Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Artistas: ROBERTA SÁ & TRIO MADEIRA BRASIL

CD: “QUANDO O CANTO É REZA”

Gravadora: MP,B / UNIVERSAL

 

De quando em vez, o Brasil elege uma diva musical. Normalíssimo num país em que o modismo prepondera e onde as mulheres, ao menos na música, se destacam de forma avassaladora. Depois da avalanche que foi Cássia Eller e do estouro de Ana Carolina, no terreno da catalogada MPB talvez o nome que venha sabendo colher os maiores louros, consolidando cada vez mais o seu nome junto ao público e aos formadores de opinião, seja o de Roberta Sá.

Natural do Rio Grande do Norte e residindo, há anos, no Rio de Janeiro, realmente ela é uma graça. Embora não seja da escola dos artistas que se caracterizam por arroubos interpretativos, ela possui um carisma especial. Sua presença cênica, econômica nos gestos e nos passos, é compensada por um magnetismo especial que faz com o público não tire os olhos dela. Afinada e com um timbre claro e bonito, tem ainda rara percepção no que tange à escolha do repertório.

Participante da segunda edição do programinha “Fama”, levado ao ar pela Rede Globo, ela começou a obter de fato o reconhecimento quando gravou, em 2005, o ótimo CD “Braseiro”, trabalho que trazia, em seu DNA, o bom gosto da artista já explicitado em escolhas que recaíam sobre músicas assinadas por Lula Queiroga, Chico Buarque e Teresa Cristina, entre outros. Ao lançar, em 2007, o seu segundo álbum, “Que Belo Estranho Dia Pra se Ter Alegria” (e dizem os entendidos que a prova de fogo de todo artista é sempre o segundo disco) ela o fez de forma estupenda, garantindo, desde então, o seu nome no panteão das grandes intérpretes do nosso cancioneiro.

Depois de um desnecessário disco ao vivo (a reboque do lançamento do primeiro DVD), acaba de chegar às lojas o que podemos chamar do terceiro disco de sua vitoriosa Roberta. Trata-se de “Quando o Canto É Reza”, projeto dirigido por Pedro Luís (marido da cantora) que surge dividido por ela com o Trio Madeira Brasil, excelente grupo instrumental formado por Marcello Gonçalves (violão 7 Cordas), Zé Paulo Becker (violão e viola caipira) e Ronaldo do Bandolim (bandolim) e que traz, no repertório, treze canções assinadas por Roque Ferreira, compositor do recôncavo baiano que já há algum tempo milita no campo musical, mas que apenas recentemente vem sendo decentemente reverenciado, a reboque de cantoras como Maria Bethânia, Mariene de Castro e Zélia Duncan.

Não poderia mesmo resultar ruim um trabalho onde a voz de Roberta se encontra com três violões tão competentes. Grande parcela dos críticos o vem recebendo com efusivos elogios e, na verdade, não se pode negar que se trata de um trabalho respeitável. No entanto, a iniciativa de se gravar um disco somente com músicas de um único compositor tem lá seus prós e contras. E, aqui, infelizmente o resultado parece pender mais para os reveses. É que, mesmo reconhecendo o incontestável talento de Roque (especialmente no que tange aos ritmos característicos da região em que nasceu: samba-de-roda, coco, chula, maxixe e ijexá), ele não é do tipo que possui o ecletismo criativo como mola-mestra. No seu caso, a obra autoral tem um carimbo peculiar que termina fazendo soar parecidas várias de suas canções. No que tange ao recém-lançado disco, em especial, ainda pesa o fato de se ter optado por arranjos somente executados por violões (com leves intervenções percussivas a cargo de Paulino Dias e Zero), o que contribuiu decisivamente para que o resultado soasse um tanto repetitivo (e em entrevista recente, o próprio homenageado reconheceu isso).

Há que se destacar, contudo, o fato de Roberta ter sabido escapar das tentações dos lugares comuns, tanto que há apenas uma regravação de canção mais conhecida (“Água da Minha Sede”, parceria com Dudu Nobre, que se tornou famosa na voz de Zeca Pagodinho), embora também tenham sido revisitados os temas “Mandingo” (de Roque e Pedro Luís, gravado pelo grupo Pedro Luís e a Parede em 2008 no disco “Ponto Enredo”), “A Mão do Amor” (canção originalmente intitulada “Tricô” que Bethânia inseriu como vinheta em 2009 no CD “Tua”) e “Xirê” (gravada pela baiana Clécia Queiroz no ano passado no seu também tributo “Samba de Roque”). O restante do material é inédito e nessa seara se destacam as faixas “Zambiapungo” (composta com Zé Paulo Becker), “Orixá de Frente”, “Menino” e “Água Doce”. Em “Tô Fora”, Roberta conta, nos vocais, com a participação do talentoso Moyséis Marques, nome emergente do atual samba carioca.

