O primeiro encontro de Moro com Lula.

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Se os torcedores do Dr. Moro tivessem menos leviandade, veriam que no embate contra Lula, apostaram no cavaleiro errado.

Apostaram num Sansão Carrasco, cheio de astúcias e estratagemas, para encetar um duelo de cavalaria andante, e encontraram um Dom Quixote, em imprevisão e imparcialidade, um verdadeiro cavalheiro na condução do embate.

Porque embate era o que se queria, embora não o fosse, nem seria, como assim imaginava e torcia a galera do Botamengo e tolas mais.

Não era para ser um depoimento apenas, tudo dentro da lei, ao seu amparo, e que jamais poderia ser violada por um juiz, por pouco isento que fosse, sobretudo porque se gravaria tudo em videoteipe?

Do videoteipe, não mais vale a máxima de Nelson Rodrigues.

Se ele não define, nem anula o gol ainda, ele demonstra o acerto ou erro à exaustão.

E envergonha até o sem vergonha.

Ocorre que a galera anti-lulista idealizara o Dr. Moro, senão novo São Jorge, ferindo dragões, pelo menos um novo justiceiro, em nova safra de cangaceiro vingador.

Pelo menos foi assim que meio mundo o desejava.

Elegeram o Dr. Moro como verdadeiro herói brasileiro, mistura de Jerônimo, o Herói do Sertão, com Antônio das Mortes, de Glauber Rocha com Deus e o Diabo duelando na Terra do Sol, aí incluindo o Vampiro Brasileiro de Chico Anísio, só para combater os Pedros Malazartes da vida, os Curupiras, Boitatás, Mulas-sem-cabeças, Jararacas, e o lulopetismo de Proto-Essência parecida.

E assim o Moro virou o “tal que não usa o lifeboy”, como se dizia no meu tempo de criança.

Aquele que se não tem três quibas, exibe-se triorquídico, mostrando inexcedível valentia e destemor, parecendo estar, por atos e comportamentos, a denunciar desídia e pusilanimidade dos colegas que assim não se comportam, desafiando-lhes inclusive a portarem cimitarra à mão e machado amolado na outra, armar-se até os molares, só para extirpar o cepo da maldade pela raiz.

E o que é a maldade?

Não fora esta uma pergunta incrédula de Abraão, ao anjo exterminador de Sodoma e Gomorra, lá na Bíblia longínqua?

Não estava ali, inquirindo assim um Abraão apavorado com tanta maldade, regateando a verdade e humanizando o próprio Deus em sua raiva infinita?

E o que seria a Verdade? Como indagou também um oficial romano bem graduado, a um Deus chagado e coroado com espinhos, que se calou apenas, deixando-lhe, a ele e a nós todos, como nossas dúvidas para reflexão.

E agora? Não cabe de novo o quesito. Que é a verdade? Que é a maldade?

Não é tarefa do Magistrado apurar a maldade e dirimir o verdadeiro?

E o julgamento deve ser embasado na Lei, ou o melhor jurado será sempre aquele que previamente instrumentalizado, tergiversa bem a Norma para atender os interesses das partes?

É difícil Julgar! É muito difícil!

Não se trata de uma operação matemática.

Ali a soma dos quadrados dos catetos não se iguala à hipotenusa multiplicada por si mesma.

Ali, a soma dos ângulos de um triângulo sempre pode variar segundo os critérios da Cúria.

Porque a Cúria, por incúria, ou fúria própria, pode falsear a regra, desde que um especialista juramentado lhe dê fé por testemunho, ou o discurso mesmerize pior.

E mais! Neste universo em que vivemos de geometria quase-esférica, em seu achatamento nos polos, quem pode afiançar esta incerteza perante a geometria euclidiana?

Eis aí um longo debate entre o radiano e o esferorradiano, a latitude e a longitude, envolvendo o seno e o cosseno numa trigonometria curvilínea por aproximação, sabendo que as coordenadas esféricas não atendem perfeitamente à nossa geoide.

Daí dizer-se que um bom advogado tem sua melhor valia.

Uma valia que se amplia sobremodo, quando uma promotoria se permite sair do processo, virar notícia, se esbaldar na mídia, mesmo que seja em golpes de pirataria, só por se achar em razoaria suficiente por ter conquistado o ibope televisivo.

Esquecem que o ibope de ontem, não é o de hoje, nem o será aquele de amanhã.

Se o Lula não é o mais repelido de tantos, como entender a preferência de muitos?

Não é uma coisa incompreensível, mas retratada pelo ibope, simplesmente?

