O ovo da serpente

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Para alguns, estamos vivendo sob os tacões de uma Ditadura.

Para outros, ainda estamos em prévias. Denunciam uma Ditadura em gestação…

Chegam ao exaspero de dizer que “o ovo da serpente já está encubado. Está amadurecendo no solo fértil inserido”.

– “Quem foi o pai? Quem é a mãe?” – poder-se-lhes-ia perguntar.

– “Serpente tem mãe? Deve ter…”- divaga outro que não busca maiores respostas, afinal ninguém nasce sem pai e mãe, embora haja filhos sem pai ou mãe, porque foram por eles gerados e abandonados.

Isso, porém, é coisa do macaco-homem desnaturado, fazer filho, irresponsavelmente, só porque Deus o concebeu em modos e enleios prazerosos.

Gozado, todavia, é o lagarto, a tartaruga e o cágado, copularem à vontade, expelindo ovos que bem amadurecem, jogados na terra sem anelo nem desvelo, a mãe natureza cuidando de tudo, até das crisálidas, borboletas e gafanhotos, isso em outros brotos viventes.

Assim, quem é o pai da serpente, se ela é um epiceno, a fêmea parindo os ovos encubados pelo macho?

A pergunta resta inútil, porque tal incubação serpentária é fruto de uma alegoria  que afasta do humano a sua (des)criação rotineira, em renovadas e não tão inusitadas marés históricas, lembradas por Gianbattista Vico (1668-1744), enquanto desenvolvimento da história da humanidade, mediante os avanços e retornos, citados na sua teoria de Corsi e Ricorsi, que alguns aceitam só para si, exclusivamente, e só para a própria locupletação; insaciável. Temas que poderei falar num outro dia.

Por hora e no contexto serpentário do momento, o ovo denunciado se ampara nas palavras de Marcus Junius Brutus, pronunciadas na peça Julius Caesar de William Shakespeare, conspirando contra o próprio pai: – “O ovo da serpente que eclodindo com sua espécie, cresceria malevolamente, pelo que o urge matar na casca”.

Frase que permaneceria esquecida, não fosse a genial fita homônima do sueco Ingmar Bergman, rodada em 1977.

Na fita, o ovo da serpente se referia à nascente trajetória autoritária alemã com perseguição semita, ocorrida no ocaso da República de Weimar, mas precisamente em novembro de 1923.

O filme, como toda ficção bem concebida, contextualiza um período sombrio da humanidade, que nunca se vira assim, senão depois, duas décadas após, quando o pós poderia ser manobrado e denigrado, utilizando os sempre diligentes processos edulcorantes.

É a velha douração da pílula, denunciada por Lênin e os seus corifeus para a subida ao poder, e que perdura sem contraste nem desgaste.

Na análise do que passou, todos somos inculpados, deslustrados por nossas eventuais escolhas, depois repelidas como nunca assumidas.

Ninguém sabe o por quê dos fatos.

Sabe-se apenas dos porquês colocados como justos, derradeiros e incontestes.

O “ovo da serpente” para Brutus e seus amigos era Julius Caesar, um herói e tribuno popular que era urgente esmaga-lo já na casca, igual a Bolsonaro em amplo discurso de infindos conspiradores.

Julius Caesar que vadeara o Rubicon, gritando “Vim, vi e venci!”, desfilou em Roma apoteoticamente, botando todos seus oponentes acovardados em fuga.

Sobraram-lhe só os amigos, Brutus inclusive, que dele era um filho, assumido, por bem aceito e adotado, e, mais que tudo, muito amado.

Todavia, do amor e dos amigos, alguém já sapecou sabiamente: “Deus me livre dos amigos; dos inimigos cuido eu!”

Para muitos que não o e engolem nem digerem, Jair Bolsonaro é um “Capitão em Camisolão”, traçado na bufonaria do seu agravo.

Quem o traça em tanto deslavre e azinhavre, faria mais irônico e menos histriônico, se a tanto agravamento confessado não se lhe sobrasse um ranço azedo incomodado, por explicita declaração de desapreço de um amor não compartido, por rejeitado.

As uvas não parecem amaras quando maduram fora do alcance das raposas e de seu abocanho?

Não lhes é sempre possível azedar as uvas, amargando-as ao oportuno de sua amargura, convencendo-o mais a si próprio do que a isenta circunstância?

Porque a circunstância, já dizia Ortega Y Gasset, a circunstância simplesmente nos informa que alguns ou muitos, no tempo e no espaço “em vez de pintar coisas, puseram-se a pintar ideias”.

