Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantores: VÁRIOS
CD: “O SAMBA CARIOCA DE WILSON BAPTISTA”
Gravadora: BISCOITO FINO

Ainda criança em Campos (RJ), o compositor Wilson Baptista descobriu a música, mas foi quando, na década de vinte do século passado, se mudou para o Rio de Janeiro que ele, mergulhando na vida boêmia, veio a efetivamente conviver com artistas de verdade. Em 1929, viu seu samba “Na Estrada da Vida” ser gravado pela cantora Aracy Cortes, o que lhe abriu as portas para que outros grandes intérpretes da época (a exemplo de Francisco Alves, Murilo Caldas e Castro Barbosa) viessem a requisitar suas canções.
Tido como um dos grandes sambistas da boemia carioca, ao lado de outros bambas como Geraldo Pereira e Assis Valente, Wilson se tornou nacionalmente conhecido pela polêmica musical travada com Noel Rosa, celeuma gerada pelo interesse dos dois por uma mesma mulher e que terminou gerando bonitas e divertidas músicas (do lado dele: "Lenço no Pescoço", "Conversa Fiada" e "Frankenstein da Vila"; da parte de Noel: "Feitiço da Vila", "Palpite Infeliz" e “Rapaz Folgado”). Os atritos cessaram tempos depois, culminando, além da parceria em “Deixa de Ser Convencida” (um recado explícito à criatura que deu causa à rixa), em um disco ("Polêmica"), lançado em 1956 pelos cantores Roberto Paiva e Francisco Egídio.
Wilson que, ao longo de sua trajetória, teve grandes parceiros, entre eles Ataulfo Alves, Nássara, Haroldo Lobo, Jorge de Castro e Roberto Martins, estaria por completar, em 2011, cem anos de vida. E é por conta dessa data redonda que algumas homenagens lhe vêm sendo feitas. Uma das melhores consubstanciou-se no CD duplo “O Samba Carioca de Wilson Baptista”, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Biscoito Fino, abarcando um período de trinta e cinco anos de criação (de 1933 a 1968) e lançando luzes sobre esse grande compositor que é, infelizmente, tão pouco reverenciado nos dias atuais.
O CD 1, que recebeu o subtítulo de “Reserva Especial”, é composto por vinte faixas e apresenta gravações inéditas de alguns sambas raros e outros até então nunca gravados, os quais surgem nas vozes de treze intérpretes do nosso cancioneiro. Coube a Elza Soares revisitar “Artigo Nacional”, tema que transita entre o samba e o fox e ressalta a preferência musical nacional. Soberba como de costume, ela faz dessa faixa um dos destaques do repertório ao lado de Zélia Duncan (que defende com a elegância de costume a divertida “Que Malandro Você É”), Teresa Cristina (que entende o sentido da marcha-rancho “Nelson Cavaquinho”) e Mart’nália (que confere interessantes tintas a uma canção aparentemente bastante simples: a ruralista “Não Me Pise o Calo”). E se o grupo Samba de Fato (formado por Alfredo Del-Penho, Pedro Miranda, Pedro Amorim e Paulino Diasse) se mostra afiado em um bom medley que reúne seis músicas, Tantinho da Mangueira emerge inteiramente à vontade em “Rei Chicão” e Rosa Passos empresta sua costumeira divisão para “Oh, Dona Ignez!”. Nomes da nova safra da nossa música popular, caso das cantoras Céu e Nina Becker, se unem, nessa muito bem-vinda homenagem, a intérpretes veterados, a exemplo de Wilson das Neves e Roberto Silva, este em ótima forma vocal no alto de seus noventa anos. Completam o time escalado Cristina Buarque (presente em três faixas, com destaque para a delicada “Timidez”) e Marcos Sacramento (que pôs sua voz a serviço de quatro canções, a mais interessante delas “O Princípio do Fim”).  
Já o CD 2, que traz o subtítulo de “O Espetáculo”, originou-se de um musical protagonizado por Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir (também o produtor do projeto fonográfico, cuja direção musical ficou a cargo de Nando Duarte) e igualmente apresenta temas inéditos (“Balzaquiana” e “Transplante de Coração”, este na voz do próprio Wilson), embora a base do repertório seja mesmo as canções mais conhecidas.
Os sambas de Wilson (que ganhou de Custódio Mesquita o apelido de “maestro da caixa de fósforos” por geralmente se fazer acompanhar com tal objeto) fazem a crônica do Rio de Janeiro de uma época na qual a inspiração ainda brotava natural sem a necessidade de uma máquina registradora para impulsionar os sonhos.
Ao final da audição, o ouvinte terá mantido contato com oitenta e nove músicas, pinçadas dentre as mais de seiscentas criadas pelo sambista, as quais certamente traçam um consistente e vigoroso painel de sua obra. Um projeto realmente indispensável para quem curte a nata da nossa MPB!

