Cinzas e lembranças renovadas

0

Agora que o carnaval acabou, estou à procura de um tema.

Não irei falar contra o carnaval.

Adoro-o, apesar de não ter a velha agilidade para saltos e corridas.

Não será por causas de brochuras e outras falências que irei demonizar as posturas e saliências carnavalescas.

Deixo-a para os desprovidos de euforia e paixão, em tantos chatos, que erram o canto, e o passo, e não se veem pensando em descompasso.

Do carnaval sergipano, em contrapassos, lembro-o desde criança, ser muito fraco. Era bom. Eu gostava.

Ficava resumido à Praça Fausto Cardoso, algumas caretas na rua e um parco desfile de escolas de samba – uma delas era a “Siqueira Campos” – e os blocos ou ranchos, com destaque para o “Império do Morro” e “As Italianas”.

Como eu morava na Rua de Pacatuba, residência onde nasci, o desfile acontecia quase na frente da nossa casa.

Nas minhas lembranças infantis, a concentração de blocos e ranchos se dava na Rua de Maruim, quase em frente ao Armazém Dois de Julho, daí virando à esquerda e seguindo pelo primeiro trecho da já referida Rua de Pacatuba, em demanda da Praça Fausto Cardoso.

O cortejo seguia passando à frente dos Palácios Fausto Cardoso e Olímpio Campos, então sedes dos poderes Legislativo e Executivo, depois prosseguia pela Rua João Pessoa se perdendo lá para as bandas da Praça General Valadão, onde se destacava o Palácio Serigy, com suas bolas de cimente, notáveis, e que ainda existem, e a Rádio Difusora, PRJ6, que por ali também ficava.

No largo calçamento, ainda hoje existente na Praça Fausto Cardoso, pontificava um relógio de quatro faces, onde o horário variava ao lavor do quadrante.

Ali acontecia algumas rodas de criança animadas por Lança-perfumes, marca Rodouro e Colombina, salvo engano.

Era gostoso brincar com Lança-perfumes, confetes e serpentinas.

Depois entenderam que tais Lança-perfumes estimulavam o uso de tóxico e foram proibidas. Surgiram as bananas de água, mais econômicas e populares, um caminho para a sua extinção.

Deste relógio, hoje desaparecido, nunca recordo marcação de hora precisa. Era, todavia, um ornamento que a cidade possuía e pelo que sei, querido.

Um dia, numa madrugada para ser melhor preciso, um automóvel tomou uns porres, se foi num carnaval não sei, atropelou o relógio tetra exibido, que findou estendido no chão, sem dó nem piedade, dali sendo removido e nunca mais retornando.

Aproveitando o carnaval ainda, e sem ter nada a ver com o festejo em si, a cidade tinha seu lazer alegre e humanizado, sobretudo porque nesse tempo, na Praça da Catedral, fora erguido o Parque Teófilo Dantas, um mini zoológico, lugar colorido da minha infância, com macacos, aves de varias espécies, roedores, cotias, capivaras, preguiça, peixes em aquários e tanques, e até uma onça sempre escondida em sua toca. Hoje nada existe. É só memória.

Se na Praça do Palácio ainda impera a Estátua do Tribuno Fausto Cardoso, radical exaltado fuzilado em Praça Pública, na Praça da Catedral erguida está ainda a estátua do Monsenhor Olimpio Campo, morto por vingança pelos parentes do primeiro, isso nas franjas do Senado Federal, o antigo Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, então Capital da República.

Morto sendo enaltecido de um lado, morto alteado do outro, as duas estátuas talvez não pacificassem seus correligionários porque erguidas miravam ambas para a nascente, como se professassem mesmo gosto e ideias.

Neste contexto de mirada para o Oriente, só a estátua de Silvio Romero, erguida na Praça Camerino, orientava-se diferentemente das demais estátuas erigidas na cidade.

Seria uma questão de acaso do culto ou de culto ao Ocaso?

De acaso! Dizia-me um amigo que ali vivera a sua criancice.

Porventura seria de bom gosto, deixar o acaso edificar o folclorista de costas para a população mais importante daquela cercania?

Não foi, portanto, um culto saudoso ao Sol, ou ao seu Ocaso, mas de simples acaso, em outra contemplação.

No caso da estátua do Monsenhor Olímpio, por ironia, o Padre ficara obrigado a contemplar perpetuamente o adversário político erguido a sua frente.

Neste acaso contextual, talvez para que o Padre não se cansasse com aquela paisagem pouco oportuna, alguém resolveu construir um mictório a meio caminho, isso na outra Praça, a Almirante Barroso. Seri por criação de uma barreira visual providencial?

Nas minhas lembranças, este mictório era terrivelmente malcheiroso, um desafio às sucessivas administrações municipais, que não o conseguiam higienizar.

Como ninguém eliminava a fedentina, alguém resolveu extinguir o mijadouro.

Para que mantê-lo, se mais fácil e desaguar na própria Praça, fazer melhor privada ali e mais adiante, na Ponte do Imperador?

Por que lembrar agora em fim de festejo momesco, de urina e excremento?

Porque deles é feito o rastro humano, seja de rancho, bloco ou desfile.

Os humanos não são como os felinos que enterram os próprios dejetos.

E o carnaval, em seu rastro sucedâneo do cortejo, deixa o verdadeiro perfume humano; o aroma dos deseducados, daqueles que sempre empesteiam o caminho não frequentado.

É por lembrar assim que eu recordo o Precaju, com os blocos desfilando na Avenida Beira Mar, para quem sobrava o perfume.

Nunca em Aracaju houve um festejo mais notável que o Precaju.

E como isso era bom e ensejava alegria, seus críticos o fulminaram letalmente, hoje nada existindo, com a cidade restando mais triste.

Agora que o Carnaval se foi e hoje é dia de cinzas, que a quaresma nos chegue em poucos jejuns e abstinência de gozos.

 

Comentários