E o que dizer da Promotoria, o jovenzito Parquet nacional, que em excessiva verborragia, no fanho e em falsete, resolveu, a vivo e em cores, e até com PowerPoint projetado, investir um novo paradoxo de Zenão, uma disputa, se não entre Aquiles e uma Tartaruga qualquer, e não uma Tartaruga Ninja, mas entre muitos Aquiles em legião, e uma Jararaca encalacrada por difícil posição?

Ai, Aquiles! Ai, Tartarugas! Ai, Jararacas! Quem te ama, que te compre!

Se Aquiles perseguisse a Tartaruga, ferindo as regras de Zenão, este não teria seu paradoxo. Estaria mais para Apuléio, querendo burrificar homens com a sua imaginação.

Lucius Apuléius (125 d.C.-170 d.C.), só para lembrar, é autor de As Metamorfoses, obra em que burros dialogam em bom encanto.

Por ter casado com viúva rica, Apuléio foi acusado pelos parentes de sua esposa de haver utilizado magia para obter o seu amor. Defendeu-se através do célebre discurso Apologia, que se conservou até os nossos dias.

Se Apuléio conseguiu no leito o que não arranhou no eito, do Lula afirmam ter conseguido mamar até em seco peito.

O Tempora! O Moris!

Ó Aquiles, como foi bom encontrar o seu calcanhar! Nem você sabia que bem o possuía!

Ó Apuléio, quantos asnos ainda ousam falar!

Ó Lula, a quantas anda o seu patrimônio vastamente denunciado e tão pouco documentado?

Ai, Aquiles! Como era bom saber da sua vulnerabilidade calcanha?

Ai, Apuléio, como é doce ainda ter a magia de conquistar fortuna na alcova.

Ai, Lula, quanta asnice se dirá de você ainda por exclusiva frustração política!

Ai, Parquet, só você não se contempla em asnice tamanha, soando fanho e falsete, desviando-se do bom trinado inclusive, e assumindo uma candoria, de um dulçor disfarçado, zoando tão ilusório quão enganador e finório?

Acham os jovenzitos canoros, que a Lei, mesmo mutável, não terá sempre entre os seus inquisidores aqueles que posam de pombas, mas restam funestos executores de crueldade?

Que o diga Monsieur de Willefort na ficção de Alexandre Dumas, tergiversando a Lei, ao sabor de corredeiras políticas verdadeiras, e outras verborragias como as de Fouquier-Tinville, o acusador público essencial, extrato fidedigno do terror revolucionário. 

E quanto a Moro, não o imaginavam um juiz vingador, tão caro a tantos desejos, que teria missão acolhida ao amparo do Estado de Direito para prolatar sentenças corretivas e atrabiliárias?

O combinado não estaria sorrindo assim?

Não se esperava uma decretação de arresto de jararaca, com algema presta e precisa, para bem sair no noticiário, como feito extraordinário?

Combinado não seria assim em melhor manchete, ou algo que valesse mais exitoso para uma edição televisiva, a ser repetida, sobretudo com o comentário jornalístico, por ser de melhor importância?

Todavia, como o videoteipe foi divulgado sem edição, quem queria ver em Moro um dilacerador de dragões, encontraram um novo Dom Quixote de La Mancha, sem confundir Aldonza por Dulcinéia, e tendo consigo próprio um Sancho Zancas reflexivo, a aterrar-lhe eventuais excessos de polarizadas paixões.

Ora, para quem leu Dom Quixote de La Mancha, genial criação de Miguel de Cervantes Saavedra, sabe que o cavaleiro combatia moinhos como dragões, lutando contra as injustiças do mundo, defendendo os fracos contra os fortes, perdidamente apaixonado por Aldonza, uma promíscua aldeã, gorda, feia e debochada, que o cavaleiro enaltecia como Dulcinéia Del Tobozo, suprema dama em pureza e boniteza.

Na verdade, Dom Quixote, auto nominado “Cavaleiro da Triste Figura”, era um velho fidalgo, chamado Alonso Quixano, que enlouquecera ilhado em sua biblioteca. Lera bastante livros de cavalaria a ponto de se achar um verdadeiro cavaleiro andante.

Não sei se o Dr. Moro se imaginou cavaleiro igual.

Sua torcida talvez o quisesse como o “Cavaleiro de Branca Lua”, ou aqueloutro “dos Espelhos”, trambiques do Bacharel Sansão Carrasco, o vilão sempre perfeito para qualquer ocasião. E até para matar jararacas, por que não?

Ocorre que no meio do caminho tinha um videoteipe, e ali o Dr. Moro fora real e não ficcional, decepcionando e até calando o noticiário.

Não esperavam tantos que Moro fosse educado e contido! E até gentil demais?!

Chamou até o Lula de Senhor Ex-Presidente?!

“E um indiciado daquele traste, ‘apedeuta’ e asqueroso, merece tratamento respeitoso?”

