A sereia. o Covid, a Mesquita e o Czar.

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Este Covid está nos deixando doidos, presos, enclausurados, ouvindo informes terríveis, adiando sofrimentos, enxugando lágrimas, todo o dia a notícia circulando, falando da morte de alguém, chegando cada vez mais próximo.

O aviso nos chega, via WhatsApp: ontem morreu o filho de um amigo, 35 anos, na flor da idade, deixando um filhinho lactente; uma tristeza!

Imagino o sofrimento deste amigo.

Que fazer?

Não se pode nem carpir, nem bem velar, como bem merecia, nesta infelicidade que é um pai sepultar um filho.

Igualmente a um outro, com 66 anos, quase um colega de bancos escolares, que se foi também.

Quem virá depois?

Serei eu?

Alguém que merece menos do que eu? Eu que sou do grupo de risco?

A covid, ceifando todos, segundo a imaginação infantil.

– “Fiquem em casa!” – Gritam-nos alarmistas e especialistas posando de artistas na TV.

A TV, sobretudo a Rede Globo, auto-entronizada autoridade incontestável, prepara suas matérias para melhor alarmar a população, que impedida de escutar uma opinião distinta, é direcionada contra o Presidente Bolsonaro, a quem não quer bem.

Do Presidente, direi apenas que, contra tudo e contra todos que lhe assestam golpes lacrais por desleais, suas bananas-reais ou cardeais proferidas, são merecidas e bem aplaudidas pelo seu eleitorado, minguante de 30%, é verdade!, constituído de estrambelhados,  equivocados e resistentes, apesar de tudo, que também tem sido atacado pelo Covid, mascarado ou não.

Digo, apesar de tudo, porque ninguém pode ter acesso a um noticiário diferente, porque o grupo Globo, Folha e Estadão, sem ser Pedro, o Eremita, nem São Bernardo de Clavaral, estão a convocar verdadeiras Cruzadas, para derrubar o Presidente que lhe é energúmeno, por desagradável, a merecer inclusive desejos de morte, em via pior e cruel.

Falando em crueldade e coragem de cometer desatinos, no artigo passado, falei de dois assassinatos reais, sangrados à ferro frio, passados na faca, com furor e sem piedade, perpetrados por um trabalhador humilde, descamisado e apedeuta, e por uma jovem francesa bem nascida e refinada, que souberam, um calar um policial atrabiliário, e a moça, Charlotte Corday, bem calar Marat, o sanguinário jornalista que se intitulando verdadeiro “amigo do povo”, excitava o populacho, despertando-o ao frenesi de decepar as cabeças de não seu agrado, aí incluídos, os contumazes suspeitos, os açambarcadores rentistas, os fraudadores de peso e trena, os rentistas pré-capitalistas, e os indiciados, tornados simplesmente suspeitos de serem suspeitos, quaisquer deles, aí incluídos os seus juízes e os eventuais jurados, em desejos maus compartidos, de moderação ou venalidade.

Destaco tal excesso jornalístico, porque em moderação ao permitido legalmente, se não há guilhotinas, forcas ou garrotes-vis, para enviar os de não seu agrado, não é porque o homem afinal, restou mais brando.

No tempo e no espaço, o homem e a pena são os mesmos, ambos cometendo e rascunhando os mesmos crimes, e se não os cometem realmente, como os atores e autores, lembrados acima, é porque lhes faltam um resquício de sua coragem, disposição e ousadia.

Um jornalista que escreve desejando a morte do Presidente ao sabe-lo acometido pelo Covid, se nivela ao aidético que infectava com seringas o seu entorno, ou quem o sabe, “se non è vero, è plausibile”, o sucesso daquele marido corneado que venereamente infectou a esposa que lhe era adúltera, conseguindo atingir as fuças do Rei que lhe conspurcava o leito.

Mas eu não quero perder o eito e o jeito, deslindando misérias tramadas no leito.

Livro lançado esta semana em Paris, desfiando os erros cometidos, mundo afora, no combate ao Covid19.

Em outro proveito e sem colocar Bolsonaro no despeito, a imprensa francesa decanta o lançamento como best-seller, mais vendido, o livro de Christian Perronne, “Ya-t-il une erreur qu’ILS n’ont pas commise?” (Há um erro que Eles não cometeram?), falando do Covid-19 enquanto união secreta de incompetência e arrogância.

Mas eu também não quero falar de eventual malfeito dos governos europeus, sobretudo porque ainda não tive acesso ao livro, lendo apenas os poucos comentários.

A pequena sereia como a fotografei.

Em outros estuários, eu quero falar é da pequena sereia, envilecida na distante Dinamarca, falar também da Igreja de Santa Sofia, na Bizâncio, hoje Istambul, e até do culto surgido em Yekaterimburgo, na Rússia, em louvação ao Czar Nicolau II e sua família, cem anos depois de seu martírio, temas do noticiário passados despercebidos pelo Covid, e abafados também pelos impropérios lançados contra Bolsonaro, por muitas sereias em seu canto, pouco canoro, como os falsetes ora louvados do Ministro Gilmar Mendes, por exemplo, falando em demasia pelos cotovelos, falastrão que não devia, pois falatório de juiz de nada vale, quando ausente do processo.

