Caminhadas, chegadas e despedidas

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Toda semana, neste espaço, aprendi a transcrever algumas das caminhadas que a vida me permitiu fazer. Anos e anos de saudáveis jornadas. Diversos locais freqüentados, infinitas paisagens transcritas e incontáveis pessoas encontradas. Nunca tive o cansaço como companhia, embora a fadiga estivesse retratada nos vários trechos transcritos. É que a peregrinação, no mais das vezes, foi facilitada pela qualidade do espaço físico e o número de andarilhos que, comigo, contribuíram para o satisfatório término da jornada. Aliás, a qualidade da caminhada não está sequer na chegada, mas, sobretudo, nas pessoas e nas coisas que encontrei durante o caminhar.

E foi realmente um caminhar especial pela estrada da vida. Nestas “caminhadas”, sem receios, compreendi “o mágico ciclo da vida”, assim como compreendi que “a amizade é um via de mão dupla”, maturada pelo passar dos anos, quando paramos para “olhar sobre os vestígios do tempo”. Embarquei no “Trem da vida”, deixando na estação amigos que preferiram habitar mundos desconhecidos, fazendo-me compreender que “sentir é preciso”, mesmo porque ficar ou partir faz parte dos “propósitos da vida”.


Nos momentos em que o desânimo se tornou companheiro de jornada, não adiantavam discursos para animar o cansado andarilho. Eram os próprios discursos as fontes primárias da desilusão. A utopia de uma feliz chegada estava abalada pela promessa não cumprida. “Pensamentos e práticas” não combinavam. “O talento, o discurso e a prática” não se mostravam compatíveis nos homens que prometeram fazer real a utopia. Somente “o silêncio prolixo” imperava. Refletindo neste breve e rápido percorrer, uma voz amiga advertiu que “nos espaços aéreos do falar e do fazer” existem mais mistérios do que compreende a nossa vã filosofia.


Enfrentei, também, a tempestade do preconceito, acreditando que “o livre voar da igualdade” faz ameno qualquer percurso, até porque a humanidade sabe que “a liberdade tem história e luta”, ambas demonstrando a importância do caminhar afirmativo. Exatamente porque no caminho da ascensão social, devemos sempre questionar aos resistentes ao percurso solidário: “e que fazer com uma geração”? Devemos, de logo, acabar com toda e qualquer “visão provinciana”, dizendo para nós mesmos que podemos e devemos fazer a nossa parte. “Policiando o meu  preconceito” é uma boa forma de iniciarmos esta mudança, até porque não é fácil deixar a nossa própria “barba” de molho. Em resumo, “enquanto acreditarmos na mentira”, nenhum caminhar será vitorioso. Afinal para que a nossa chegada tenha algum sabor especial “o Brasil tem que viver sem preconceito”. 


No caminho atravessei o rio da insensibilidade humana. Rio também no seu sentido mais literal, até porque, neste período, a questão da água dominou a temática no planeta Terra, fazendo-se “
um patrimônio da humanidade”. E, na defesa dos rios brasileiros, caminhantes combateram bons combates, lutas foram travadas. “Dienekes e a batalha do São Francisco” bem ilustram este cenário diferenciado. E não foi apenas o Velho Chico, o “meu Ganges”, quem pediu a ajuda dos andarilhos da vida. O Poxim, “rio, solteiro, procura”, até hoje, parceiros que lhe permitam livremente viver. “Os filhos do Rio” Sergipe, mais compreensivos, prometem resistir e garantir esta sobrevida. 


Mas não apenas caminhei em terras brasileiras. Na “África, irmãos de História e Justiça” se fizeram caminhantes fundamentais. “Os cabo-verdianos e a estudiosa elite brasileira” traçaram, por exemplo, trilhas diversas, certamente porque querem caminhos diferentes para os seus nativos. Neste caminhar, tão rico em diversidade e experiência, escrevi o meu roteiro de chegada, batizando-o de “Diário de um propriaense em Angola”. Hoje, definitivamente, não posso deixar de incluir a África em toda e qualquer caminhada que farei.


Quando a trilha abrangeu a OAB e a advocacia, a jornada ficou mais amena. Não porque a polêmica, os obstáculos e os esforços tenham sido menores. É que em ambas as pelejas são previsíveis, profissionalizadas e regradas pela ética. Caminhar com altivez faz parte da advocacia.  Disputar e discutir questões polêmicas também. A “Advocacia do Estado e Advocacia do Cidadão
”, “a morosidade e a súmula vinculante”, “a OAB e mercantilização dos sonhos” e “o 1º de Maio e a Justiça do Trabalho”, são alguns destes exemplos em que a “voz da OAB” fez romper a “surdez da deusa”, aquela senhora que chamamos Justiça. Houve momento em que precisei, mesmo sem pedido, dar “um conselho para a imprensa’, velha parceira de caminhada. Noutro, ingressei numa aventura cívica que batizei de “Nepotismo e a busca do Tesouro Perdido”, que, como grande vilão, reagia ferozmente, enquanto todos perguntavam: – “o nepotismo resiste, até quando?” “Sua Santidade Severino Cavalcanti”, seu defensor mais ferrenho, não resistiu por muito tempo e renunciou. Aqui, numa trilha sergipana, quando um concurso público quis se fazer privado e o time adversário dizia que “o irresponsável sou eu”, o resultado da caminhada, embora cansativo e cheio de suspense, foi fantástico. “A OAB, o  Judiciário e a República” foram simultaneamente vitoriosos, o concurso anulado e a defesa da Justiça proclamada.


