Joãzinho da Patu – Artigo do professor Dilton Maynard

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João Gilberto

Os anos 1940 foram férteis para a música sergipana. A Rádio Difusora Aperipê de Sergipe (prefixo PRJ-6), até então a única emissora local,  recebia cartas escritas por admiradores de várias partes do Brasil com manifestações que empolgavam os seus cantores e músicos.

Dirigindo o Conjunto Regional da PRJ-6, o violonista Ursino Gois, o “Carnera”, era convidado a realizar espetáculos nos grandes clubes da cidade – Sergipe, Cotinguiba. Não faltavam apresentações também no Recreio Club e no Cine Teatro Rio Branco, nem garotos interessados em aprender a tocar violão, mesmo “fugindo” das famílias que não queriam ver os seus filhos metidos com “coisa de malandro”. Um destes moços era Joãozinho da Patu.

Joãozinho estudava em Aracaju. Longe da terra natal, Juazeiro, na Bahia, e da família, "Joãozinho da Patu" (uma referência à sua mãe, D. Patu) divertia-se formando conjuntos vocais com os amigos. O futebol também ajudava a afastar a saudade. O pai de Joãozinho, Juveniano de Oliveira, próspero comerciante, enviou o filho para a capital sergipana a fim de cursar o ginasial no Colégio Jackson de Figueiredo (na época, Juazeiro só possuía o curso primário).

Era 1944 quando Joãozinho chegou a Sergipe. Tinha 13 anos de idade. A Guerra fervia na Europa. Durante o tempo em que esteve na cidade, o garoto teve os primeiros contatos com o violão. Naquela época, tocar este instrumento era algo ainda muito rotulado como "coisa de boêmio". Mas em segredo, o menino  teimava em praticar e recebia preciosa ajuda externa. O primeiro professor de Joãozinho foi Carnera.

À noite, quando saía para fazer seus programas, não era difícil que o músico levasse Joãozinho a tiracolo. É que, na época, o moço, que morava na casa dos tios, era vizinho do violonista. E no estúdio da PRJ-6 o menino nem lembrava da Guerra ou dos avisos da família. Atento, Joãozinho da Patu observava os artistas locais: Dão, João Melo, Guaracy Leite França, Bissextino (baterista que muito o impressionava) João Lopes. Dali, de um estúdio diminuto, aquela turma realizava esforçadas interpretações das canções de Sílvio Caldas, Francisco Alves, Carmem Miranda, Orlando Silva e tantos outros. Vez ou outra alguém mandava ao ar alguma composição própria.

Por estas e outras se dizia que o rádio em Sergipe vivia um grande momento. O menino olhava a tudo e aprendia. Depois, voltava contente para casa sob a guarda cuidadosa de Carnera. Mas os tempos mudaram. Joãozinho da Patu cresceu. E, de violão debaixo do braço, virou João, João Gilberto, cantor da bossa nova, tornou-se conhecido no mundo inteiro.

Dilton Maynard é professor do Departamento de História e do Mestrado em História da UFS. Coordena o projeto Memórias da Segunda Guerra em Sergipe (CNPq/edital 07/2011;PRONEM/FAPITEC). O artigo integra as colaborações feitas à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNP/UFS).

* Dilton Maynard é professor do Departamento de História e do Mestrado em História da UFS. Coordena o projeto Memórias da Segunda Guerra em Sergipe (CNPq/edital 07/2011;PRONEM/FAPITEC). O artigo integra as colaborações feitas à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNP/UFS).

 

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