Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: MÔNICA SALMASO
CD: “ALMA LÍRICA BRASILEIRA”
Gravadora: BISCOITO FINO

 

Delicadeza é a palavra que pode condensar o conteúdo do novo CD da cantora Mônica Salmaso, o qual chegou às lojas há apenas uma semana através da gravadora Biscoito Fino. Intitulado “Alma Lírica Brasileira”, esse trabalho mostra a intérprete no apogeu de sua forma vocal, dona segura de seu canto.

Salmaso é paulista e começou sua carreira como atriz na peça "O Concílio do Amor", dirigida pelo premiado diretor Gabriel Villela em 1989. Na música, ela aportou profissionalmente em 1995, quando gravou o álbum “Afro-Sambas”, um duo de voz e violão arranjado e produzido pelo violonista Paulo Bellinati, contendo temas compostos por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Seus melhores discos foram “Iaiá” (de 2004) e "Noites de Gala, Samba na Rua" (de 2007), este um tributo à obra de Chico Buarque, títulos que a qualificaram como uma das vozes mais bonitas da atualidade na nossa MPB e resultaram em shows com os quais ela rodou o Brasil de norte a sul.

Composto por quatorze faixas, o recém-lançado CD conta tão somente com o acompanhamento de dois exímios instrumentistas: Nelson Ayres (ao piano) e Teco Cardoso (nos sopros, marido dela), ambos integrantes do grupo Pau Brasil, cabendo eventualmente à própria Salmaso intervir com a execução de sutil arsenal percussivo. A suposta impressão de que poderia descambar para uma sonoridade monocórdia cai por terra logo após uma primeira audição. A escolha feliz de um repertório que une canções atemporais, a exemplo de “Lábios que Beijei” (de J. Cascata e Leonel Azevedo) e “Melodia Sentimental” (de Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcelos), a outras menos conhecidas, mas de inquestionável beleza, como “Samba Erudito” (de Paulo Vanzolini) e “Meu Rádio e Meu Mulato” (de Herivelto Martins), aliada à voz límpida e afinadíssima de uma intérprete espetacular afugenta para longe qualquer resquício de monotonia. E até mesmo a quantidade reduzida de instrumentos utilizados parece se multiplicar quando são os mesmos executados à perfeição em arranjos ao mesmo tempo elegantes e acessíveis ao ouvido médio.

Um dos melhores achados é, sem sombra de dúvida, a canção “Mortal Loucura”, um poema de Gregório de Matos musicado por Zé Miguel Wisnik. Mas o CD possui muita bala na agulha: a versão de “Cuitelinho” (tema de domínio público, recolhido por Antônio Xandó e adaptado pelo já citado Vanzolini, que ganhou notoriedade nacional na voz de Milton Nascimento) é outro destaque, ao lado de “Derradeira Primavera”, dilacerante parceria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e de “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa, (des)construída através de um andamento bem mais lento que o costumeiro. De uma safra mais recente, Salmaso pinçou a harmonicamente complexa valsa “Noite”, composição assinada por Nélson Ayres, e a linda “Carnavalzinho (Meu Carnaval)”, canção de Mário Adnet e Lisa Ono, gravada originalmente por Antônia Adnet em seu bom álbum de estreia lançado no ano passado.

Embebido de um lirismo inteligente que faz falta nos dias atuais, o novo CD de Mônica Salmaso resulta sedutor e requintado nas medidas certas. Trata-se de um trabalho revestido por raro tratamento camerístico, o qual merece ser divulgado, mormente em um tempo em que a mediocridade domina a maior parte das programações das rádios brasileiras. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

• Leandro Sapucahy acaba de lançar um novo CD, desta feita pela gravadora EMI. Ele, que começou cantando sambas com letras de viés crítico-social e prestou bom tributo à obra de Roberto Ribeiro em disco lançado em 2009, resvala agora para o lado romântico nesse trabalho que sugestivamente se intitula “Malandro Também Ama”. Conhecido também como produtor musical (é o responsável pelos mais recentes discos de Maria Rita e Marcelo D2: “Samba Meu”, de 2007, e ”Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva”, de 2010, respectivamente), Leandro, que também é percussionista, tem uma voz talhada para o samba e conhece onde está pisando, muito embora algumas das quatorze faixas apresentadas não sejam assim tão inspiradas. Os melhores momentos ficam por conta de “Não Quero Mais Saber de Nada”, “Disse Me Disse”, “Ê Coração” e “Favela Fashion Week”, cabendo destacar que as três primeiras são da lavra de Serginho Meriti, um dos grandes compositores do gênero na atualidade.

• Em junho próximo, o pernambucano Lenine estará lançando mais um CD recheado de canções inéditas. O novo e aguardado trabalho se intitulará “Chão” e chegará às lojas através da gravadora Universal. Quem viver, ouvirá!