Caminhei no mundo da política, até porque ela faz andar o mundo. Um diretamente ligado ao outro, assim como deve ser “o parlamento e o direito à reciprocidade”. E quando a decisão voltou a ser minha, dei “sim para a Democracia participativa”, dizendo claramente que “eu voto no direito à vida”, até porque não tenho dúvida entre “opções econômicas e opções sociais”. É que não sou “sardinhas, gnus e  ônibus”, vítimas prediletas de um sistema excludente, tampouco paciente passivo dos meios de comunicação, razão porque dei “um intervalo no mundo das propagandas”. Enfrentei “verão, chuva, dor e esperança” nunca faltou”. Certamente a “a paixão, o desemprego e os vereadores” dos transeuntes das cidades por onde passei tenham motivado este cenário paradoxal. O “quanto pior, melhor”, não é a regra que se aplica em uma boa caminhada. Constatei, como assumido nordestino, que “São Paulo é um pedaço do Brasil”. Nem melhor, nem pior, apenas mais um canto que integra “a lógica humanitária desse meu lugar”. Neste mundo de esperanças e contradições não fiquei no “meio do caminho”, deixando para a desesperança apenas “um dia para não repetir”.


No caminho da política a corrupção se fez obstáculo. E, quando ela surge, todos os caminhantes sofrem o abalo, ficam confusos. Interrogações aparecem. Ficam a perguntar aos que cruzam a estrada: – “um
Brasil livre da corrupção eleitoral: desalento ou esperança?” E diante da impunidade são obrigados a escutar a irônica afirmação: – “não basta um rigoroso inquérito?” Somente o humor de João do Mouco, um propriaense especializado na arte de mentir, poderia explicar que eles não roubam por querer, apenas têm “afeiçoamento com o bem alheio”. Brincadeira à parte, os andarilhos sabem que para proteger “a coisa pública” não se admite descanso. Ainda mais quando se sabe que os amantes da coisa pública “corromperam os remédios” que combateriam esta nefasta praga. Não vale, portanto, a simplória e cômoda frase: – “eu não disse?” Todos são corruptos, nada se pode fazer.


Outros abalos, tristezas, gritos, violências e renascimento também foram soprados fora das terras tupiniquins. Da dor pela morte do conservador papa João Paulo II, os caminhantes católicos redescobriram que “a
Igreja vive”. Da distante e cruel invasão do Iraque, os andarilhos internacionais descobriram quais e quem são “os incômodos e verdadeiros bêbados”. Contra a pregação da vitória do liberal paraíso das oportunidades, os rebelados rebateram afirmando que tudo se assemelha à “Revolução dos Bichos e dos Homens”. Da propaganda de que o mundo está mais democrático, os democratas perceberam que apenas fora maquiada a velha frase francesa, agora conhecida como o Bush sou eu”. Da acomodação diante do bélico discurso fundamentalista, os pacifistas relembraram a ousadia dos bravos marinheiros que acreditavam que “navegar é preciso”. Ao silêncio covarde dos acomodados, os aproveitadores responderam com “zurros e uivos”. E dos caminhantes do além-mar ficamos a escutar o lamento: – Até quando a contradição separará os homens? Até quando a desigualdade? Até quando a guerra? Até quando o preconceito? Até quando?


E quando parei para devorar uma boa comida, reanimando o corpo para o final da caminhada, uma gostosa dúvida logo brotou: – “que prato mais identifica Sergipe?”. Os comunistas da minha terra, que não “comem criancinhas”, bem que poderiam responder. Confesso que não dei muita atenção para eles, não queria o “monólogo de dois” da ortodoxia a marxista como desculpa para interromper a caminhada tão perto do seu término. Ainda mais agora, quando restava uma trilha repleta de “plásticos, descaso, sol e beleza no sertão” do meu Sergipe. E depois dela terminei esta jornada alegre, satisfeito com o resultado obtido, literalmente “cantando na seca”. Assim como fazem os andarilhos quando, encerrando a caminhada pela vida, lembram a pureza dos tempos mais remotos e dizem: – “Viva a Princesa Infância!” Viva a própria vida! Viva! Viva!


Agora, nos próximos três anos, uma outra caminhada se aproxima. Convidou-me o destino a viajar, como presidente do Conselho Federal da OAB, por outros percursos. Uma partida que é, simultaneamente, chegada. A que parte,  levando comigo a saudade dos tempos em que estivemos juntos neste espaço semanal, assumidamente pretende um dia voltar. A que chega, agora no distante planalto central do Brasil, sabe que não ficará estacionado por muito tempo, até porque tudo tem o seu tempo certo. Não poderia ser diferente, até porque o gostoso não é a partida ou a chegada, mas a própria caminhada. E como gostei de ter caminhado anos e anos neste espaço tão especial, acreditando, juntos, que “caminhar é preciso”.

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