Meu caro Sergipano

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Você me lançou um enorme desafio. Como conciliar o ”ótimo poder de escrita” denunciado em mim, se em mim mais viceja o equívoco e o confuso? Ou o “diferente” como alguém em tempos idos me denunciara por imundo comportamento? Como poderei, na limitação natural do meu pensar, e influir, ditar normas, atacar desvios, suscitar correções? Como fazer deste meu conceber “diferente”, algo que não seja imaginado e interpretado como mero expediente de motivação inconseqüente? Sim, porque é difícil divergir da imensa maioria, às vezes revoltando muitos, outras vezes exasperando tantos, querendo me suscitar ódios e rancores eternos, só porque não consigo admirar a obra humana que todos contemplamos.

 

E várias destas contemplações, meu caro Sergipano, estão nas cláusulas pétreas jurígenas, tipo: “É dever do Estado prover transporte público de qualidade, segurança para os usuários desse tipo de transporte, vias públicas em perfeitas condições de uso, etc, etc.”

 

E acreditamos nesta baboseira de almoço gratuito ditado por este bem costurado cobertor, que de tão bem cosido, não rasga, não esgarça, não encolhe, não estica, mas também não consegue vestir nem abrigar ninguém. Mas, porque virou lei, persistimos a combater contra a realidade, acreditando ser possível um Estado tudo prover, em liberdade plena e esbanjamentos escandalosos, uma heresia, segundo a lucidez irônica do economista Milton Friedman.

Atribuem indevidamente a repetida frase “não existe almoço gratuito” ao economista americano Milton Friedman (31/07/1912 – 16/11/2006).

  

E tome esbanjamentos! No dia de ontem, por exemplo, em companhia de meus filhos, fui assistir ao jogo Confiança 1 X Porto de Caruaru 1 no Baptistão. Paguei o ingresso, R$ 10,00 a cadeira, embora me avisassem que por ser sexagenário, já estava a merecer por caridade pública o lazer gratuito nos nossos estádios. Uma irresponsável concessão demagógica de quem pensa que tudo pode ser grátis; o almoço, o jantar, a merenda, o arroto, a balançadinha e a flatulência. Basta que esteja colocado na lei.

 

Pois bem! Findo o jogo, o placar eletrônico informa a renda; sete mil e tantos presentes, com seis mil e tantos pagantes e mais de mil não pagantes. Por que tantos biguzeiros, só para usar um termo aplicado aos que assistem e gozam sem pagar? Por que tantos exploradores, cerca de 15%, não remunerando o gozo e a entrada? Serão estes tão carentes que não possam pagar ou será o exercício do célebre corolário de esperteza em que “de graça todos aceitamos até injeção no olho”?

 

Não, de forma alguma. Estes não pagantes são os merecedores da caridade pública, os desprovidos de tudo, os descamisados, os desempregados e os mal assalariados, nossos velhinhos aí incluídos também, com ou sem recursos para pagar o ingresso, indistintamente.

 

E o curioso é que em meio a este milhar de carentes, eu não vi no estádio um esmoler, um cego, um aleijado, alguém que vivesse de mendicância por excesso de carência. No entanto, ali estavam mais de mil penetras, gozando da gratuidade ditada pela caridade pública, e eu aí deveria estar incluído também, porque eu já estou autorizado por lei a freqüentar os estádios de futebol sem pagar, afinal conferiram-me esta suprema glória; sou um biguzeiro por decreto!

 

E assim, porque somos uma república social, um vereador, um deputado, um governante decidiram que eu devo me inserir neste meio mundo de gente que está autorizado a desfrutar em custo zero, tudo aquilo que todos pagarão na outra ponta, sobretudo o comum cidadão, em termos de degradação de serviços, inclusive o nosso futebol que se ressente destas concessões caridosas, tão venenosas e onerosas, quanto a endêmica má gerência dos clubes, e a eternidade dos cartolas.

