Para que serve mesmo a televisão?

Cristiane Tavares Fonseca de Moraes Nunes
Doutora em Educação/UFS
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS)
E-mail: profacristavares@outlook.com

Fonte: foto disponível no banco de imagens www.canva.com

Ter nascido no século passado significa conviver com outras gerações diferentes da sua. Na atualidade, as pessoas da chamada geração X, nascidas entre os anos 1960 e final dos anos 1970, coabitando com a geração Y, conhecida como geração do milênio; por sua vez, sucedida pela geração Z, que abrange os nascidos entre meados dos anos 1990 até o início do ano 2010.

Essa mistura de faixas etárias coloca sob um mesmo teto dessemelhantes, os quais nasceram sob diferentes aparatos tecnológicos e estão todos no caldeirão da modernidade líquida, termo cunhado por Zygmunt Bauman, respeitado sociólogo e filósofo polonês, para explicar a fluidez das relações pessoais do nosso tempo.  Logo, a tradição passou a ser reconfigurada, ou reconstruída, da sua forma original; que era “sólida” e relativamente bem alicerçada.

Cada vez que estou no sofá assistindo à televisão, sou confrontada pelos meus filhos, nativos digitais, que aprimoraram o tato em telas touch screen de tablets e smartphones, vivendo paralelamente, também em modo “on”. O mundo digital está tão incorporado à palma da mão deles, que fica difícil compreender a motivação da minha atenção a um aparelho de TV qualquer. Todos os meus argumentos de entretenimento a noticiários, de novelas a filmes ou esportes, todos são conflitados por eles, por inúmeras outras vantagens existentes na internet e disponível em seus celulares. No DNA deles, está embutido o cromossomo @.

Não há dúvidas de que os avanços tecnológicos têm possibilitado refletir sobre a nova forma de os seres humanos agirem, convergirem e divergirem. A era das redes, das virtualizações e das técnicas se infiltrou nas arestas do nosso ser e, assim, demarcando novas territorialidades, bem como novos pressupostos entre o presente e o futuro

Na minha geração, o computador ainda não era uma ferramenta pedagógica democratizada. Essa inteligência coletiva que foi sendo produzida como um dos principais motores da cibercultura e passou a definir a mudança social que acompanhamos na atualidade. Pierre Lévy atribui à internet o motor de uma revolução, tendo em vista não mais ser possível separar homem e tecnologia. A forma de relacionamento da sociedade com a informática, com as redes, com a multimídia, com os jogos eletrônicos, em suma, com os modos de navegação que produzem a comunicação, criou uma cultura high tech irreversível. Não é exagerado afirmar que um novo homem foi gerado nesse útero, líquido e fluido, interligado por fios e conectores, com a liberdade prometida em uma conexão wifi.

Não aprecio o termo “choque de gerações”, haja vista parecer algo ruim, belicoso, como um confronto de guerra. Prefiro compreender que há aprendizagens de ambos os lados. A minha rigidez tem muito o que conhecer da fluidez atual dos jovens e vice-versa. Se as relações se tornaram mesmo mais voláteis, o individualismo pode ser a causa. E, nesse sentido, sentarem todos em um sofá para assistir a um programa de TV pode representar não apenas a atenção ao aparelho em si, mas ao modo com que as pessoas estão querendo assistir a programas, filmes e noticiários, que não é, necessariamente, de forma conjunta, integrada e socialmente construída, mas isolada e solitária.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito às plataformas. Saímos dos antigos canais convencionais e seus controles remotos para o chamado  streaming, que permite acessar conteúdos pela internet, em tempo real e sem a necessidade de download. Tais conteúdos estão presentes em imagens, livros, podcasts e vídeos. É a era da Netflix, do Spotify, Amazon Prime, Globoplay, YouTube, do Google Drive, dentre outros.

Desse modo, as novas gerações questionam o uso da TV com uma certa razão. A necessidade de consumir determinados conteúdos não está, impreterivelmente, em um sofá da sala, mas em um quarto sozinho. Não ouvindo comentários sobre alguma coisa que se vê, mas ouvindo sua própria voz no pensamento que compõe e, por fim, não se contentando com uma programação definida e fechada, mas em um plano em que a experiência do usuário seja valorizada de forma temporalmente customizada. Nesse sentido, o sofá e a TV ficaram concretizados, literalmente, em um mundo que não existe mais.

Para saber mais:

BAUMAN, Zygmunt – Modernidade Líquida – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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