A Crise nunca foi nova

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A grande crise nacional recente foi o destempero do rebento numero 2 do Presidente Jair Bolsonaro, o impulsivo Carlos Bolsonaro, que chamou via redes sociais o Ministro, Gustavo Bebiano, de mentiroso.

A mentira, é comum dizer-se, tem pernas curtas.

Chamar alguém de mentiroso é ofensa passível, creio eu, de implicações judiciais. Querelas a ensejar proventos advocatícios, em salutar ou desnecessária distribuição de renda.

O mentiroso, no entanto, se bem falou, ou mal o fez, bem mal fazendo o que não devia, sabe-se lá o que; foi interpretado assim.

Do dito ou não dito, o mal dito resta sempre malquisto. Daí a pecha escarrada, visguenta e peguenta, a enodoar as publicações graxentas que se seguiram ao affaire Bebiano.

O noticiário, por comum, adora este visgo graxoso e seboso, que fisga, prende e não larga, afundando todos, e o Brasil junto, em amplexo de afogados.

Quando o problema da mentira, todos o sabemos, vem de longe.

Rememorar sua origem não vale à pena.

Sabe-se que o pior cego não é o míope, o hipermetrope, que têm cura por simples dioptria.

Também não é aquele de quem é preciso furar-lhe os “óios”, como os do Assum Preto da canção, só para cantar melhor, ou o outro de pupilas vazadas porque assim sempre será preciso punir a ousadia dos que teimam em admirar e sonhar com o que bem além vige das cavernas da vida.

O pior cego, todavia, é aquele que no aquém do seu existir, só enxerga mesmo aquilo que deseja.

E porque aconteceu o indesejado, Bolsonaro à frente, escolhido por expressiva maioria, permanece ainda rejeitado e praguejado. Aquele que foi, e que não deveria ter sido, nem imaginado; candidato.

Eis então o eterno retorno, impensável, mas acontecido, como resultado da nossa decantada democracia, assaz requerida e ardentemente exaltada, mas fugaz e acidamente repelida.

E nesse reverbero em ganidos de revérbero infernal com Bolsonaro se aplica uma nova versão de campanha anti-getulista no pensar Lacerdista dos idos de 1950: “O capitão autoritário não pode ser candidato. Se candidato, não poderá ser eleito. Se eleito não poderá ser empossado. Se empossado, não deverá concluir o mandato”, valendo tudo, até facada, quanto mais mentira.

Quanto à democracia, em mentiras amplas nunca no todo confessadas, nem com juras de delações premiadas, todos a querem, plena, ampla, universal, sobretudo no discurso verboso e demagogo, prestamente já lamentado e carpido nas prévias ibopeanas antes do pleito eleitoral.

Alguém poderá arguir que o problema da nossa democracia está viciado por origem, afinal cada um se acha maior e melhor que o povo em geral.

Não há muitos que ousam resmungar, porque bem gostariam poder gestar uma democracia sem povo.?

Cabe, entretanto, a questão: como fazer uma democracia sem povo, sem se arriscar a ser lapidado na sarjeta de suas próprias ideias?

Eis o velho problema, um desafio entre Platão que imaginava os filósofos como melhores reis, e Aristóteles que preferia a democracia como escolha ampla de todos os homens livres, desde que estes visassem apenas o bem comum.

Como permear este limite tênue entre o bem comum, e aquele comum-de-todos que pode se tornar de um somente, ou de um grupo insolente, por um querer pessoal tão ilimitado quanto a ambição o permitir, a mim e a todos, e a qualquer um?

– “Para isso existirá o império da lei! “ – Dir-me-á rápido o idiota da objetividade, aquele que crê na infalibilidade das regras escritas, quando estas são feitas também para suscitar brechas a serem violadas.

Assim, eis como tarefa comum esta busca ideal da verdadeira democracia, que não pode prescindir da livre escolha popular.

E nesse questionar rotineiro, está o noticiário recente, assinalando realmente, o verdadeiro respeito e acatamento a esta premissa?

Alguém na grande imprensa nacional, em seus escritos e editoriais idoneamente concebidos, firmou compromisso de respeito à regra legal definida pelas urnas?

Não se vê em tais publicações um proselitismo partidário mal digerido e inconfessado, massivamente rejeitado pelo eleitorado, na pretensão de solapá-lo já com manobras escandalizadas?

Não está o mandato presidencial do Capitão-Presidente mal deglutido desde a prima hora, esfaqueado também pelo farto pensar de tais opiniões insensatas?

Ah! mas o problema são os filhos do Presidente! Ou melhor; o problema é o Presidente! Ele não consegue podar nem a si, muito menos os arroubos dos seus pimpolhos.

Como se existisse algo de novo debaixo do Sol, em tanta influência de familiares nas nossas vidas.

E aí, só para consignar como inútil cultura a referir e ferroar em ferro vivo, eu me lembro de vários exemplos na história do mundo, em sonho, realidade ou ficção.

Lembranças que me levam a Cronos, o grande deus da mitologia grega que deglutia os filhos gerados pois temia que estes crescessem e o destronassem. Um dia, conta a mitologia, nasceu-lhe Zeus, de sua irmã e esposa Reia. Esta envolveu uma pedra em trapos, e fez o glutão engolir como se fora o recém-nascido. E Zeus que escapara de ser comido, cresceu forte, rápido e inteligente. Logo venceria o pai, tendo Metis como aliada, uma filha do titã Oceano. Metis dera um “boa noite Cinderela” a Cronos que adormeceu em sono profundo. Quando Cronos acordou do pesadelo, estava castrado e não emprenharia mais ninguém, num enjoo tamanho, que vomitou todos os outros filhos e filhas engolidos anteriormente: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon.