• Os Paralamas do Sucesso vislumbram, ainda para este ano, a gravação de um CD acústico em espanhol. O objetivo é aproveitar os trinta anos de carreira para entrar de vez no mercado latino, especialmente na vizinha Argentina.

• A paulista Anelis Assumpção, filha do saudoso Itamar Assumpção, anuncia a sua estreia no mercado fonográfico nacional no próximo mês com o CD intitulado “Sou Suspeita. Estou Sujeita. Não Sou Santa”, o qual sairá também no formato vinil. O repertório será majoritariamente autoral e a produção do álbum será assinada pela própria cantora ao lado de Zé Nigro. Céu e Gero Camilo estarão presentes em participações especiais.

• Tono é o nome da banda formada por Ana Claudia Lomelino (voz), Bruno Di Lullo (baixo), Rafael Rocha (bateria), Leandro Floresta (flauta) e Bem Gil (guitarra), este último filho de Gilberto Gil. Essa galera ainda desconhecida do grande público está lançando, através do selo Oi Música, um CD composto por doze faixas que traz como única regravação “Nega Música”, de Itamar Assumpção. Todas as demais canções são assinadas pelos próprios componentes da banda que faz um som bem legal, tanto que Ney Matogrosso já avisou que a canção “Não Consigo” estará presente em seu próximo CD, o qual deverá ser lançado ainda este ano. Domenico Lancellotti é o convidado especial da ótima “Da Terra Pro Sol” e Donatinho pilota os teclados na animada “Samba do Blackberry”. Outros destaques do repertório ficam por conta de “Me Sara”, “Corte no Pé” e “Distante Demais”.

• Gabriel Versiani lançou recentemente o seu primeiro CD, o qual chegou ao mercado no formato SMD. Trata-se de uma produção independente que contém doze faixas autorais, a maioria delas com um pé no samba. Bom compositor e ótimo cantor, de voz grave e bem colocada, nesse trabalho inaugural Gabriel contou com as participações especiais dos grupos Casuarina (em “Esperança Iludida”) e Rio Maracatu (em “Pastorinha”). Os melhores momentos ficam por conta das canções “Filho de Ogum”, “Tribeira” e “O Rio É”.

• Já se encontra disponível o novo CD do grupo Nenhum de Nós. Produzido por Ray Z e intitulado “Contos de Água e Fogo”, o trabalho apresenta boas canções como “Primavera no Coração”, “Um Pouquinho”, “Igual” e “Melhor e Diferente” (esta, uma parceria com Leoni).

• As duas músicas inéditas de Pixinguinha (“Grelando” e “Gorjeando”) que foram encontradas na coleção de Radamés Gnattali, abrigada na Fundação Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, ganharam seu primeiro registro fonográfico no CD “Pixinguinha for Flute and Sax”, lançado recentemente pelo selo Choro Music. Nesse álbum, dezesseis solistas apresentam alguns temas de Pixinguinha na flauta e no sax. Estão presentes, entre outros, instrumentistas do quilate de Mário Séve, Carlos Malta, Dirceu Leite, Teco Cardoso e Franklin da Flauta.

• A atriz e cantora Marya Bravo estará lançando em breve o CD intitulado “De Pai para Filha”, composto por temas criados por seu genitor, o compositor Zé Rodrix. No repertório do álbum, o qual chegará ao mercado através da gravadora Joia Moderna, estarão sucessos como “Casa no Campo” e “Soy Latino Americano”.

• Com um timbre de voz belíssimo e a certeza de quem sabe o que quer, a cantora paulistana Patricia Talem acabou de lançar o seu segundo CD, gravado e mixado nos Estados Unidos. Trata-se do refinado “Olhos”, uma produção independente, composta apenas por nove faixas, mas que deixa, ao final, uma ótima impressão. Ancorada pelo baixo de Christian Mc Bride, pelo piano de Russel Ferrante (músico do grupo Yellowjackets), e pela bateria de Marco da Costa (este também o produtor do disco), Patricia põe seu talento a serviço de temas nacionais, a exemplo de “Presente Cotidiano” (de Luiz Melodia) e “Olhos Negros” (de Johnny Alf e Ronaldo Bastos), e internacionais, como “For Your Babies” (de Mick Hucknall, do repertório do Simply Red) e a inédita “Shadow of Love” (de Matt Robbins), as quais ganham arranjos com ambiência jazzy. Há as participações especiais da cantora norte-americana Jane Monheit em “Nascente” (de Flávio Venturini e Murilo Antunes) e do próprio Flávio Venturini em “Clube da Esquina 2” (de Milton Nascimento e Lô Borges). Alguns dos melhores momentos ficam por conta das faixas “Folha de Papel” (de Sérgio Ricardo) e “O que Eu Seria sem Ti” (de Péri e Alexandre Leão). Vale a pena conhecer!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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