Amontoando o nada, ainda!

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Vez em quando ou toda a vida, eu amontoo o nada.

Escrevo besteiras para deleitar o vulgo, a ignorância, e até a petulância dos que se arvoram bem maiores por melhor pensantes.

É sempre bom mexer com os cérebros.

Forçá-los a se oxigenar, tirando um pouco as teias de aranha do imobilismo, que cada um deixa juntar, e eu também, sem o espanar diário, por necessário.

Essas coisas me fazem pensar, resistir a inércia, a preguiça mesmo, afinal setenta e três anos, como bem dizia a vizinha patusca de Nelson Rodrigues, não são setenta e três dias, nem setenta e três horas, ou minutos, tudo isso contando ainda, que na semana passada, completei quarenta e oito anos de feliz convivência com Dona Tereza Cristina.

Dona Tareja, como assim a acarinhamos, nossos três filhos e eu, com o jota gutural aspirado e pronunciado como erre, inspirando-lhe a tenacidade de Dona Tareja de Leão e Portus Calle, genitora de Dom Afonso Henriques, o ousado conde Portucalense que, brigando com ela,  se outorgou primeiro rei, no ocidental condado extremo a que vingou Portugal.

Mas, sem temer amontoar o nada, como agora, lancei no texto da quinta-feira passada, 11/02, um título despretensioso e questionador por escore: 2 X 0 ou 1 X 1?

O objetivo era tentar despertar leitores  apressados, sobretudo os esportistas, que adoram uma crônica futebolística.

O título questionador, enquanto placar, se referia à possibilidade de uma reeleição do Presidente Bolsonaro em 2022, no caso o 2 X 0, ou uma sua derrota para o Senhor Fernando Haddad, perfazendo o placar de 1 X 1, o que para alguns se não for uma heresia, sê-lo-á uma hemiplegia moral, segundo o conceito definido por José Ortega y Gasset em “La Rebelion de las Massas” (1937), a merecer, quem o sabe, desusadas curas via eletrochoques.

Porque para Dom José, é bom logo explicitar antes que o amontoo do nada cresça e em tolices se reproduza igual ao vento que no poetar de Cecília Meireles, porque “o vento é (sempre) o mesmo, mas a resposta é diferente em cada folha”.

As vuvuzelas são ótimas para açular multidões. 

E: “Ser de esquerda (para Dom José) é como ser de direita, infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas de hemiplegia moral.”

Hemiplegias que, nos meus amontoos do nada, eu costumo despertar os meus amparos, minha muletas e bengalas, não para dar bengaladas, mas porque delas preciso para prosseguir.

Porque seguir em frente sem temer procelas e mazelas, e alaridos desembestados de vuvuzelas: á difícil!

O cabra até se arrisca com foto e tudo a tomar pedrada na rua, por eventuais descontentes, afinal os sopradores de vuvuzelas só ousam agir assim porque seu roto arpejo, é uma ranheta melodia. Quem quiser que ouse ouvi-la!

Mas, o quê fazer se alguns constroem pouco e erigem pior?

Soma isso alguma coisa?

Menos que nada!, digo eu, só para utilizar um texto de Slavoj Zizek, analisando Hegel à sombra do materialismo dialético.

Porque a internet permite que cada um possa externar o que pensa e quais os seus incômodos.

O problema, todavia, é a via da expressão.

E assim vê-se que são muitos os que falam, os que criticam e corroem, sem escrever, e pior sem ler ou entender.

Porque muita gente ainda hoje tem medo de livro, ou repetem como Tancredo Neves, que descredenciava o General Catello Branco enquanto erudito, “porque tinha lido os livros errados”.

O monumental livro de Ayn Rand.

E eu que leio pouco, não só leio os livros errados, como penso e escrevo assim: errado!

E nessa ousadia, estou me deliciando com “A Revolta de Atlas”, monumental ficção de Ayn Rand, que vem me tomando não só horas, como dias e até semanas, afinal estou na página 761, muito longe do seu final, na página 1215.

Montanhas de nada talvez, mas que estão me deliciando, sobremodo, tanto que aconselho aos meus leitores, se dispuserem de tempo, coragem e disposição de segurá-lo, enquanto tijolo pesado, por dias a fio.

Ayn Rand, autora de “A Revolta de Atlas”.

Ayn Rand, leio sua biografia na internet, foi um escritora , dramaturga, roteirista de cinema, e filósofa norte-americana, embora tivesse origem judaico-russa.