Andersen e eu em Copenhague.

Como ninguém o crê assim, preferindo ouvir o canto de sereias por desencanto que os agradam, volto-me à “Pequena Sereia”, o terno conto infantil de Hans Christian Andersen (1805-1865), cuja estátua foi pichada por um vândalo anônimo, em sequencia a moda de depredação de monumentos históricos, mundo afora.

Na historieta de Andersen, uma jovem sereia salva um príncipe de se afogar durante uma tempestade.

Os dois se apaixonam perdidamente, mas que fazer?

Enquanto uma quase mulher, a sereia, tem tudo o que agrada ao homem da cintura para cima; olhos, boca, cabelo, voz e até seios; magníficos!

Da cintura para baixo… vã procura inútil em melhor cobiça!

Que tristeza! Só asperezas de escamas!

Sentindo-se imperfeita no todo e quiçá no principal, a sereia quer  trocar o oceano pela terra firme, encontrar o seu príncipe, serem felizes para sempre…, como toda boa história.

Há na história uma bruxa, deusa do mar, poderosíssima.

Ela pode lhe satisfazer os desejos.

Mas a bruxa, como todas bruxas, nada faz, sem cobranças, e por bondade.

Cobra-lhe um preço terrível; para ser humana, a sereia terá que renunciar a voz e o canto.

E se depois houver um arrependimento por desencanto, e não conseguir em três dias o beijo de seu príncipe amado, a sereia frustrada deverá retornar ao mar.

A sereia tem, portanto, três dias para ser beijada apaixonadamente pelo Príncipe, e assim poder se transformar permanentemente em um ser humano.

O Príncipe e a Pequena Sereia, agora uma garota completa, encontram-se, diz a história, mas o jovem embora bastante encantado com a sua aparência, não consegue ouvir a sua voz. Não a reconhece emudecida…

De sua lembrança apenas, recorda-se de ter sido salvo por uma jovem com uma voz mágica, encantadora!

Por fim, em desencontros, o Príncipe se infelicita casando-se com outra.

E a Pequena Sereia com o coração partido, se atira do alto de um penhasco de volta ao oceano afogando-se e se transformando em espuma do mar.

O genial Victor Meireles nos deixou uma bela Moema.

Em desafios outros de amor mal correspondido, o frade agostiniano, Frei José Santa Rita Durão, em seu poema épico “O Caramuru”, fala do amor dilacerado de Moema, a índia do amor mau partilhado, que se afoga nas águas do mar sem deixar espuma.

Caramuru, só para recordar, fora o nome atribuído a Diogo Álvares Correia, o náufrago português que salvo das águas e recoberto de sargaços, conseguira espantar os selvagens com um tiro fatal de garrucha, a suscitar-lhes admiração.

Lembrança que me faz voltar às aulas de uma História do Brasil, mais terna e infantil dos índios gritando: – “Caramuru! Caramuru! Filho do fogo, neto do trovão, homem saído do mar!”

Assim, ou não sendo tanto, Caramuru faz amizade com os índios Tupinambás, casando-se com duas mulheres, Paraguaçu e Moema, filhas do cacique Itaparica.

O livro de Frei José Santa Rita Durão.

Diz a história que Paraguaçu estava prometida a um outro índio, Guepava, salvo engano, que não se incomodou com a chegada de uma melhor aquisição de um tacape lusitano.

Diz-se também, que não foi o tiro do trabuco que salvara Caramuru, foi a própria Paraguaçu que impediu o português de ser canibalizado como suculenta moreia.

Digo Moreia, por que foi assim que Caramuru foi confundido, enquanto criatura do mar.

Confundindo tudo, direi que no poema, Santa Rita fala da viagem de Caramuru e Paraguaçu visitando a França.

Viagem da qual Moema não pode ir, porque não fora convidada, afinal a poligamia não devia existir, mas bem que existia, em azimutes bem acima do Equador.

É quando a garota diz ousada: “Eu nado bem! Eu vou nadando seguindo o navio!”

E assim, seguindo a caravela, sumiu no mar, pelo amante querido, abandonada!.

Em mesmo abandono, eu prefiro Moema à Pequena Sereia, ambas, espumas ao mar, transformadas.

Se de Moema ninguém fala ou lembra, a Pequena Sereia tornou-se uma das atrações mais populares de Copenhagen, diariamente dezenas de visitantes vindo tirar fotos com a estátua, como eu mesmo, ao seu lado.

A escultura da Pequena Sereia de Copenhague foi patrocinada pelo cervejeiro dinamarquês, Carl Jacobsen, fundador da Cervejaria Carlsberg, que em 1909, após assistir a um balé baseado na história de Andersen, o cervejeiro deixou o teatro tão impressionado com a fábula, que pediu ao escultor dinamarquês Edvard Eriksen que criasse uma estátua da Pequena Sereia, utilizando inclusive a bailarina, Ellen Price, artista do musical, como modelo.

A crer no relato do nosso guia turístico, a bailaria recusou-se a servir de modelo, pois teria que posar nua.