Ao enveredar por um trabalho conceitual em que a carga afro-brasileira enraizada na obra de Roque Ferreira se fez atenuada, Roberta Sá construiu talvez o seu CD menos empolgante, o que, no entanto, não macula a qualidade incontestável de seu canto.

 

 

N O V I D A D E S

 

· O cantor e compositor Baia, baiano de nascimento, que morou anteriormente em Recife e reside já há algum tempo no Rio de Janeiro, acaba de lançar, através da gravadora Som Livre, um CD (também disponível em DVD) que registra os maiores sucessos de sua carreira, a qual já está próxima de completar vinte anos. Gravado ao vivo durante apresentação no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em dezembro do ano passado, o novo projeto mostra que o artista já se faz por reconhecer, ao menos em terras cariocas, pois em quase todas as canções se ouve o coro maciço do público acompanhando-o nas letras. Bom intérprete e ótimo autor, ele (que também integra o grupo 4 Cabeça) mostra seu incontestável talento em temas interessantíssimos como “Fulano, Beltrano e Sicrano”, “Lembrei”, “Habeas Corpus” e “103 Chapéus de Couro”. No roteiro, foram incluídas três músicas inéditas: “Quando Eu Morrer”, “Em Nome da Fome” e “Os Dias de Hoje”. É nítida a influência dos ritmos nordestinos em sua obra, embora os arranjos abracem uma pegada mais pop. Zé Ramalho aparece como convidado especial na faixa “Tá Tudo Mudado”, versão que Baia e Gabriel Moura fizeram para tema originalmente escrito por Bob Dylan.

 

· O grupo Terreiro Grande se juntou à cantora Cristina Buarque e juntos lançaram recentemente o CD “Cantam Candeia”, uma justa homenagem a um dos grandes nomes do nosso samba tradicional. O registro ao vivo foi feito durante três apresentações realizadas ano passado no Teatro Fecap (SP). Em dez faixas, são desfiadas trinta canções de autoria do artista, algumas delas ao lado de parceiros como Monarco, Casquinha e Walter Rosa. Em clima simples, uma verdadeira roda de samba mostra belas canções como “Dia de Graça”, “Saudade”, “Peso dos Anos”, “Ilusão Perdida” e “Deixa de Zanga”.

 

· “Dahling” é o título da inédita parceria de Bebel Gilberto com Pedro Baby que já se encontra disponível para download gratuito no site oficial da cantora. Em tempo: em breve, Bebel lançará “Sem Contenção”, seu primeiro DVD cuja gravação ao vivo se deu recentemente durante concorrida apresentação.

 

· O também ator Serjão Loroza está lançando o CD e DVD “Loroza & Us Madureira Ao Vivo” cujo registro aconteceu durante a realização de apresentação feita no Centro Cultural Niemeyer em Goiânia (GO). No repertório, entre outras, estão presentes “O Pescador de Ilusões”, “A Novidade” e “A Dois Passos do Paraíso”. Gabriel Moura é o convidado especial nas canções “Doidinha” e “Jacksoul Brasileiro”.

 

·  Orlando Morais, ainda mais conhecido como marido da atriz Glória Pires, tem previsto para este ano os lançamentos de dois álbuns: um é o registro ao vivo do show “Sete Vidas”; o outro é um projeto inédito gravado com a participação de artistas africanos. Na manga, ele guarda para 2011 outro CD inédito – duplo, diga-se de passagem – gravado com músicos da banda do cantor Sting.

 

· “Simplesmente Tudo” é o nome da primeira parceria entre Milton Nascimento e Jason Mraz, cantor e compositor norte-americano que ficou conhecido no Brasil por conta da canção “I’m Yours”. Com versos em inglês e em português, a nova música fará parte do repertório do próximo álbum de Mraz, com lançamento previsto para este segundo semestre. E falando em Milton, seu novo e aguardado CD estará chegando às lojas no comecinho de outubro…

 

· Valéria Lobão é cantora carioca que, desde 1992, participa do grupo Equale como vocalista. Com a produção assinada por Carlos Fuchs, ela terminou de gravar o seu primeiro trabalho solo, o CD “Chamada”, cuja previsão de lançamento é ainda para este ano. O repertório dosa regravações com canções inéditas. O álbum conta com as participações especiais de Marcos Sacramento e do grupo Pedro Luís e a Parede.

 

· Já chegou às lojas, através da gravadora Som Livre, nos formatos CD e DVD, o projeto que reúne os cantores Renato Teixeira e Sérgio Reis. Gravado ao vivo durante apresentação realizada no Teatro Bradesco, em São Paulo, e intitulado “Amizade Sincera”, o produto tem seu repertório calcado, na sua maior parte, em temas bastante conhecidos, a exemplo de “Romaria”, “Tocando em Frente”, “O Menino da Porteira”, “Amora” e “Boiadeiro”. Há as participações especiais da cantora revelação Paula Fernandes em “Tristeza do Jeca” e da dupla do momento Victor & Léo nas faixas “E Quando o Dia Nascer” e “Vida Boa”. 

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br   

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