O estado gangrenou

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Como já é sabido, um vidrinho de petróleo foi o presente que a Petrobrás ofereceu ao governador Marcelo Deda, com o início da operação de extração do óleo na plataforma de Piranema, recém instalada na costa sergipana. Nada menos apropriado. O que faria Deda com a matéria prima do combustível automotivo se ele mal sabe dirigir? A não ser o que terminou fazendo: encaminhar um destes vidrinhos a Sua Sumidade, o deputado Francisco Gualberto, para que este pudesse mostrar ao mundo que o PT, dentre outros predicados, também sabe tirar óleo de pedra.

Mas ainda repercutindo a fantástica e escandalosa poupança, quase 600 milhões de reais – que o governo está fazendo à custa do bem estar dos sergipanos – e aproveitando as recentes declarações do Secretário da Fazenda, Nilson Lima, sobre as contas do Estado, a idéia do vidrinho de petróleo me deu uma mais interessante e, esta sim, realmente proveitosa, embora faça referência a desgastado jargão. Seria o caso do governo, dentro de sua política industrial, incentivar a instalação de uma fábrica de polidores de móveis, uma filial das Indústrias King, por exemplo, especialista na fabricação de conhecido lustra-móveis, o óleo de peroba. Daí se produziria um presente extremamente útil e elegante, que a empresa poderia ofertar, a ser consumido às toneladas pelos integrantes da nomenklatura que com inigualável percepção reinventa o Estado.

Senão vejamos: Nilson vocifera que “o Estado está custando menos aos cofres públicos”, graças a uma severa política de redução de gastos. Assim, dividindo-se os R$ 578 milhões que acumularam, pelo número de meses em que se atingiu esse resultado (8), conclui-se que em média foram economizados cerca de R$ 72 milhões por mês e que, a continuar o mesmo ritmo, até dezembro o estado terá guardado no banco algo em torno de R$ 850 milhões, dinheiro que mofa sem nenhuma utilidade imediata, enquanto a máquina estatal se arrasta quase paralisada, diante da falta de investimentos e da aplicação de recursos para o custeio, necessários à manutenção dos serviços essenciais, especialmente nas áreas de saúde, educação, segurança e infra-estrutura rodoviária.

A lógica aqui é a de que o Estado estava falido e de que os gastos eram excessivos no governo anterior, o que teria levado a gestão atual a controlá-los com muito rigor.

Ora, a argumentação falaciosa e nitidamente politiqueira dessa invejável plêiade de sofistas modernos não resiste a uma mínima avaliação. Se o estado estava em situação financeira deprimente, se existia um rombo gigantesco que teria que ser coberto pela atual gestão, com que mágica este governo consegue, diante desse quadro negro e sem receber nenhuma ajuda em recursos externos, resolver as tais dívidas impagáveis, poupar ainda R$ 70 milhões por mês e acumular quase R$ 600 milhões em apenas 8 meses? Talvez devamos pedir urgentemente ao Papa Bento sua interveniência em Sergipe, para canonizar estes eloqüentes multiplicadores de pães recheados de embustes.

Não é à toa que, diante dessa capacidade para o milagre, eles sejam quase que divinizados por estes sindicatos de pelegos que proliferam no governo das mudanças e por estes jornalistas inebriados pelo petismo que, se tivessem o mínimo senso crítico – o chá de simancol – teriam vergonha de cometer as baboseiras bajulatórias que excretam em suas colunas na defesa do indefensável.

Mas vamos ao que interessa: de um lado Estado guarda dinheiro em quantidades nunca antes registradas e dá ares de modernidade à medida, enquanto a imprensa do amém elogia o fato como extremamente positivo, digno de homens que sabem zelar pelo dinheiro público.