Em ausência de outros incômodos, no lugar da bailarina, posou desnuda a própria esposa do cervejeiro Jacobsen, ficando da Ellen Price pudica o rosto apenas, aquele que modelava a cabeça da escultura.

A estátua com 1,25 metros, leio-o na internet, foi inaugurada em agosto de 1913 atendendo uma tendência vigente na época, em Copenhagen, de decorar os parques e ruas da cidade com esculturas de personagens clássicos e históricos, como é o caso do fabulista Hans Christian Andersen, que ornamenta uma das praças e posa comigo em algumas fotos.

De 1913 para cá, só para dizer que desde Hamlet, há ainda muita miséria e podridão no reino da Dinamarca, o monumento da Pequena Sereia foi desfigurado algumas vezes, sendo-lhe até decepada a sua cabeça graciosa.

Numa destas depredações, a cabeça foi devolvida anonimamente, após campanha do radio e TV.

Tanto que, colho-o no noticiário, a presente pichação divulgada não atingiu a estátua verdadeira, junto a qual eu tinha posado quando a vi pessoalmente, mas de uma cópia.

A escultura original restaurada está guardada, à salvo, longe de bons e dos maus olhados.

Como dizem os indianos, e aí eu estou a lembrar a Índia, em outra viagem maravilhosa: a humanidade imita a divina trindade Hindu: Há os que criam. Há os que destroem e há os que conservam.

Neste trino destino da humanidade, eis que vem da Turquia o noticiário de que o Presidente Recep Tayyip Erdoğan decidiu transformar a Basílica de Santa Sofia, símbolo cristão ortodoxo em mais uma mesquita muçulmana.

Istambul, cidade belíssima, às margens do Bósforo, no Chifre de Ouro, antigo helesponto transposto por Alexandre Magno em grande feito nunca repetido.

De Istambul, dissera Napoleão Bonaparte: “Deveria ser capital do mundo!”

Na visão de Erdoğan, porém, Istambul tem que ser mais turca, que universal.

O noticiário mundialmente falando da ousadia de Erdogan transformar a Basílica de Santa Sofia em Mesquita.

É a velha luta entre o oriente e o ocidente, encanecida contenda entre crentes descrentes; fiéis e infiéis, adeptos da cruz que mata e do crescente que fere e sangra.

Bizâncio, Constantinopla ou Istambul, enquanto cenário de poemas e legendas, suscitava a salvação das almas em guerra santa para o perdão de pecados, com tantos cruzados embrutecidos na imposição de simples fé.

Eu, um teísta peregrino da Fé, orando a Alá na Mesquita Suleiman, em Istambul- Turquia.

Fé hoje tão relativa, que não devia mais matar ninguém, como se fez tanto só por se crer em diferenças.

Fé que anda esquecida, no pranto e na oração, poucos pedindo a Deus a cura, nem mesmo crendo nEle, ó que terrível!, enquanto salvação e escudo perante este Covid, crendo-se apenas nos respiradores falsificados, para bem lucrar em falcatruas dos que usam a emergência para fraldar. E roubar! E roubar! E roubar! Sem esperança de algo mudar, porque todos somos santos aos olhos dos homens e porque não há mais existe aquele supremo dom do Espírito Santo; o Temor-de-Deus!

Porque tudo é política, transmudar a Igreja em Mesquita, pichar estátuas, demolir monumentos, a História repetindo essa mania de querer refazer o mundo, sem erros nem falhas, como se tudo pudéssemos apagar, recriando o mundo e a sociedade partindo do zero.

Não foi assim quando os cristãos por seus Papas se entronizaram como imperadores, posando muitos de iconoclastas quebrando ícones, estátuas e hermas?

Não foi assim com o vandalismo acontecido no terror revolucionário francês profanando túmulos e sacrários, em procissões exibindo jumentos paramentados com batinas, mitras e ostensórios, achincalhados enquanto prelados.

Não foi assim com as bibliotecas incendiadas.

Não foi assim também com a Revolução Russa, renomeando cidades, apagando da história os feitos passados, inclusive assassinando o Czar indefeso e sua família, sem processo e sem oitiva, eliminado por cidadãos armados, ideais companheiros, só porque a história, recém inaugurada, os elegera carrascos em missão “patriótica e purificadora”?

Estou a lembrar tal fato, porque neste meu passeio, estou a rever a Rússia, que, nem bolchevique mais se lembra.

Reportagem da Revista LeFigaro Magazine, mostrando um culto renovado ao Czar Nicolau II, e sua família, venerados como mártires.

Rússia, em cujas estepes frias, ninguém o pensaria, que hoje se reverenciasse o Czar, e sua família, como mártires, como Santos, a ensejarem cultos e milagres como se estivéssemos a ver repetir o Eclesiastes: “O que foi é o que será: Não há nada de novo debaixo do Sol!”.

E assim eu encerro, despedindo-me de Moema, da Pequena Sereia, da Basílica Santa Sofia, a Santa Sabedoria, e do Czar, pedindo ao Covid que vá embora; se pique! Que nos deixe em paz!

Dos nossos males, cuidemos nós!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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