O bom filho à casa torna

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Cartas do Apolônio


O bom filho à casa torna

Apolônio abandona o balneário e volta para à vidinha lisboeta.

Lisboa, 12 de maio de 2006

Caros amigos de Sergipe:

Com o fim da greve do Garotinho, também abandonei a idéia de fazer uma greve de fome. Poderia ser outro fiasco. Dizem que o maroto carioca está sendo gozado até pela Rosinha, que iniciou um período de recesso sexual até que ele se recupere da fraqueza geral e da…moleza, digamos assim. Não quero passar por isso. Sou um candidato sério.


À propósito de esposas de candidatos, a minha patroa sexagenária já se sente a própria primeira dama, uma verdadeira Maria do Carmo de saias. Aliás, não sei se os senhores sabem, mas eu e a Zenóbia voltamos às boas. Resolvemos recomeçar do zero (bem, do zero não, afinal já estamos mais pro oito e meio!), mas enfim decidimos aprender a conviver com as nossas diferenças. Queremos envelhecer juntos e dar todo o carinho à nossa nova filha adotiva, a cadelinha Edivânia. Agora sim, somos uma família!


Aliás, nesse fim de semana dei um tempo na atribulada agenda de campanha para tratar de assuntos mais prosaicos. Um deles foi a inevitável mudança para a nossa velha casa de Lisboa, afinal com a vida de sexo, drogas e rock”n”roll que estava levando em Cascais, era impossível encabeçar uma campanha ao governo. Mesmo ao governo de Sergipe. Era muita esculhambação!


Assim sendo, como um ato simbólico, doei a minha caixa de camisinhas ao “Fome Zero” e comecei vida nova. Saliências agora, só mesmo no recanto sacrossanto do meu lar, ao lado da veneranda Sulamita, minha secretária bilíngüe e boazuda. Ninfetas lésbicas, nunca mais!


Outra providência foi voltar a visitar regularmente a parentada. Na saída aproveitei para treinar o meu carisma de candidato, só de brincadeira. Comecei a acenar para desconhecidos na rua. Me dei mal.


O primeiro a me reconhecer foi um ex-colega de faculdade que cismou que eu lhe devia uma enorme quantia em dinheiro. Disse-lhe que ele certamente estava me confundindo com o Antonio Bandeiras e que fosse cobrar a ele. Não prestou! A pancadaria rolou no meio da rua. Saí de lá com dois hematomas no rosto e uma dívida de dois mil euros por prejuízos a uma loja de cosméticos, na porta da qual nos atracamos. Desisti desse negócio de acenar para desconhecidos na rua. Refeito do susto, fui finalmente visitar o primeiro parente, o estimado vovô Bouçinhas.


Ali sim, entre familiares poderia treinar com segurança, o meu carisma de candidato frojola e bom de voto. Ao chegar encontrei o velho “Bolça”, já naquela devassidão costumeira ao lado de duas anciãs sodomitas. Agi com naturalidade para demonstrar que achava aquilo, a coisa mais normal do mundo. Cumprimentei o trio que junto, devia somar uns dois séculos e meio.


Também não foi muito bom. Acabei cortando o barato dos fogosos octagenários e enxotado da mansão. Perderia três votos. Admito que não foi um bom começo, mas sou um homem determinado e não desisto fácil.


Amanhã voltarei lá. Levarei a Zenóbia para uma eventualidade.       

Até semana que vem.

Um abraço do

Apolônio Lisboa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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