N O V I D A D E S

* Anotem aí esse nome: Marya Bravo. Trata-se de uma jovem cantora carioca que, dentro de muito pouco tempo, certamente terá o seu grande talento reconhecido. Filha do cantor e compositor Zé Rodrix (falecido há dois anos), nome que frequentou com assiduidade as paradas de sucesso na década de setenta, com a também cantora Lizzie Bravo, Marya vem participando de vários musicais no eixo Rio-São Paulo, sempre se destacando pela voz afinada e potente, de timbre claro e muito marcante. Ela, que também já fez backing vocal para Marisa Monte e Roberto Carlos, acaba de pôr no mercado, através da gravadora Joia Moderna, o seu segundo CD, o qual é marcado por uma sonoridade pulsante. Esse sucessor do ótimo “Água Demais Por Ti”, lançado em 2009, é uma homenagem ao pai: trata-se de “De Pai Para Filha: Marya Bravo Canta Zé Rodrix”. Acompanhada pela vigorosa Eletro Banda, Marya selecionou doze criações de Rodrix, desde as mais conhecidas como “Casa no Campo” (parceria com Tavito e imortalizada por Elis Regina) e “Soy Latino Americano” (hit na voz do próprio Rodrix) até outras que passaram à margem do grande público. Fazem-se presentes temas da fase em que ele integrava ao lado de Sá e Guarabyra o trio propagador do rock rural nacional (dentre elas “Ama Teu Vizinho” e “Mestre Jonas”) e algumas que emplacou a seguir em carreira solo (a exemplo de “Roupa Prateada” e “Casca de Caracol”). Os melhores momentos do projeto ficam por conta de “Hoje Ainda É Dia de Rock”, “Primeira Canção da Estrada” e “Eu Vou Comprar Esse Disco”. O set list se completa com “Hey Man”, “Eu Preciso de Você Pra Me Ligar” e “Quando Você Ficar Velho”, esta talvez a mais forte e contundente canção sobre o tema já feita em toda a história da nossa música popular brasileira. Realmente imperdível!

* A pianista carioca Délia Fisher está lançando o CD intitulado “Saudações Egberto”, uma homenagem à obra do compositor Egberto Gismonti. No repertório estão temas como “O Sonho”, “Água e Vinho” e “Saudações”, faixa que conta com a participação do próprio homenageado. Já Moska é o convidado especial de “Pêndulo”.