Nasceu em São Petersburgo em 02 de fevereiro de 1905 e faleceu em New York em 6 de março de 1982.

E ficou bastante conhecida por desenvolver um sistema filosófico chamado de Objetivismo” bem como por seus romances, que a princípio não vingaram sucesso.

Em 1943 ela publicou “The Fountainhead” (A Nascente).

Seu romance mais conhecido é “Atlas Shrugged” (A Revolta de Atlas) e foi publicado em 1957, que só agora estou a ler, em edição da Arqueiro.

Posteriormente, ela se voltou para a não-ficção para promover sua filosofia, publicando seus próprios periódicos e lançando várias coleções de ensaios até sua morte em 1982.

Leio ainda na internet que Rand defendeu a razão como o único meio de adquirir o conhecimento, rejeitando a fé e a religião, o que, para muitos, já merece danação por anátemas.

Ela apoiou o egoísmo racional e ético e rejeitou o altruísmo e a filantropia.

Na política, ela condenou o uso da força como imoral, se opondo ao coletivismo e ao estatismo, bem como ao anarquismo, apoiando o capitalismo “laissez-faire”, definido por ela como o sistema baseado no reconhecimento dos direitos individuais, incluindo aqueles da privada propriedade.

Em “A Revolta de Atlas”, Ayn Rand descreve uma distopia em que os Estados Unidos da América, cercado por Repúblicas Populares, mundo à fora, se vê atingido por politicas igualitaristas, condenando o lucro, por demonização da ganância, enquanto exploração do trabalhador, algo sempre entranhado no pensamento político que destaca o social como sendo inimigo da produção.

Na distopia de Rand, os “homens Atlas” são aqueles mais realizadores e capazes, e que tiveram sucesso nos empreendimentos que ousaram, assemelhando-se ao Atlas mitológico, carregando o mundo cada vez mais pesado nas suas costas, eternamente.

Cansados de carregar o ônus do mundo nas costas, tais homens resolvem abandonar tudo, empresas, projetos e construções, o mundo, enfim, largando suas tarefas aos incapazes, preguiçosos e estroinas, seguindo a um canto de sereia diferente, ao daquele ouvido por Ulisses e seus argonautas, agora sendo atraído por um John Galt desconhecido, surgindo neste rastro de abandono uma incontrolável “moratória de cérebros”, uma sangria a semear miséria e empobrecimento.

É que nesta América distópica começou a vingar a máxima: “De cada um conforme sua capacitada e a cada um, conforme sua necessidade”, algo a ser definido em assembleias igualitárias e democráticas.

Ora, todo mundo sabe o que se decide nas assembleias igualitárias em geral, nessa pauta de estabelecer necessidades e responsabilidades: muita greve, paralização, tudo o que se vê quando a anarquia impera nas empresas.

Deixando o livro de Rand, mas sem dele me afastar, estamos a ver aqui no Brasil e no mundo em geral, uma não séria discussão de como solucionar o descalabro econômico por conta da COVID-19.

Assim, eis que espíritos deletérios estão a colocar na ordem do dia a velha discussão de taxação das grandes fortunas, dos “super-ricos”, como dizem alguns.

Na “extrema-imprensa”, a Folha de São Paulo sem querer, mas bem querendo, colocou o tema em discussão a título de “Tendências e Debates”, perguntando: “A taxação de grandes fortunas é uma medida fundamental na reforma tributária?”

Para Leonardo de Andrade Rezende Alvim e Larissa Luzia Longo, pesquisadores do Núcleo de Tributação do Insper, a resposta é NÃO, porque a arrecadação será baixa e cria-se complexidade ainda maior no sistema tributário.

“Considerando-se dados de arrecadação de países que ainda cobram tributo similar ao IGF (Imposto sobre Grandes Fortunas), o percentual da arrecadação em relação aos demais tributos é baixo. Segundo dados da OCDE, em 2019, na Noruega, era de 1,1%; na Espanha, de 0,5%; e, na França, de 0,2% do total da arrecadação. É na Suíça que sua arrecadação é mais representativa, com 3,8%.

A criação de um novo tributo aumenta a complexidade do sistema tributário, impondo novas obrigações acessórias e mais contencioso, algo indesejável para um país que ocupa a 184ª posição no indicador de pagamento de impostos do Doing Business e que possuía um contencioso tributário de R$ 5,4 trilhões (75% do PIB) em 2019, conforme pesquisa do Núcleo de Tributação do Insper”, acrescentam.