 

Assim, meu caro Sergipano, matando o coelho e sujando a cartola, botaram na lei aquilo que ali não deveria estar, por inexeqüível e não realizável. Porque todo mundo sabe que não é na farra que se constrói o porvir. Não é o eterno sorrir de consentimentos e concessões, a compadrios e corporações, que faz brotar a semente na terra.

 

O historiador cearense José Capistrano de Abreu (23/10/1853 – 13/08/1927), convidado a participar da elaboração da Carta Magna da República, escreveu a célebre colaboração à constituição: “Artigo 1º – De agora em diante todo brasileiro está obrigado a ter o dever de ter vergonha na cara. Parágrafo 1º e único – Revogam-se as disposições em contrário.”

Ah! Brasil de desmandos! Como seria tão bom se nesta terra valessem apenas o decálogo de Moisés, e o “amai-vos uns aos outros” de Jesus? Ou então, que valesse somente o artigo único da constituição de Capistrano de Abreu; “Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara, revogando-se as disposições em contrário.”

Infelizmente desprezando o razoável, surge o nosso constituinte cidadão, se arvorando mais iluminado que profeta ou rabi, concedendo o “almoço grátis”, sem maná caído dos céus, e sem saber multiplicar pães e peixes, erigindo a república 0800. E o Estado que nada tem de seu, virou pai de todos e provedor de tudo; com “qualidade”. E bote “qualidade” nisso! Inclusive com ampla pregação de isenção de impostos, sobretudo a democrática CPMF, de quem ninguém foge.

 

E todos nós que desejamos fugir do real problema, acreditando nos milagreiros de ocasião, achamos que a felicidade gratuita será um dia possível, bastando “haver decisão política”, com ilusionistas galvanizando a nação nesta esperança. E tome inação e desordem. Estamos nos tornando um entupido defectório coletivo. Todo mundo está vendo. E um sanitário coletivo sem asseio é muito próximo de uma república onde mais impera a liberdade que a responsabilidade.

 

Mas, se continuamos a pensar que tudo ainda pode ser feito pelo Estado, desde que se ponha na lei, do resultado destes direitos consentidos e nunca reprimidos vingará sempre o desnível dos salários altíssimos de funcionários mal graduados a zombar do cirurgião cardiovascular, compelido a operar pelo SUS a R$ 76,00 na outra ponta com o bisturi desafiado.

 

Assim, eis também a nossa escola pública, onde todos têm direito, sobretudo a gestão democrática que não insere nenhum dever; nem o de conservar as carteiras, nem o de ser aprovado, porque até a reprovação está para ser banida, também na forma da lei que deve viger nos bancos da escola risonha e franca sem responsabilidade. Escola na qual não deve imperar qualquer noção de disciplina ou ordem, de maneira a não tolher a livre “descriação” assumida, com muitas greves ou poucas, mas sempre com greves “justas”; de alunos, de serventes da limpeza e dos obreiros da educação.

 

E tome obreiros, e tome cloacas entupidas com fossas exalantes num Estado cujo poder de tudo fazer a partir do nada e das boas intenções, descria tudo; deseducando os homens e degradando as instituições.

 

Mas, somos otimistas, ainda acreditamos que uma mera mudança de homens e não de hábitos tudo solucionará, inclusive a nossa sede de corrupção. Achamos que tudo poderá ser resolvido por uma mera vontade política de caçar e punir os corruptos.

 

E aí eu me volto para você, meu caro Sergipano, que está a me desafiar o “ótimo poder de escrita”, para cobrar dos governantes tudo o que impuseram na lei e ali não poderia estar, sobretudo com a abrangência irrefletida como aí está fletida.

 

E eu respondo na descrença de quem nada espera, porque “o sem remédio, remediado sempre será”.

 

Se iremos sofrer com isso, veremos mais adiante ou não. E o sofrimento, quando para expiação de erros e reforma de condutas é também uma pedagogia necessária, sobretudo, num país que teima em não aprender com os traumas dos outros.

