temas óbvios em algumas letras, questionando com pertinência e gracejo a ditadura da beleza em “Fiu Fiu” e os modismos consumistas em “Bolsa de Gripe”, faixa de pegada mais forte. E mesmo que a razoável “O Tal Casal” tenha sido escolhida como a primeira música de trabalho, outros temas se mostram mais interessantes, como é o caso de “Vê Se Fica Bem” e “Moro Longe”.

Vanessa da Mata, se (com paciência) bem observadas as intenções subliminares, tenta romper algumas amarras com esse novo CD. Por manifestar uma ousadia pouco costumeira nos dias atuais, ela já merece aplausos…

 

 

N O V I D A D E S

 

· Com uma voz incrivelmente bonita, de timbre suave, mas com emissão firme, a cantora carioca Nilze Carvalho põe nas lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o seu segundo CD. Intitulado “O Que É Meu” (também o nome do bonito samba de autoria de Toninho Geraes e Toninho Nascimento, o qual faz parte do ótimo repertório escolhido), o trabalho foi produzido pela artista, também uma exímia instrumentista (ela toca cavaquinho, bandolim e violão), ao lado do compositor Edu Krieger. São treze faixas, a maioria regravações, que contam com arranjos de gente do porte de Cristóvão Bastos, Paulão 7 Cordas, Ruy Quaresma, Alessandro Cardozo e Marcelo Caldi. Nilze também se mostra compositora em três momentos (desses, o melhor é “Proposta de Paz”, parceria com Cristino Ricardo). Dentre os destaques estão as releituras de “Lua Cheia” (de Toquinho e Chico Buarque), “Festa” (de Gonzaguinha), “Mal de Amor” (de Benil Santos e Raul Sampaio) e “Banho de Manjericão” (de João Nogueira e Paulo César Pinheiro). Trata-se, na verdade, de um grande lançamento!

 

· “Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva” é o título do CD no qual o mais conhecido rapper nacional homenageia o (saudoso) sambista, tido como o mais malandro dos que já passaram pela música brasileira. Composto por quatorze canções, as quais foram sucessos na voz do artista (e mais “Caro Amigo Bezerra”, sincero bilhete a ele dedicado), produzido por Leandro Sapucahy (presente nos vocais de “A Necessidade”) e contando com os preciosos backings de Neth Bonfim, Carla Pietro e Keilla Santos, o disco tem como principal atração o fato de mostrar que D2 sabe cantar, uma vez que, até então, ele se restringia a “falar” as letras dos raps que caracterizaram sua carreira solo pós Planet Hemp. Assim, ao soar inusitado por reproduzir a sonoridade tradicional do samba de morro, o álbum termina se transformando em um dos pontos altos da discografia de D2. Entre os melhores momentos desse bem-vindo trabalho (que chegou ao mercado através da gravadora EMI) estão as faixas “Se Não Fosse o Samba”, “A Semente”, “Malandro Rife” e “Na Aba”.

 

· “Solar” é o título do CD independente que apresenta a voz grave e bonita de Sandra Grego. E é também o nome da bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, eternizada na voz de Gal Costa, que ressurge com novo arranjo, aliando-se a “Eu Só Tenho um Caminho”, de Getúlio Côrtes, como as duas regravações de um repertório prioritariamente inédito composto por treze faixas. Dentre os melhores momentos desse álbum estão “Sem Pressa” (de Ricardo Mansur), “Chove” e “Será Que Eu Falo Grego?” (ambas de Marco Jabú).

 

· O cantor e compositor Assis Medeiros está lançando, através da gravadora Sete Sóis, o CD duplo “Baiãozinho Nuar”. No primeiro (o melhor dos dois), ele ressalta a sua personalidade nordestina, vez que nascido em Recife (PE) e apaixonado por João Pessoa (PB); já no segundo, as influências sonoras mais pesadas de Brasília (DF), onde reside, tomam o pano de frente. Entre os melhores momentos estão a faixa-título, “Vento Geral”, “Cobra Coral”, “Vinte Léguas de Amor” e “Pegadas”.

 

· “Outros Clássicos” é o título do CD ao vivo lançado recentemente por Beto Guedes através da gravadora Biscoito Fino. Gravado em junho deste ano durante apresentação realizada no Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), o trabalho apresenta, em dezessete faixas, um painel da obra do mineiro que, se como cantor deixa a desejar, mostra um talento inquestionável no que tange à arte de compor, como se pode constatar através de belas canções a exemplo de “A Página do Relâmpago Elétrico”, “Veveco, Panelas e Canelas” e “Lágrima de Amor”, as três presentes no repertório. A baiana Daniela Mercury surge como convidada especial na conhecida “Luz e Mistério” (rara parceria de Beto com Caetano Veloso) e na pouco lembrada “Meu Ninho” (lindo tema ruralista assinado por Wagner Tiso e Ronaldo Bastos).

 

· A apresentação fechada realizada recentemente pela cantora Paula Fernandes em estúdio paulista se transformará em CD e DVD que aportarão em breve no mercado. A dupla Victor & Léo e o cantor Leonardo são respectivamente os convidados especiais das faixas “Não Precisa” e “Índia”.

 

· Considerados a rainha e o rei do rock nacional, Rita Lee e Erasmo Carlos irão se juntar em 2011 para realizar um grandioso show que deverá rodar o país inteiro. No repertório estarão sucessos dos dois artistas, os quais serão revividos com novos arranjos. Esse bem-vindo projeto certamente será devidamente registrado para lançamento oportuno em CD e DVD.

 

· Mesmo tendo sido o seu último episódio levado ao ar pela Rede Globo na semana passada, a microssérie “Clandestinos” (a melhor coisa que aconteceu este ano na televisão brasileira) tem chance de ver sua trilha sonora lançada em CD pela gravadora Som Livre no comecinho de 2011. Do repertório, entre outras canções, constam: “Sujeito de Sorte” (de Belchior, em versão personalíssima da banda Vermelho 27), “Se Eu Quiser Falar com Deus” (de Gilberto Gil, com Laila Garin), “I’m Nobody” (de e com Clarice Falcão), “Fadinha da Paz” (de João Falcão, o idealizador do projeto, com Luana Martau) e “Quem Quer Comprar Meu Samba?” (outra de João Falcão, agora em parceria com Ricco Viana, interpretada pelos versáteis e talentosos atores do elenco).

 

· E às vésperas de comemorarmos mais um ano do nascimento do Cristo Jesus, este comentarista deseja aos nossos assíduos leitores um Santo e Feliz Natal! Que o espírito de paz e esperança contagie todos nós e que possamos nos encher de sentimentos iluminados para sabermos partilhar com os mais necessitados aquilo que, de material e espiritual, nos foi concedido pelo Ser Supremo!

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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