Se os Doutores Alvim e Longo são contra o IGF, a Professora Maria Regina Paiva Duarte, presidente do Instituto Justiça Fiscal, e auditora fiscal aposentada, entende que a cobrança é viável e necessária, afinal poder-se-ia arrecadar R$ 40 bilhões por ano, algo urgente em tempos de crise, mesmo porque estamos “com mais de 230 mil mortos pela COVID-19, 14 milhões de desempregados e 60 milhões na miséria, somos o segundo país com maior concentração de renda e o sétimo com o maior número de bilionários”.

“Sem enfrentar a tributação sobre as grandes fortunas, juntamente com a das altas rendas, historicamente subtributadas” – destaca a Professora – “não há como pensar em uma reforma tributária que proporcione condições para retirar o Brasil da condição vexatória de extrema desigualdade econômica, de raça e de gênero”.

Grifo meu, para destacar o gênero!, mas prossegue a mestra: “porque segundo relatório apresentado pela Oxfam, de abril a julho de 2020, durante a pandemia, 42 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em mais de R$ 170 bilhões”.

E continua, semi ou toda panfletária: “Enquanto grande parte da população foi golpeada pelos efeitos sanitários e econômicos, bilionários aumentaram suas fortunas nesta magnitude”.

Que horror! , dirão muitos querendo depenar os ricos, e pior: os “super-ricos!” ou o quê lá o seja!

Se aqui muitos estão enveredando nesse tema por diletantes, do outro lado do oceano, Jean-Pierre Robin, articulista de Le Figaro, escreveu um texto provocador a François Bayrou, que está a exibir um duplo casquete em comando: o de Presidente do MoDem, o partido da maioria governamental do Presidente Macron, e o do alto comissariado do Plano Integrado ao Executivo para a reforma tributária francesa que patina e não sai do lugar.

O artigo de Jean-Pierre Robin no Le Figaro.

O texto vale à pena, só pelo “trébuche”, citar o título no original, como um amontoado de nada, porque sempre é bom, e o que abunda jamais vicia repetir: “Quand Bayrou songe à taxer les riches et trébuche sur le seuil des 4 000 euros”, ou seja: Quando Bayrou pensa em taxar os ricos e tropeça no limiar dos 4000 euros”.

Porque em resposta ao que seriam os ricos da França, Bayrou tropeçou; “Para mim, 4.000 Euros é a classe média. Acima disso são os ricos.” O que lhe trouxe infinitas respostas no seu Instagram.

Em verdade, tal limite de 4 mil euros, fez lembrar uma antiga declaração do Ex-Presidente François Hollande: “Eu não gosto dos ricos!”

Um casal de enfermeiros, ou um casal de professores, por exemplo, seriam considerados “ricos”, só porque juntos ganhariam acima de 5,2 mil Euros, o que suscitaria uma confusão maior, afinal uma coisa é renda individual e outra distinta é a renda familiar, que sempre pode “enriquecer”, mediante a prole.

Sábia lição de Winston Churchill.

Enfim, quando o limite é estabelecido entre o rico, o não rico e o super-rico, o argumento estrebucha na ignorância ou na pregação da inveja da qual falava Winston Churchill, parecendo refletir o mesmo cansaço do Atlas descrito no livro de Ayn Rand.

Para o articulista do Figaro, a declaração de François Bayrou, enquanto especialista econômico, definindo ser 4 mil Euro o limiar de riqueza, parece-se com a de um aprendiz de piano, confundindo-se entre os teclados alvos e negros, por bemóis e sustenidos, em más colcheias.

E eu, que de tributação nada entendo, nem me incomodo com os ganhos dos ricos, penso que sem luta nem guerra, duas coisas poderiam ser feitas em substituição do extorsivo imposto do ICMS, um dos campeões ainda, em sonegação.

Bastaria a inclusão de duas coisas, todas elas demonizadas a exaustão:

Como era o IRPF nos anos 80 do século passado.

A primeira seria a introdução de um imposto no estilo da CPMF. Pegaria todo mundo indiscriminadamente!

A segunda, seria a inclusão de alíquotas crescentes no Imposto de Renda, como já aconteceu no passado.

A título de exemplo, veja acima uma tabela do IRPF de 1986.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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