* Em outubro do ano passado, Gilberto Gil realizou uma apresentação especial, no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, em comemoração à primeira década de existência da rádio carioca MPB FM e ali recebeu dez artistas convidados. O registro em áudio desse evento chegou recentemente às lojas através do CD intitulado “Gil + 10”, composto por treze faixas, todas elas de autoria do próprio artista, com exceção das canções “Alguém Me Avisou” e “Acreditar”, ambas de Dona Ivone Lara, grande sambista que se faz presente nesses dois momentos. Completam o seleto time: Lenine, Zeca Pagodinho, Erasmo Carlos, Ana Carolina, Preta Gil, Milton Nascimento, Maria Gadú, Mart’nália e Os Paralamas do Sucesso. Gil se revelou à vontade como anfitrião, ancorado por uma enxuta banda formada por Arthur Maia (no baixo) Sérgio Chiavezzoli (no bandolim) e Bem Gil (na guitarra e pandeiro) e, embora sua voz não seja a dos tempos áureos, já se nota certa melhora com relação aos problemas sofridos recentemente. Entre os melhores momentos estão as releituras de “Cálice” e “Lamento Sertanejo” (parcerias com Chico Buarque e Dominguinhos, respectivamente), além de “A Linha e o Linho”, “Deixar Você” e “Extra II (O Rock do Segurança)”.

* A cantora Claudia Telles lançará até o final do ano, através da gravadora Joia Moderna, uma coletânea contendo as melhores músicas que fizeram parte de seus três primeiros discos lançados entre 1977 e 1979. Dentre elas far-se-ão presentes “Fim de Tarde” e “Eu Preciso te Esquecer” (ambas da dupla Mauro Motta e Robson Jorge).

* A cantora paulista Joyce Cândido está lançando, através da gravadora Biscoito Fino, o CD intitulado “O Bom e Velho Samba Novo”, o qual é composto por onze faixas arranjadas pelo competente Alceu Maia. Joyce canta de maneira delicada com uma voz de timbre bonito e seguro que agrada ao ouvinte logo na primeira audição. Ela, que passou os últimos três anos na Broadway, aperfeiçoando-se em canto, dança e teatro e que também já participou de musicais como "A Pequena Sereia" e "A Noviça Rebelde", resolveu abraçar de vez o universo do samba e, de fato, gravou um disco bem legal, o qual traz, no repertório, temas inéditos e algumas regravações.  Entre estas estão “Deixe a Menina” (de Chico Buarque), “O Dono da Dor” (de Nelson Rufino) e “Feitio de Oração” (de Noel Rosa e Vadico, que conta com a participação especial, nos vocais, da atriz Letícia Sabatella). O outro convidado especial é Xande dos Pilares que realça as cores do bom partido alto “Sou do Samba” (dele em parceria com o já citado Alceu). Entre os destaques figuram as canções “Dengo” (de Celso Lima, Sérgio Cruz e Nilton Barros), “Regras do Jogo” (de João Vidotti), ”Beleza Pura” (de Cláudio Jorge e Luís Carlos da Vila) e “Cê Pó Pará” (de Ana Costa e Fred Camacho). Vale a pena conhecer!

* O encontro entre o pianista Gilson Peranzzetta e o saxofonista e flautista Mauro Senise em outubro do ano passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, serviu para celebrar o centenário de nascimento de Noel Rosa. O registro (“Noel Rosa 100 Anos”) chegou recentemente às lojas, nos formatos CD e DVD, através da gravadora Biscoito Fino. A cantora Alaíde Costa empresta sua voz única a quatro faixas.

* Milton Nascimento é o artista da vez no que tange à gravadora Discobertas, a qual acaba de lançar o CD “Anos 2000”. Trata-se de uma coletânea de dezenove fonogramas gravados por Bituca durante a última década em trilhas de telenovelas, projetos coletivos e participações em trabalhos de colegas. Há desde registros conhecidos, como “Encontros e Despedidas” e “Cigarra” (ambas ao lado de Simone), “Emoções” (com Erasmo Carlos) e “Planeta Sonho” (com o grupo 14 Bis), até outros de beleza ímpar que surtiram menor repercussão, a exemplo de “Sino, Claro Sino”, “Caça à Raposa” e “Há de Ser” (este com Jorge Vercillo). Alguns dos melhores momentos ficam por conta da sublime regravação de “Imagine” (ao lado de Gilberto Gil), “Circo Marimbondo” (com Pedro Bernardo) e “Luar do Sertão” (com Luiz Gonzaga). Muito legal!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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