O trânsito, a vacinação e o nada fazer

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O Professor Antônio Samarone virou notícia. Só porque resolveu botar a lei para ser cumprida. E lei no Brasil é só para preencher livro, dar emprego a advogado e salário bom pros entertelados de Direito. A Lei por aqui surge apenas para ensejar discussões. Para ser mais discutida de que qualquer moléstia. Jamais para ser cumprida ou sanear qualquer coisa.

 

Dizemos que nos falta educação para cumprir as leis. Assim, um semáforo, com suas luzes verde, amarelo e vermelho é ainda visto como um mero enfeite colorido de nossas esquinas.

Flagrante de quem estaciona em fila dupla, no local do deficiente físico e não paga o parquímetro.
 

Diga-se de passagem, que em Aracaju o primeiro semáforo inaugurado já deve ter mais de meio século. E todo mundo, ou melhor, a maior parte dos que o vêem, o odeiam, e vez por outra o desrespeitam.

 

Em outras palavras, o sinal vermelho, lamentavelmente, só é respeitado quando dele está próximo um “guarda”, um “greteiro”, um “cabueta” que denuncie a má conduta e o mau condutor.

 

Se o “espião” é um observador eletrônico ou um guarda de trânsito mesmo, a sociedade exige que seja informada a sua presença naquele local, como se só assim o feito e o mal feito merecessem a punição.

 

É uma espécie de autorização tácita da fraude. O sinal luminoso que não possui o “pardal dedo-duro” é para não ser cumprido, ou melhor, é para ser cumprido pelos bobos, pelos que têm a vida ganha, pelos que não têm atividade importante a resolver, enfim, para ser desrespeitado pelos que se julgam vitoriosos na vida porque passam na frente de todos que pararam burramente para seguir a regra. E os lesados contemplam com raiva o farol inútil, que sem autoridade vira uma espécie de personagem de piada sem graça de um filme pastelão.

 

E o herói do filme pastelão passa a ser aquele 10% infrator que ri dos noventa que se vêem prejudicados por acreditarem nas leis e na ordem. E estes “heróis” quando flagrados se arvoram da maior inocência do mundo. E longe de se ver febril em erro, culpa o termômetro que o denuncia.

Para que servem as placas de estacionamento proibido sem a imposição da infração?

Que sejam quebrados todos os termômetros para que a febre não seja constatada! Grita a nossa  imprensa. Por que não educar antes de multar? E a educação dos que se querem sempre reprovados é lembrada como única panacéia do erro.

 

Mas, se a educação se faz também com a penalidade, porque imaginar a multa como sendo algo fruto da intolerância do homem? Por acaso a educação só se faz com aconselhamento e afagos de carinhos?

 

E por acaso também, deve o direito individual destes 10%, ou menos, de maus condutores prevalecerem contra os 90% que procuram dirigir sem erros, e do restante da população, expressiva maioria em números absolutos, pedestres e usuário das ruas, que merecemos ser mais respeitados?!

 

“Visite Aracaju e ganha uma multa”, dizia uma frase repetida alguns anos passados. Era a reação obscura do fraudador contra o “pardal”, o terrível aparelho predador que veio para captar o motorista desobediente e inconseqüente, cobrando-lhe no bolso o seu malfeito.

 

Acusava-se a aplicação de multas necessárias e jamais injustas, como um exorbitar intransigente da intolerância do estado. Assim o malfeito era esquecido e louvado, condenando-se o autoritarismo de quem maneja a caneta saneadora do mal. Porque segundo os acariciadores dos malfeitores em geral, o mal, qualquer que seja ele, deve ser extinto na base exclusiva do convencimento, da aceitação suasória, num processo lento, suave, em longo prazo, a perder de vista, sem traumas. E assim, todos deveremos estar motos quando isto acontecer.

 

Quanto aos traumas, tragédias, lágrimas, feridas e sofrimentos, tudo aquilo inerente aos excessos no trânsito, só nos interessa quando nos atinge ou quando vemos apressadamente no noticiário o seu rastro de misérias. E o noticiário se fartando de desgraças, em crime e violências, muito ferro retorcido em meio a encéfalos colorindo o passeio público, revela que estamos doentes.

