A agonia de João

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João Alves Filho não será candidato a prefeito de Aracaju. Não que ele não queira, mas uma coisa é querer, outra coisa é poder. Não que haja impedimento legal — pelo menos por enquanto — para que ele se lance ao pleito. O que lhe faltam são condições objetivas para isso. E a principal delas é a oportunidade do momento. Se fôssemos místicos, diríamos que nesse instante os astros conspiram contra João. E não há nada pior para um político do que estar vivendo o inferno astral.

 

 

Como nada na vida acontece por acaso, João está sofrendo agora o tombo final de tropeços que vêm se sucedendo mais ou menos de um ano para cá. Talvez o ex-genro José Edvan Amorim tenha dado empurrão inicial quando ousou confrontá-lo. O ex-marido de Cristina Alves é matreiro, conhece o jogo da astúcia política, não é capoeirista mas sabe dar rasteira. Ele previu a derrocada do sogro e apostou todas as fichas nisso. Cismou de entrar na política mesmo contrariando a sogra senadora Maria do Carmo mas, principalmente, o avô dos seus filhos. Nos bastidores, como uma espécie de empresário da política, adquiriu um partido, o inexpressivo PSC, fez seis deputados estaduais e — sonho dos sonhos — elegeu o irmão, o médico Eduardo Amorim, como o deputado federal mais bem votado da história de Sergipe, com mais de 115 mil votos.

 

 

Como se fosse pouco, o golpe final de Edvan Amorim foi atropelar o sogro na escolha do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado que substituiria o aposentado Hildegards Azevedo. O deputado José Carlos Machado, amigo-irmão de João, pleiteava o cargo e tinha o apoio dele. Seria o ungido, não fosse a esperteza de Edvan. Nesse caso, não se pode descartar também a eficiência daquele que acabou sendo o eleito, o engenheiro Flávio Conceição de Oliveira Neto. João acabou sendo derrotado pelo genro e pelas contingências favoráveis ao nosso “Frei José”, que fora a eminência parda do seu governo, como fora de outros governos desde os anos 80.

 

 

Naquele interregno, João tinha acabado de perder a eleição para governador — no primeiro turno e mesmo estando no cargo — para um “menino”, Marcelo Déda. Foi uma pancada dura, agravada pelo que viria acontecer no segundo turno, quando assumiu a candidatura de Geraldo Alckmin — o que caberia a Albano Franco fazer (só que Albano saiu-se providencialmente pela tangente) —, sendo derrotado mais uma vez, dentro e fora do Estado: sua tábua de salvação política afundou e sua derrocada eleitoral pessoal se confirmou.

 

 

 

O DURO GOLPE DA NAVALHA — Mas o sofrimento mais agudo ainda estaria por vir. Em maio deste ano, o estouro da Operação Navalha o atingiu em cheio, dentro do próprio lar, como um míssil que vara a parede da sala, e resvalando no seu governo. O filho João Alves Neto, o seu ex-secretário da Casa Civil Flávio Conceição e um aliado, o ex-deputado Ivan Paixão, são flagrados em diálogos mais do que comprometedores com o esquema de corrupção da Construtora Gautama.

 

 

A ministra do Superior Tribunal de Justiça, Eliana Calmon, considerou que João Neto integrava o segundo nível da organização criminosa: “Apesar de não exercer cargo público, efetivamente comanda a área financeira do Estado. Recebeu vantagens indevidas da organização criminosa para: a) autorizar a liberação de recursos em favor da Gautama; e b) para viabilização de empréstimos (para isso encontrou-se pessoalmente com Zuleido Veras)”.

 

 

A grande imprensa tornou nacionalmente conhecidos lances comprometedores e constrangedores. O jornal O Globo, no dia 23 de maio, escancarou: “O relatório reservado da Polícia Federal aponta o empresário João Alves Neto, filho do ex-governador de Sergipe João Alves Filho, como destinatário das maiores propinas pagas pelo empresário Zuleido Veras, acusado pela Polícia Federal de chefiar o esquema de corrupção de políticos e autoridades públicas desvendado pela Operação Navalha. O documento, em poder da ministra Eliana Calmon, do STJ, descreve vários casos de pagamento de propina a João Alves Neto. Num deles, o valor do suborno chegaria a R$ 330 mil. Mas a cifra pode passar de R$ 500 mil. Essa teria sido a propina mais alta paga por Zuleido captada pelas escutas de 2006 até hoje”.