“Não mostrou ‘melhor deselegância necessária’ o Ministério Público Federal, chamando aquele ‘Pixuleco’ por Seu Luiz Inácio, simplesmente? “

Retirando as aspas agora; não está pior assim o linguajar do Ministério Público, que em sendo apenas fiscal da lei, procura vencer a causa simplesmente, sabendo que o logro, o embuste e até o menosprezo, não lhe podem permear a imparcialidade, essencial roteiro, sequenciando a ética de sua missão funcional?

Por acaso na sua a missão de acusação pública, não deve estar jungido à ética, à retidão e à imparcialidade, ou está livre para assumir o seu perfilar na parte da contenda, usando o verbo e a verve, sem peia, nem arreio, como incontrolado cavalo machotado republicano?

Cavalo Machotado, para quem não sabe, era um jogo de baralho de criança.

Era uma brincadeira maldosa que consistia em surrar o outro mediante palmatória.

A premissa do jogo entendia que todos podemos bater ou apanhar, sem culpa formada simplesmente.

No jogo, o Cavalo Machotado era o Valete nas cartas do Baralho, o Ás acusava, e o Rei consentia, autorizando a bater uma das cartas, sem defesa ou piedade.

O Cavalo Machotado era o verdadeiro carrasco executor, só parando o espancamento se a carta de Dama fosse intercalada entre a mão e a palmatória.

Ou seja: Na pisada do Cavalo Machotado, sem contraditório e sem absolvição, espancava-se bastante.

Alegorias à parte, quando vejo o Ministério Público condenando rápido pela imprensa, sinto que há algo a ser coibido. E que não se diga que estou a criminalizar uma interpretação jurígena.

O embuste, a mentira, a prisão solertemente decretada não podem ser simples matéria permissiva ao sabor da autoridade irresponsável!

É terrível não existir uma punição saneadora contra tal abuso de autoridade!

Neste particular, foi uma excessiva covardia do nosso Congresso Nacional, esteja ele enodoado ou não, não ter aprovado uma legislação punindo excessos do Judiciário e do Ministério Público.

Mas, deixando ilações machotadas e voltando ao videoteipe, direi que soa distante o dito por Nelson Rodrigues. “Se o videoteipe diz que o pênalti não existiu, pior para o videoteipe; o videoteipe é burro!”.

E o videoteipe está a dizer que o Dr. Moro não conseguiu acertar o golpe fatal na jararaca, como queriam os seus áulicos.

Restou melhor então para o videoteipe, disponível ainda para evidenciar às mancheias e às escancaras, que as provas contra Lula só convencem até o momento os seus inimigos.

Ou valerá somente o pensamento do julgado, mesmo que este finde errado no definido por prolatado?

Creio que, por maioria, nenhum juiz se crê no erro.

E se há engano, mal julgamento ou desacerto flagrante aos olhos dos comuns mortais, “culpe-se a estes que não adentram em suficiência os meandros do processo”.

Não são eles, “reles mortais; uns coitados que quiseram estudar coisas de ‘somenas importâncias’”, igual a Galileu Galilei, no seu tempo tendo de se renegar em perjúrio, por decisão incuriamente proferida, ousando parar até por suprema ferida, o movimento lunar?

Quanto ao erro, o mal julgado, a má justiça promulgada, dizem que tudo pode ser reformado por quem lhe está acima, sem que sobre ao magistrado, por título próprio ou sucessão, ínfima nódoa, arranho ou risco.

Talvez seja por isso que suas vestes não sejam tão alvas como as dos cirurgiões!

Não é o negro, por ausência simples de luz, o verdadeiro absorvedor de todas as radiações, seja do espectro visível, seja as que lhe estão acima ou abaixo, sem refletir nem refratar tosco brilho?

Neste particular, qualquer mancha sob sua responsabilidade, se o atingir um dia, será somente a desimportância do brilho que ousa alumiar. 

Não foi o caso do Dr. Moro no seu ‘embate’ com Lula. Houve brilho e luz.

Todavia, o noticiário escancarou decepcionado: “Houve empate no debate!”

Não é esta a minha leitura: Ganharam o Magistrado, por elegância e moderação, e o Denunciado porque desmistificou o processo do Tríplex e as provas que o compõem.

Goleada, quem deu mesmo foi a defesa, rija, máscula e eficiente.

Chata, poder-se-á dizer, mas necessária; imobilizou e aniquilou os eventuais escapes acusatórios.

Quanto ao Ministério Público, este ficou devendo.

Na falta do endosso palmar vazio, vai ter que garimpar novas provas, mesmo que sejam denúncias razias ou delações capciosas.

Se no final Lula vai se safar…, isso é outra história.

Agora, há um novo escândalo na praça: Uma escuta incriminando o Presidente Temer.

Não já lhe bastava a pecha de “golpista”?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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