E o trânsito, mais do que tudo, em meio à velocidade dos bólidos em crescente potência, está a requerer mais uma ação de saúde pública do que uma planta de engenharia de tráfego.

Nem o local de parada dos ônibus deve ser obedecido?

 

E neste particular o Dr. Samarone está se revelando eficiente, diagnosticando o mal e prescrevendo profilaticamente a solução. Não uma solução por meio de uma vacinação obrigatória como Oswaldo Cruz e a Febre Amarela. Mas igual ao cientista de Manguinhos em incompreensão e oposição, prejudicado por nossa bem falante classe de formadores de opinião, que nunca deixará de ser obscura, prepotente, inconseqüente e burra.

 

E bote burrice! Com Oswaldo Cruz tentou-se até uma revolução, não pela igualdade ou fraternidade, mas para que a desigualdade se manifestasse no livre exercício da foice da morte infecciosa, que sempre atinge os mais carentes. Ou seja, a luta contra um mal, já quase em pandemia, não podia ser contida por uma política de vacinação obrigatória.

 

Oh! Coisa terrível! Invocava-se a liberdade como um estandarte tão inconsútil, que uma vacinação geral e irrestrita, contra um mal letal, estava arranhando os seus fios e descosendo  os seus brocardos e bordados!

 

O sinal de estacionamento é de brincadeirinha? A calçada é do automóvel e do carro da polícia também?

Pois bem! Na falta de um estandarte mais eloqüente, se outrora a macacada saiu à rua contra a suprema violência de uma vacinação obrigatória, agora, em momice parecida, está o Dr. Samarone sovado por tudo que é lado. Todos lhe estão contra, aí incluídos os políticos desqualificados, os jornalistas desalmados, os motoristas deseducados e até os regiamente pagos para coibir o mal e que usam do seu múnus para se fazerem inúteis; construtores do nada, desconstrutores de tudo, demolidores de sempre.

 

E os que ousam construir são bem-vindos ao panteão da história, como Oswaldo Cruz, nos cemitérios dos esquecidos.

 

É proibido estacionar, diz o sinal. Todo mundo sabe, mas estaciona-se até em fila dupla, e tome engarrafamento!

Dos cemitérios e dos esquecidos, certa feita o pensador Friedrich Wilhelm Nietzsche, referindo-se aos desencantos e ao nada fazer, afirmou que se alguém, um demiurgo qualquer, com poder de ressuscitar mortos, gritasse nos cemitérios conclamando os falecidos a acordar e a viver de novo, muitos prefeririam ali jazer no seu sono eterno, porque o nada fazer também possui os seus encantos.

 

Assim, neste campo-santo de tanta mortualha em que vivemos, é difícil estimular quem ouse mudar as coisas para melhor. É terrível assumir a tarefa educativa e saneadora contra o erro. Porque o erro deve ser recompensado, segundo muitos ou a maioria. Assim eis o Prof. Samarone no noticiário, tomando surra porque brotou vida na lei e botou o “pardal”, protetor de todos, para captar, flagrar, desmascarar e punir o malfeitor asqueroso e tenebroso, que quer transigir e fugir.

 

E mangar, debochar, tripudiar, e sacanear com sua circunstância, qual melhor herói sem qualidade. Coisa também da sergipanidade, por estreiteza de uma maior civilidade. E Sergipe que não se destaca em quase nada, nem nos homens, nem nos feitos, poderia se policiar para se fazer exemplo. Apoiando quem, se afastando do canto de sereia dos desencantos, está a rejeitar a cova comum dos gestores públicos que nada fazem.

 

Assim, rejeitando estas pragas que com a crítica desejam sepultar as boas idéias e as boas ações, bato palmas para o sanitarista que está a lutar pelo direito à vida dos pedestres, pela liberdade do ir e vir das pessoas nas calçadas, e pelo livre fluir nas ruas com semáforos respeitados e ausências de estacionamentos indevidos. Uma espécie de autovacinação compulsória do automotor, garfando no bolso do infrator condutor.

