À espera de um milagre

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Pesquisa eleitoral só é justa para o candidato que está liderando. Invariavelmente, quem está atrás discorda dos números, reclama da seriedade do instituto, diz que possui outra pesquisa que mostra resultado diferente e lembra que um dia o instituto tal errou. Agora não poderia ser diferente.

O ex-governador João Alves Filho tem aparecido no programa eleitoral do seu candidato Mendonça Prado para, dentre outras coisas, discordar do resultado da pesquisa do Ibope, que dá ampla vantagem para o governista Edvaldo Nogueira, que aparece com chances de resolver a eleição no primeiro turno. O Ibope apontou o postulante à reeleição com 48% das intenções de voto.

João afirma que o Ibope possui histórico de erros e lembra de 1994, quando o senador Albano Franco aparecia como virtual vencedor da eleição para governador no primeiro turno e foi surpreendido por Jackson Barreto, que ganhou, por magra diferença, e levou a decisão para o segundo turno, quando, aí sim, Albano venceu.

Mas aquela era uma eleição cuja medição era quase impossível de se fazer porque só havia basicamente dois candidatos no páreo, com chances iguais para ambos. João está certo em dizer que o Ibope errou, pois na última pesquisa realizada, no dia 28 de setembro, Albano aparecia com 49% das intenções de voto, contra 31% de Jackson. Os outros candidatos, José Araújo e Vera Tourinho eram praticamente traços.

Quando se abriram as urnas, Jackson havia obtido 47,61% dos votos válidos e Albano, 47,39% — uma diferença de 1.288 votos, num universo de quase 800 mil votantes.

A eleição de 1994 foi acirrada em todo o Estado, mas no primeiro turno Jackson Barreto só conseguiu vencer em 19 dos 75 municípios. A diferença é que, em Aracaju, como sempre, ele conseguiu mais votos do que o esperado. Jackson era um fenômeno eleitoral na capital, onde sempre crescia na reta final, e essa questão subjetiva, imponderável, o Ibope ou nenhum instituto conseguiria medir.

Para complicar a situação do Ibope naquele ano, no segundo turno aconteceu o contrário: a pesquisa de boca-de-urna realizada no dia 15 de novembro apontava vitória de Jackson, mas prevaleceu a eficácia eleitoral do senador Albano Franco e a força política do então governador João Alves. Jackson venceu na maioria dos principais colégios eleitorais, mas não foi suficiente para tirar a diferença.

 

LEMBREMOS QUE NÃO É SÓ O IBOPE que aponta para a vitória de Edvaldo Nogueira. Outros três institutos, um deles realizando pesquisas para consumo interno, dizem a mesma coisa. A situação só mudaria se houvesse um desastre na campanha do candidato apoiado pelo governador Marcelo Déda e pelo presidente Lula. Ou se do outro lado existisse um fenômeno eleitoral, o que não parece ser o caso agora.

A oposição teria que ter o apoio do Jackson Barreto de 20 anos atrás — mais uma vez ele —, que inventou um candidato e passou por cima de tudo e de todos para vencer a eleição na capital.

No começo do ano de 1988, os candidatos favoritos eram o jovem deputado estadual petista Marcelo Déda e o experiente médico pefelista Lauro Maia, apoiado pelo governador Antonio Carlos Valadares, pelo ministro do Interior João Alves Filho, pelos Franco e Teixeira.

Quando Jackson Barreto lançou uma chapa de advogados, Wellington da Mota Paixão para prefeito e Carlos Alberto Menezes para vice, parecia que estava fadado à derrota. No dia 21 de janeiro daquele ano, o Ibope dava para o seu candidato ridículos 0,3% das intenções de voto. Déda disparava na frente com 35% e o bom Lauro aparecia com 6,3%.

Em 30 de agosto, os números eram: Déda, 38%; Lauro, 32%; Wellington, 9%. Como Jackson poderia vencer a eleição? Na última pesquisa realizada, os números eram bem diferentes: Wellington, 47%; Lauro, 32%; Déda, 8%. Resultado final: Wellington Paixão eleito prefeito com 46,51% dos votos válidos, contra 27,07% de Lauro Maia e 6,25% de Marcelo Déda.

Uma curiosidade: o professor Jorge Carvalho, hoje secretário adjunto do Turismo, foi candidato a prefeito pelo PCB, conquistando a quarta posição.

Aquela eleição de 1988 foi movida pelo emocional, situação que Jackson Barreto sabia controlar como ninguém. Ele havia acabado de ser defenestrado da prefeitura de Aracaju, conseguiu incutir no inconsciente coletivo que havia sido injustiçado — apesar das provas de sua má gestão financeira — e levado o eleitorado a acreditar que os culpados pela intervenção eram Marcelo Déda e o governador Valadares.

Resumindo, foi a ação do fenômeno, do prodígio, do extraordinário, que não se repete a qualquer hora nem se inventa quando se quer.

 

O EX-GOVERNADOR JOÃO ALVES FILHO se esforça para ser esse personagem excepcional capaz de reverter a tendência do eleitorado, catapultando a candidatura do genro Mendonça Prado. Quando o assunto é eleição, não se pode dizer que nada seja impossível, principalmente para João, mas dificilmente ele conseguirá.

Assim como Jackson em 1988, João busca passar para a opinião pública que também foi injustiçado, porque está perdendo a luta contra a transposição do rio São Francisco, porque é perseguido pelo presidente Lula e seu PT, porque foi derrotado na reeleição ao governo do Estado.

Só que ele está repisando o discurso da derrota de 2006, quando nem teve chance de disputar o segundo turno. Está usando o palanque de Mendonça Prado para reviver a campanha de governador. E isso não vai mudar a opinião

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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