Um arrepio romântico?

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Quando aconteceu o atentado do Charles Hebdo em Paris, houve uma grande comoção mundial.

O mundo inteiro se uniu em manifestação gritando – “Je suis Charlie!” – Solidarizando-se com o atentado contra aquele periódico satírico.

Infelizmente, naquela mesma época acontecera o desastre de Mariana, com centenas de mortos, hoje esquecidos, e um amplo desastre ambiental, à espera da depuração lenta, por natural, de uma natureza rotineiramente agredida.

O reflexo dos dois desastres me levou a escrever neste mesmo espaço, em 12 de janeiro de 2015, o texto: Je ne suis pas Charlie, je suis encore moi-même”.

Eu não era Charlie, e continuava a ser eu mesmo, ainda!

Dissera eu, por início: “A frase do momento é “Je suis Charlie”, eu sou Charlie, uma citação que não me empolga, preferindo repetir Ortega e Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.

Em verdade, se os sinos dobram em pranto de todo humano fenecido, há homens que são mais carpidos.

Os humoristas franceses valiam mais como perda mundial que todos os enlameados de Mariana.

Estes, por humildes e anônimos, restariam esquecidos, como ganga e rejeito de um mau momento, uma má posição, uma infeliz localização que os fizera tão inconveniente quanto pouco pranteados em perda de valia.

Desvalidos em tantos males validos, os desastres tipo Mariana continuam a matar impunemente os humildes e indefensáveis.

Agora foi a vez da barragem de Brumadinho, com mais de trezentos mortos ou desaparecidos, e o incêndio no “Ninho do Urubu”, alojamento que se transformou em câmara ardente flamenguista, incinerando dez jovens atletas.

Desastres evitáveis a demonstrar como a vida é bem cuidada por estes brasis.

Mariana e Brumadinho estavam sob uma bomba engatilhada, amparada por laudos duvidosos, investimentos adiados, segurança esquecida e menosprezada.

Igual ao “Ninho” que se revelou desprotegido em ausência de desvelo e carinho, para cuidar de adolescentes, distantes de pais e responsáveis.

E depois que o desastre acontece, vê-se que no excesso de multas e penalidades recebidas e desprezadas, a evidenciar que as irregularidades eram patentes e contundentes, em desleixo venal, de criminal prenúncio, premia-se com fartos rapaces financeiros, seja em renúncia fiscal, empréstimos subsidiados, marketing envolvendo instituições públicas, excesso de vantagens concedidas em bons emolumentos monetários, sempre bem justificados, requeridos e concedidos com esbórnia da galera.

Todavia, quando o infausto acontece, pergunta-se ao mar e ao léu:  – Quem é o culpado?

Adianta procurar o culpado, se todos o somos, quando persistimos indiferentes ao pranto dos outros?

As mineradoras podem parar?

Brumadinho e Mariana podem prescindir dos impostos angariados mesmo a tal custo tão sinistro?

O Brasil, esta nossa nação gigante, pode reduzir seus ganhos exportados no mineral mal processado, mas em dólar, moeda forte, bem vendido?

Como ficará nossa balança de pagamentos com eventuais proibições e impedimentos de uso de tais barragens?

E agora o Flamengo, como bola da vez, deve deixar de jogar, descumprir o campeonato, só porque não atendia as multas e fiscalizações recebidas e não cumpridas?

Se não há culpa, nem culpados, ou se todos nós o somos em muitas omissões diárias, que nos inculpemos rapidamente, se possível com um minto de cinquenta segundos, afinal o jogo tem que continuar como verdade lamentável.

Nestes tempos terríveis de “barragens à montante”, assunto pouco debatido e que restou tema batido e rebatido no noticiário, que dizer da arquitetura seminal de construir dormitórios em contêineres, sem saída, nem janela, ventilação forçada, alimentada por ar-condicionados, via gambiarra?

Poder-se-ia imaginar que num ninho qualquer, uma gambiarra resumiria a melhor instalação elétrica, sem que isso não traduzisse o real descarinho, mal zelo e desmantelo, isso no “ninho do urubu”?

Um ninho que se fez inacessível e inescapável câmara mortuária crematória?

Que urgência cuidadora utilizaria uma gambiarra elétrica, como melhor solução contra o calor, em desafio aos manuais de Eletrotécnica que previnem e evitam tais danos e riscos?

Basta-nos um lamento por minuto de silêncio?

E assim eu volto a Dom José, um mestre de claridades: “se não salvo a minha circunstância, não me salvo a mim”.

Se nestes “silêncios” não aprendermos com nossas circunstâncias, não a salvaremos, nem a nós mesmos.

O resto é mero chavão; um arrepio romântico de vazia denúncia.

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