Por tragédia mais funesta, Sófocles concebeu “Édipo Rei”. Nesta peça, Laio é um rei de Tebas, que temendo ser destronado por seus filhos, mandava matar sua descendência, logo ao nascer. Um filho, chamado Édipo, fora, todavia, poupado. Crescendo, Édipo, sem o saber, viria matar o rei Laio em luta leal, casando-se com sua mulher, uma jovem belíssima chamada Jocasta, de quem restou enamorado, fazendo-a mãe algumas vezes. Jocasta era nada mais que a própria mãe de Édipo. Eis então filhos nascidos deste incesto. Um pecado tão terrível que leva a Édipo vazar os próprios olhos para não enxergar sua miséria.

Misérias à parte, eis que muitos anos depois surgiu um austríaco de muito valor, Sigmund Freud, o papa da psiquiatria, instituindo o “Complexo de Édipo”, segundo o qual todos queremos matar o pai para dormir com a mãe.

Nesse mesmo contexto de entreveros familiares William Shakespeare traçou Lady Macbeth, o tio e a mãe de Hamlet, tios sinistros, por reais, como Ricardo III, suspeitas adulterinas em Otelo, o Mouro de Veneza e até muitos conflitos em Coriolano, o herói que se faz traidor, só por fofoca e mal-entendidos.

Se os exemplos listados acima são ficcionais e/ou mitológicos, que dizer de Alexandre Magno que viveu com a eterna acusação de ter cometido parricídio, matando o Pai Felipe pare herdar-lhe o reino da Macedônia?

E o que dizer de Clovis, o primeiro Rei dos Francos, que só se sustentou no trono quando matou alguns parentes com machado de próprio punho?

Que dizer de Catarina de Médici que reinou na França, como viúva de Henrique II, três filhos reis menores, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, casou uma filha, a Rainha Margot com Henrique IV, o primeiro Rei Bourbon, para quem “Paris bem valia uma festa”.

Catarina que fizera de tudo para pacificar as guerras de religião e evitar a “Chacina da Noite de São Bartolomeu” (1572), e até também por causa dela o Brasil não foi francês, porque em meio às suas façanhas, fora morto o Almirante Gaspard de Coligny, o mentor da França Antártica, de Nicolau Durand de Villegaignon, na ilha de Serigipe, no Rio de Janeiro, no tempo da confederação dos Tamoios, com Mem de Sá, Estácio de Sá e Ararigboia combatentes dos Tupi?

To be or not tupi, décadas depois, ainda na França, o monarca Luís XIV, em controvérsias e peripécias só foi o Rei Sol dos franceses depois que se livrou de um irmão gêmeo suposto, enclausurado com uma máscara de ferro em ficção de Alexandre Dumas (pai) e algumas ilações de Voltaire.

Napoleão Bonaparte como “Le Petit Caporal”, General, Cônsul e Imperador, jamais se afastou de seus irmãos e irmãs, gozando todos eles de muita deferência desde o Consulado em 1799, passando pelo Império de 1804 a 1815, até depois no Governo dos Cem Dias.

José, o irmão mais velho, foi Rei de Nápoles de 1806 a 1808 e da Espanha de 1808 a 1813. Luís, foi Rei da Holanda de 1806 a 1810, é o pai de Napoleão III, aquele que Victor Hugo chamava de “Napoleon, le petit”, e sobre quem Karl Marx escrevera sua obra mais citada “O Dezoito Brumário de Luís Napoleão”. Luciano, foi Príncipe nomeado pelo Papa Pio VII. E suas irmãs, só para falar de três, Paulina, casou com o General Leclercq, Elisa foi Grã-duquesa da Toscana, e Carolina foi esposa do General Murat.

Já de Getúlio Vargas, todos falam dos seus irmãos Benjamin, o Beijo, Viriato e Protásio, tidos como furibundos matadores, e o filho Lutero.

Acusam a Beijo e Lutero pela queda de Getúlio em 1945, após quase quinze anos de governo, e em 1954, como desfecho de seu suicídio.

Em verdade, esta questão é conveniente às explicações para um copo de água estar meio cheio ou meio vazio. Em ambos os casos o volume de líquido é sempre o mesmo.

Quando se quer desfazer de parentes como agora, neste caso dos filhos de Bolsonaro, ninguém fala do notável trabalho de Alzira Vargas do Amaral Peixoto, sempre ao lado do pai em todos os momentos, do apogeu ao ocaso, enfrentando até o infausto do suicídio.

Se quisermos falar ainda da influência familiar em Sergipe na administração pública, há seara para todos os gostos, tanto na república velha em véspera da revolução de 1930 quando rebentos de governadores peleavam com primos, sobrinhos e aderentes, como depois no regime militar e quase em tempos recentes.

No período autoritário militar um governador probo fora algumas avezes atacado só porque utilizara um filho, inteligente eficiente no seu governo. Nesse tempo era comum a execração pública das mal aceitas ideologias de gênero.

Outro Governador plantou diversas cepas familiares frondosas no seu entorno político-partidário. Nada que fosse ruim para o Estado, mas uma boa matéria para crítica dos eventuais oposicionistas.

Se aqui em Sergipe vigeu a oligarquia dos Leite, dos Garcia, dos Franco e dos Alves, que dizer de outras perdidas no marulho de águas revoltas por passadas.

Não há, portanto, nada de novo debaixo do Sol, muito menos agora com os filhos barulhentos e birrentos do Presidente Bolsonaro.

O que se deseja com o noticiário vazio e escandaloso é deixar o Presidente claudicante e cambaleante para que nada se resolva em tantos problemas a dirimir.

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