 

 

E vem mais desgaste: os três, João Neto, Flávio e Ivan, deverão ter que responder a processo criminal. Os advogados de defesa dos 50 investigados em seis estados e no Distrito Federal argumentam que deverá cair por terra toda a fase de instrução do processo, comandada pela ministra Eliana Calmon, porque, segundo sustentam, não é lícito ao juiz fazer interrogatório se não há denúncia. O precedente é do Supremo Tribunal Federal.

 

 

Mas a ministra relatora do inquérito anunciou recentemente que o Ministério Público Federal deve oferecer, ainda este mês, denúncia contra os investigados na Operação Navalha. “O dono da ação penal é o Ministério Público. Após a apresentação das defesas, vou analisá-las para encaminhar o processo à Corte Especial. Uns podem ter a denúncia recebida; outros podem ter a denúncia recusada”, explicou ela, acrescentando que, após o oferecimento da denúncia, os acusados farão suas defesas preliminares.

 

 

A ministra Eliana Calmon destacou, ainda, que tudo o que aconteceu até o momento foi única e exclusivamente investigação. E mais: que o papel da Justiça foi o de preservar a prova decretando a prisão preventiva e ouvindo os indiciados. E ressaltou que a demora da Polícia Federal e do MPF deve-se à complexidade dos fatos envolvendo muitas pessoas, em diversos estados. Muitas obras da Gautama estão sendo periciadas pela Controladoria Geral da União e pelo Tribunal de Contas da União. O objetivo, segundo ela, é preservar o patrimônio público, verificando a possibilidade de continuação das obras, ou a paralisação. Aguardemos, portanto.

 

 

 

A PERDA DO PADRINHO E DO BOM SENSO — A agonia de João prosseguiu em julho com a morte de Antônio Carlos Magalhães. Além de seu padrinho político, ACM era um aliado poderoso que abria caminhos para o amigo sergipano em Brasília.

Depois de tudo isso, João, que desde a eleição passada já dava sinais de atropelar o bom senso, agora perde a razão quando acusa o governo Déda de nazista, por não ter concordado em abrir uma maternidade que não tem condições de funcionamento. É uma agressão chula, descabida, fora de contexto, ainda mais quando proferida por um homem que foi governador três vezes e conhece bem a liturgia do cargo, a ponto de saber que Déda não entraria nesse jogo de desespero.

Depois, quando o controlador Geral do Estado afirma que suas contas estão irregulares, ele denuncia, numa entrevista ao jornal da própria família, que o governador Marcelo Déda é quem tem que se preocupar com a Operação Navalha. Com a devida vênia, provocação que soa a uma desfaçatez.

 


Portanto, João Alves Filho insinua lançar-se candidato a prefeito de Aracaju para ganhar uma sobrevida política. É blefe. Mas, se tiver mesmo coragem, o que ninguém de sã consciência acredita, tem tudo para ser a sua derrocada final: a perda da eleição será sua morte política.

 

 

Mais facilita do que confunde o entendimento dessa crise existencial toda o fato da esposa, Maria do Carmo Alves, ser citada nacionalmente dentre os senadores da oposição que estariam pulando para o lado do governo Lula. João nega peremptoriamente, até de forma raivosa. Mas é sintomático que nunca mais ninguém do DEM em Sergipe tenha criticado a transposição do rio São Francisco, para citar um dos motivos de ataques anteriores. E que o genro Mendonça Prado agora apareça defendendo projetos do governo Déda.

 

 

Os aliados se apegam ao “Negão”, puxam a barra da sua calça, espicham-no o que podem, porque não têm alternativa. Na eleição do próximo ano, quem seria o candidato? Mas o que lhe resta é isso: Maria, senadora inexpressiva, de um Estado inexpressivo, precisa do governo Lula. Portanto, João, um ex-governador atormentado, rende-se ao governo Lula. Em suma, agora (quem diria?) João precisa de Lula. É isso ou nada.

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