 

Quanto aos recalcitrantes, seja-lhes aplicada a multa saneadora, sim! A mim, execrado publicamente, se for o caso! Porque não é a falta de educação que nos torna embrutecidos, quais novos bárbaros, armados de fina tecnologia.

O que nos embrutece é a certeza da impunidade; é o privilégio, por inércia e omissão, dos direitos individuais solapando as necessidades e faculdades coletivas. Ou seja, tudo aquilo que degrada uma res publica numa res nullius, tudo aquilo que avilta o que deveria ser de todos para sê-lo de ninguém.

Oswaldo Cruz só queria evitar a propagação da Febre Amarela.

E para mostrar que o Dr. Samarone e sua profilaxia do trânsito estão a necessitar apoios e não apodos, apresentei entremeando a este artigo, alguns flagrantes de contravenção de regras mínimas de trânsito por mim flagradas num passeio por nossas ruas. Só para mostrar que o cidadão comum com uma maquininha na mão poderia no trânsito ser tão eficaz como o “mata-mosquito” do injustiçado Oswaldo Cruz, banindo a febre arroxeada de vergonha, dos nossos desmandos abusados enquanto motoristas.

 

Diga-se de passagem, para não perder o arroxeado de nossos desmandos, que recebi um alerta pela internet, dando conta da existência de sítios ilegais em que marginais apresentam flagrantes fotográficos de desmandos no trânsito, para aplicar e receber multas que o Estado ainda não detectou. Mais uma razão para não descumprir as regras de trânsito; escapar dos safados que estão a lucrar com o erro do mau motorista.

 

Vigiando o mau motorista, não sei se o Prof. Samarone conseguirá lucrar simpatias ao desbastar o cipoal de incoerências que o obscurantismo semeia contra os que ousam usar a foice, o espanador e a vassoura, instrumentos necessários para aceirar o caminho.

 

Logo, logo, muitas Salomés irão pedir a cabeça de Samarone

Logo, logo, vão lhe querer a cabeça, como João Batista frente a muitas Salomés.

 

Porque é sempre muito difícil aceitar, no trânsito e na vida, um caminho de ordem, uma alameda organizada, ou uma avenida em mão dupla, concebida para que os homens possam fluir e fruir os frutos de sua circunstância.

 

Mas é necessário persistir nesta busca, daí louvá-lo na sua ação como médico e sanitarista, saneando os males do nosso trânsito; uma verdadeira doença de fácil contágio, cuja cura está a exigir a contínua vigilância do esculápio, sem descanso e sem cansaços.

 

E nestes tempos de muito cansaço, é bom lembrar que bem melhor faz quem realiza. E Samarone está fazendo a sua parte, servindo-nos com “pardais”, este fiscal eletrônico que é um mero instrumental, neutro e sem paixões, para detectar a fraude, denunciando o erro e desmascarando o mau motorista.

Assim, louve-se o “pardal” tardio que está chegando ainda em boa hora. E que se reproduza. Ele será o nosso guardião, o andante cavaleiro que nos defenderá do mal que nos é inerente.

 

Ele será o verdadeiro mestre-escola no dia-a-dia dos tempos atuais e vindouros, educando e protegendo os homens do mal e do crime, só com a sua vigilância; vendo tudo e gravando tudo.

 

Um espião a ensejar o medo do ataque ao bolso? Sim!

 

Um prenúncio tentacular de um nascituro “Grande Irmão”, no pensar de George Orwell e seu 1984 tenebroso? Talvez, sobretudo se mais uma vez o homem quiser desvirtuar a ciência.

 

Mas, se por hora o uso desta ciência beneficia a maioria, quem a ela resistir e também não se importar com o próprio bolso, que a desafie. Exerça a sua livre prerrogativa de fraudar. Mas que não lhes reste jamais a impunidade.

– Acordem!
 

Quanto aos que tudo reclamam em qualquer mudança e desejam apenas dormitar no engano e a tudo resistir, sobretudo porque no dizer de Nietzsche, o nada fazer continua a semear seus encantos, chamemo-los nos sepulcrários onde apodrecem, porque são eles os maiores enganados cochilando no deslize. São eles que em omissão, mais remuneram o ônus da multa, que vem para o beneficio de todos, universalmente.

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