 

Diferente de desgraças mais sérias de outros povos, somos um país de poucos sofrimentos em nossa história; sem guerras, sem mágoas e sem cicatrizes profundas. Nossas chagas, fruto da intolerância do humano, por mais brandas talvez, são rapidamente esquecidas e perdoadas.

 

Será este perdão de muitas anistias um resultado do furor abrasador português que soube melhor se amancebar que dizimar? Será que vem da preguiçosa contemplação dos nossos indígenas, de toscos cacos, mas que se alimentavam uns com os outros, em meio a farta caça e a tanta terra arável? Será que vem do negro, vem do samba, da feijoada ou do acarajé; ou desta nossa tão diferente miscigenação de fé?

 

Autor de comédias satíricas que o tornaram conhecido pelo espírito irreverente e inconformista, o irlandês George Bernard Shaw (26/07/1856 – 02/11/1950) via a liberdade como algo muito sério.

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.”

Diferente, muito diferente de outros povos e de suas misérias, temos muitas batucadas em meio a poucos mártires e raros heróis.

 

Por outro lado, somos um país sem maiores tragédias de vulcões, de terremotos, de destruições tectônicas, guerra externa, invasões de solo pátrio, e até as nossas revoluções se fazem sem sangue, com a banda aplaudida na rua.  

 

E assim de república em república, prosseguimos com amor febril pelo Brasil, no canto e na marcha. Sem resolver nossos dramas; é verdade! Achando que tudo poderemos ainda deliberar com um belo discurso contra o americano espoliador, ou então cobrando de outrem o que arvoramos possuir, por “capacitados e honestos”, quando não nos acham, nem tanto, nem quanto.

 

Uma coisa de espelho e de Narciso? Acredito. E eu não me gosto observado no espelho, porque sempre falta algo, embora nunca deseje retocar esta falência.

 

Porque me falta, sobretudo, a saliência de arvorar receitas e preceitos, em meio a tantos meus defeitos, sempre assumidos e jamais desfeitos.

 

E porque também eu não consigo nem desejo denunciar vilões e arrestar culpados de tantos erros coletivos consentidos. E repetidos! E a repetir-se para sempre, se continuarmos a pensar que tudo irá funcionar sem nosso suor e sacrifício.

 

Daí, meu caro Sergipano, como descrente de qualquer discurso arrebatador de boa luta, muito mais que cobrar de outrem o que eu não possuo, prefiro observar e não me limitar a perguntar o por quê das coisas.

 

Prefiro inferir de Bernard Shaw que diz em lapidar percuciência; “Algumas pessoas vêem as coisas como são e perguntam: ’Por quê? ’  Sonho com coisas que nunca existiram e pergunto: ’Por que não? ’”

Alphonsus Gabriel Capone (17/01/1899 – 25 /01/1947) um dos maiores gângsteres dos Estados Unidos, mais conhecido por Al Capone, tinha também o apelido de Scarface (“Cara de Cicatriz”), devido a uma cicatriz que possuia no rosto. Embora fosse autor de muitos crimes, foi condenado a dez anos de prisão por sonegação fiscal.

 

Assim eu me pergunto e ao meu amigo Sergipano, por que não pensar um pouco diferente deste linguajar comum em que não nos inserimos, como culpados de todos estes desmandos também?

 

Ah! Com certeza estou a querer demais. Fazer com que alguém se sinta culpado de um erro? Nem ao pé do padre, nem perante a beca negra do juiz, nem sob o veu do confessionário, nem flagrado por uma câmara escondida de um sinal de trânsito.

 

O culpado será sempre o outro.

 

Que o diga Al Capone, morrendo em sua cama, se sentindo um benemérito injustiçado, por uma Chicago que não lhe agradecia a alegria e a euforia em droga, jogo e sexo, que tanto a sua contravenção propiciara.

 

Igual aos demais contraventores: todos, até eu mesmo se procurar.

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