E outros, por más inflexões destas ideias, creem-se isentos, inconsúteis e sem rasuras ao pintar o Capitão Presidente, como um “Capitão de Chegança”, mal talhado e pior, bem mal vestido, em farda desbotada de papel crepom.

Esquecem, como dissera ainda Gasset em “A Rebelião das Massas”, que “O tolo é vitalício e impermeável” e “ser de esquerda é, como estar na direita, uma infinidade de maneiras que o homem pode escolher ser um imbecil: ambas sendo, com efeito,  formas de hemiplegia moral.”

E mais ainda; que bem se aplica a estes tempos ditos de prévias autocráticas dos que buscam derrubar Bolsonaro: Liderar não é tanto uma questão de mão pesada mas mais de assento firme”.

Todavia, como já bem dizia o mesmo mestre em claridades: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”, e assim prossigo mesmo cansado e talvez equivocado, a perquirir na mesma saga, tentando seguir-lhe, ensimesmando-me em torno de Galileu e o seu esquema de crises: “Sempre que ensinares, ensina a duvidarem do que estiveres ensinando.”

Deixando, porem, Dom José de Ortega y Gasset para novos solilóquios, volto ao ovo de víbora denunciado por tantosdepreciadores espalhados, que não lavam nem enxaguam o Presidente Bolsonaro, igual a muitos inimigos de Caesar, e tantos seus ambíguos amigos, como Cássio, Casca e Cina.

Porque nesta mesma sina; se muitos não se estafam em malsinar Bolsonaro, (des)gracejando-o como Bozo, só por zelotipia apenas, outros não conseguem, embora já o tentassem em demasia, pintá-lo crepom, tanto que agora o desenham, não como um paspalhão, mas como um elemento nocivo de alta periculosidade, um “ovo de víbora”, a merecer o esmague, em previas de choco, antes que haja, definitivamente, o “periculum in mora”.

Assim, em “modus in rebus” não muito bons, tudo é feito para tentar o apeio do Capitão Presidente, uma inutilidade que não lhe causa arrepio, por aperreio, pois a cada rasteira nele lançada, resta maior e mais aplaudido pelo povo em geral, que nunca goza com as más glosas dos maus golpes deferidos no seu capitão.

Deferimentos à parte, aquele que caiu no gosto do povo na eleição que passou, para terrível horror do vasto larvar jornalístico nacional, vem descambando mais, e bem mais, “ó que terrível!”,  no bom gosto dessa “caterva”, por eles denunciada como “amorfa e desqualificada”, mas bem querida é perseguida, por melhor galanteio.

– “O que fazer, se o povo é assim; teima em endeusar Caesar, um tribuno ilustrado em verbos, desinências e substâncias, mas também se curva a outros incessantemente  denunciados “possuidores de maus provérbios”, como assim dizem de um Mito, cada vez virando mito?”

– “É preciso esmagá-lo na casca!” – reverberam as vozes de Casca e Cássio,  Bruto e Cina, só para falar daqueles que sussurravam nas coxias do Romano Fórum.

Assim, eis então o ovo da serpente repintado, sobretudo agora que o povão lhe viu o rosto, e dele se agradou, afinal nada é, “ó que tristeza!”, o que fora pintado!.

Mas, é preciso repintar cada vez mais!

– “Caluniai, caluniai! Algo sempre fica!”

Daí o cansaço, a fadiga, com tanta leitura enfermiça, pior que o Covid amplamente espalhado no nosso noticiário.

E eu, como poucos, não consigo ler nenhum dos famosos formadores de opinião, cancelando as assinaturas dos jornais  Folha, Globo e Estadão e os noticiários de televisão, todos batendo zabumbas, querendo que mudemos, urgentemente, de opinião!

É quando me surge a lembrança do sambinha antigo de Nara Leão: “Podem me prender, podem me bater. Podem até deixar-me sem comer, Eu não mudo de opinião!”.

Mas, e ponha mas e muito mais! Eu já estou cansado de caminhar contra  tal tsunami opiniático Brasil afora e a dentro!

Eu só não sei é se desisto antes, mesmo porque disso não preciso nem sobrevivo, ou se serei “desistido” por incomodar o leitor no meu pensar diferente e solitário.

Como conseguirei convencer que não estamos vivendo uma “cruenta ditadura”, se com tanto pinte e repinte, o acinte tudo enodoa inclusive o próprio despinte?

Anima-me, todavia, a reflexão que encontrei nas minhas Laudes, hoje bem åcedo: “Não deixes de falar no tempo oportuno, nem queiras esconder a tua sabedoria por modesta enganosa. Pela fala se conhece a real sabedoria; e o saber, pela palavra que profere o homem sábio”. Eclo. 4,28-29

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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