O modelo feminino ideal do Brasil… Da década de 1920

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Katty Cristina Lima Sá
Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe
Bolsista PIBIC/CNPq
Integrante do Grupo de estudos do Tempo Presente
Email: katty@getempo.org
Orientador: Dilton C.S Maynard

Em 18 de abril de 2016 a matéria “Bela, recatada e do lar” publicada na Revista “Veja” reascendeu o debate sobre questões de gênero, em especial sobre o papel da mulher no Brasil. O texto escrito por Juliana Linhares traz Marcela Temer, esposa do então vice-presidente brasileiro Michel Temer, como o exemplo de esposa devido ao “uso de roupas sóbrias na altura do joelho” e por “estar sempre atrás e fiel ao seu marido”.
Mais recentemente, uma escola de Uberlândia chamou atenção da mídia por “formar princesas”: neste espaço garotas dos quatro aos quinze anos de idade aprendem aquilo que seus pais e a dona da escola julgam ser “o papel da mulher”, ou seja, saber portar-se a mesa, a arrumar a casa, cuidar dos filhos e de seu futuro marido, por quem devem esperar com paciência e recato, pois um dia seu “príncipe” aparecerá.  Por último, relembramos a polêmica questão do Enem do ano de 2015 que citou a frase de Simone de Beauvoir “não se nasce mulher, torna-se mulher”, ou seja, elas assumem socialmente os papeis e os estereótipos que lhes são atribuídos ao longo de sua vida. Mas será que isto sempre significou ser recatadas e do lar?
Para compreender como a imagem do gênero feminino foi historicamente construída, e qual o papel da mulher na sociedade brasileira do passado e de hoje, voltaremos a década de 1920 tendo como fonte a Revista Feminina. Este periódico foi lançado pela jovem paulista de origem burguesa Virgiliana Souza teve grande notoriedade no período de 1914 até 1930, com uma tiragem de 15 mil unidades vendidas por edição.
A Revista Feminina surge com o objetivo de disseminar feminilidade sagrada, instruir mulheres, oferecer uma literatura “sã e moral”, “recreativa e literária” que “colaborasse para educação doméstica e a orientação do espírito feminino” (Revista Feminina,1922, p.18). Os principais temas tradados na publicação eram moda, receitas culinárias, literatura, dicas sobre casamento e maternidade e curiosidades antropológicas, estes dados para “ampliar o nível cultural” das assinantes (Revista Feminina,1922, p.18). 
As editoras da Revista Feminina diziam adeptas ao “feminismo não-revolucionário” ou “feminismo brasileiro” definido como “diferente daquele de insubordinação social […] sem orientação, sem base social, moral ou religiosa”, sendo assim, ainda que a revista propusesse os direitos da mulher e do voto feminino, e protestassem contra os crimes praticados contra as mulheres, seu discurso baseava pela “manutenção do lar e da família”:
Nunca destas columnas nos insurgimos contra a direção masculina do lar, nem o poderíamos fazer porque entendemos a mulher, mais fraca e menos aparelhada para a luta, a amorosa companheira do homem, que não deve nelle ver um rival, contendor, ou inimigo, mas apenas, o colaborador, o companheiro, o amigo de sua vida constituída em família (Revista Feminina,1915: 04.).
Muitos dos textos do periódico tinham como objetivo aconselhar acerca da educação doméstica, do cuidado com os filhos, pois era preciso desde cedo levá-los para o “caminho correto da religião, a cada fase da sua vida dar-lhe o sacramento correto” (Revista Feminina,1915, p.15).  Numa sociedade tão preocupada com higiene e com a saúde mental dos indivíduos, a mãe era uma auxiliar do médico, a responsável pela saúde do corpo e do espirito de sua progênie e o peso da maternidade era tanto, que era um medidor da saúde mental feminina. As psicoses eram dadas como tipicamente femininas, parte da sua natureza, resultante da menstruação e das contrações uterinas; sendo assim, amar e dedicar-se ao marido e principalmente aos filhos era o melhor atenuante para a histeria
Em um mundo onde as mulheres procuravam aumentar seu espaço no mercado de trabalho, as profissões consideradas dignas para as mulheres era as que se assimilavam a maternidade. Mas, mesmo se possuíssem um bom emprego, as senhoritas só se realizavam quando conseguiam um bom casamento, sendo que geralmente a carreira profissional havia levado ao matrimônio. A edição de maio de 1922 da Revista Feminina felicita Maria Rabello de Castro, que após uma prova para o Ministério do Exterior ficou com a primeira classificação para o trabalho neste órgão. Porém a maior felicitação se deve ao fato que exercendo sua profissão, Rabello conheceu o embaixador com quem desposou.
Questões sobre moda e beleza apareciam com pouca intensidade nas edições analisadas para este trabalho, foi na edição de 1925 que encontramos textos maiores dedicado a vestimentas e maior quantidade de anúncios de cosméticos. Boa parte dos textos não possuíam a intenção de retratar as últimas criações da moda europeia, mas mostrar a moral em relação as roupas, separar a vaidade das “mulheres honradas” daquelas que possuíam “conduta duvidosa”. As saías subiam e mostravam os tornozelos, porém as botinas seguiam seu ritmo, tampando o que outrora fora descoberto.  A beleza era essencial para a manutenção de casamento saudável, em conjunto com a capacidade de se manter silenciosa. A boa esposa, segundo a Revista Feminina, não deveria “amolar” seu marido com seu cotidiano e seus problemas domésticos, pois o homem cansado após um longo dia de trabalho não deveria ser recebido com mais complicações, deste modo necessário saber conversar previamente sobre o mundo dos homens.
Assim, as intituladas “feministas brasileiras” por mais que bradejassem as conquistas das mulheres mundo a fora, como o direito das inglesas de votarem e a ocupação de altos cargos pelas americanas, sempre deixaram claro que não queriam causar rupturas, mas sim manter e justificar a ordem vigente. Nas primeiras duas décadas do século XX o Brasil e o mundo vivenciaram fortes e rápidas transformações que obrigaram algumas estruturas a se modificarem e, para as mulheres, este foi um período onde a liberdade e o recato andaram lado a lado, de modo que classificação feminina estava entre os dois grupos antagônicos das Garçonnes, nome dado as jovens emancipadas, e das belas senhoras rainhas do seu lar.  Cabia a “boa moça” da alta sociedade policiar-se para saber de qual lado estaria.
Quanto deste policiamento as mulheres brasileiras ainda precisam fazer no país considerado pela ONG Save the Children o pior da América do Sul para ser mulher? Tentamos reafirmar padrões tidos como naturais quando na verdade eles são frutos de um processo histórico, de uma outra sociedade, de um outro tempo. As brasileiras do século XXI não estão “sendo menos femininas” e nem precisam ser lembradas do que é ser mulher, não há problemas nenhum em seus comportamentos, mas há na sociedade que ainda não ainda percebeu como em cem anos o mundo mudou e que ser mulher é mais do que ser esposa perfeita, usar rosa, ou ser uma princesa.

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