Enquanto isso, morrem dezenas de crianças com infecção hospitalar na maternidade Hildete Falcão, graças às precárias condições de higiene, ocasionadas, dentre outros fatores, pela falta de produtos essenciais à assepsia dos ambientes, onde até detergentes e desinfetantes são misturados com excesso de água para economizar nos ingredientes, reduzindo drasticamente o potencial microbicida destes produtos; por seu turno, no hospital João Alves, mais mortes em quantidade, também associadas à falta de higiene, disseminando elementos patógenos resistentes a antibióticos numa unidade que deveria se caracterizar pela absoluta assepsia, mas onde faltam até mesmo toalhas descartáveis de papel, higiênicas e estéreis, para a limpeza individual das mãos de médicos, enfermeiros e pacientes.

Para agravar o quadro, desde que demitiram centenas de funcionários do João Alves, nos primeiros meses do ano, de lá para não foi efetuado sequer nenhum serviço de limpeza nos sistemas de refrigeração do estabelecimento,  justamente um ponto nevrálgico para a acumulação e proliferação de organismos patogênicos quando a refrigeração não é submetida a uma periódica manutenção.

Quanto à negligência  com a saúde pública em particular, entregue a um Secretário de Estado da estirpe de um Rogério Carvalho, a irresponsabilidade e o descompromisso não causam surpresa e nem poderia ser diversa de sua conduta quando Secretário municipal de Saúde. Na ocasião, do alto de tamanha  desfaçatez com vidas humanas, sua gestão chegou ao desplante de maquiar postos de saúde para inaugurá-los como supostos hospitais de urgência,  numa manobra eleitoreira com a incrível complacência de setores do Ministério Público – que aguardaram o fim do período eleitoral para atuarem com rigor – pondo em risco e levando à morte doentes que pensavam que lá iriam encontrar todos os equipamentos de manutenção de vida existentes em verdadeiros hospitais de emergência

Já o recém construído Hospital infantil continua sendo mantido fechado, juntamente com a Maternidade de alto risco Nossa Senhora de Lourdes, que embora estejam concluídas há meses, não funcionam justamente porque significariam alguns milhões a menos nas economias que o governo está fazendo, diante dos recursos que seriam dispendidos para o custeio desses estabelecimentos.

E para ratificar a necessidade do uso do óleo de peroba, Nilson Lima deu uma outra declaração onde reconheceu que o estado não está aplicando na Saúde os 12% exigidos pela Constituição Federal para o setor, consumindo algo em torno de apenas 9%,. Isso depois de haver criticado o governo João Alves, alegando que o ex-governador  teria empregado no orçamento para a Saúde pouco menos de 12% (cerca de 11,5% , segundo alegam). Seguidor da filosofia do “façam o que eu mando mas não façam o que eu faço”, Nilson ainda se atreveu a esboçar o estapafúrdio argumento de que o Estado não consegue aplicar os 12% exigidos porque a saúde não tem estrutura suficiente para absorver tais recursos.

Por sua vez, na segurança pública faltam automóveis, armas e até mesmo combustível em quantidade suficiente para atender à demanda da sociedade por um policiamento ostensivo mais eficaz. Nas escolas, há cortes na merenda escolar e redução na entrega de material didático.

Enfim, dentre uma série de mazelas, estamos diante de uma situação peculiar. O Estado, segundo o petismo, gastava demais. A solução encontrada foi pura e simplesmente a de contenção extrema dos gastos, ainda que à custas de vidas humanas. Só para entender melhor essa medida, vamos fazer uma analogia com o corpo humano: para o governo, o paciente sangrava demais através de uma ferida na perna. Estava em situação hemorrágica. A solução foi aplicar um torniquete para conter a saída do sangue. O grave problema é que não se deve apertar demais e por muito tempo o torniquete, sob pena de provocar a gangrena do membro pela falta de oxigenação às células. Os tecidos celulares morrem em função da falta de irrigação sanguínea na região e a perna apodrece, obrigando a sua amputação, sob o risco de matar o paciente se ela não for feita.

Pois bem, A medida do governo exagerou no aperto do torniquete e levou a máquina estatal a gangrenar. E óbvio que não por falta de dinheiro. Mas por absoluta má gestão.

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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