Réquiem por Reginaldo Silva

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O médico Reginaldo Oliveira Silva, falecido nesta semana, vítima do Covid19, era um homem de muito valor para a sociedade sergipana.

Filho de raízes itabaianenses, Reginaldo em criança viveu ao lado da Panificadora Aimoré, na Rua de Itabaiana, esquina com Maroim, em Aracaju, de propriedade de seus pais, Jovino e Caçula Silva.

Neste tempo eu morava na Rua de Pacatuba, nunca chegando a travar conhecimento, afinal os nossos caminho pouco se cruzavam, embora nossas residências fossem bem próximas.

Também nunca fomos colegas nem contemporâneos de estudos, embora nossas idades justificassem uma maior proximidade.

Eu estudara nos Colégios Brasília, no Jackson de Figueiredo e no antigo Atheneu, o Colégio Estadual de Sergipe; ele talvez tivesse estudado no Colégio Menino Jesus e no Tobias Barreto, salvo engano.

O meu conhecimento com Reginaldo aconteceu a partir dos nossos casamentos; eu com Tereza Cristina, filha de Aldjebran e Julia Garcia Moreno, há quase cinco décadas, e ele com Marilda, em tempo igual, filha de Edinaldo e Janice Bravo de Oliveira da sociedade propriaense.

Tereza e Marilda são parentas e amigas, minha sogra sendo o elo desta amizade, afinal Julia e Janice sempre se trataram como tia e sobrinha, em tradição de longa data.

Marilda deu a Reginaldo três filhas; Karina, Karolina e Katarina, e um varão; Reginaldo Filho, criados sempre próximos de meus filhos, chegando inclusive a serem colegas nos estudos.

Minha proximidade com Reginaldo se fez maior a partir da política universitária, quando fomos convidados pelo Magnífico Reitor Gilson Cajueiro de Holanda a exercer a função de Diretor de Centro Universitário.

O ano era 1980, tempo em que a Universidade fervilhava rebeldemente contra os poderes constituídos em demanda entrópica sempre norteada de maior liberdade, quando os barbudinhos do PT se ensaiavam como, verbosos e fabulosos, maus construtores da pátria.

O Magnífico Reitor e nós seus assessores éramos açoitados como “biônicos”, acusados de não possuir a legitimidade das urnas, antes nunca usada, mas que agora era requerida, quiçá exigida, pelo febril assembleísmo nascente.

Os quatro Diretores de Centro Universitário fustigados por liderança estudantil enraivecida contra o Regime Militar minguante, eram todos Professores de Mérito inatacáveis, nunca ligados a mecanismos repressores, e menos ainda ao seu endosso : José Bonifácio Fortes Neto, do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, José Alexandre Felizola Diniz, do Centro de Educação e Ciências Humanas, Reginaldo Oliveira Silva, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde e eu, Odilon Cabral Machado, do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia.

Animava-nos o fiel cumprimento da missão por necessário, afinal ninguém escolhe o momento ideal para bem servir a nação, a comunidade ou a sua Faculdade, nem pode achar que um eventual marulho ou um barulho insensato mereça o estouvado mergulho na intolerância que tudo envilece e desconstrói.

Infelizmente, por desconstrução farsesca de releitura da História, o Herói de ontem pode ser o vilão de amanhã, estátuas como a de Winston Churchill sendo depredadas e rasuradas, a ponto de requerer alambrados de proteção, porque a humanidade que ergue, que constrói, e que resiste, é a mesma que rói e corrói, se escafede, foge e desiste, o vandalismo sempre surgindo e refluindo, urrando e zurrando, sem razão ao desembesto.

Compromissado ao bom serviço, depois da missão de Direção de Centro Universitário, e como resultado da administração de Gilson Cajueiro de Holanda, a UFS conseguiu a cessão do antigo Hospital de Aracaju (Hospital Sanatório) pelo Ministério da Saúde, visando a implantação do Hospital Universitário.

A UFS de então tinha o sonho de construir um Hospital Universitário, tendo sido previsto a sua construção no Campus Universitário.

Na planta e na maquete tudo é fácil. Difícil é tornar o sonho realidade.

Sobretudo naquele tempo em que o país ingressara nos comuns dias de déficit econômico, e as Universidades públicas então criticadas por massificar o ensino superior, em acréscimo de vagas e construções de Campi por todo o país, e aqui também, vivia momentos diastólicos de contenção de despesas, os chamados “contingenciamentos”, denunciados mais das vezes como tentativas demoníacas de privatização do ensino público.

Se em Sergipe tal ampliação de cursos utilizara convênios laboratoriais da Escola Técnica Federal, e de órgãos estaduais como o Departamento de Estradas e Rodagens (DER-SE) e o Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITPS), a custo zero, ou quase, na área das Ciências Exatas, os cursos da área médica utilizavam o acervo do Hospital das Clínicas Augusto Leite, mediante um convênio cujo custo exorbitava o próprio orçamento da Universidade Federal.

Foi então que o Reitor Gilson Cajueiro conseguiu mediante negociações entre os Ministério da Educação e o da Saúde, a cessão para a nossa Universidade Federal do antigo Hospital Sanatório de Aracaju, nosocômio que se achava perdido e esquecido nas colinas do Santo Antônio, sendo Reginaldo Silva um dos heróis fundadores desta nova fase da História da Medicina em Sergipe, sendo inclusive o seu primeiro Diretor.

Hoje tudo isso é lembrança e, como dizia o poeta, lembrar é não ver.

Todavia, os homens prosseguem nos mesmos caminhos, a terra gastando a pele, a ensejar seguidores, que olvidam e apagam quem lhes foram desbravadores.

De Reginaldo Silva restou sua lembrança enquanto cirurgião e obstetra, auxiliando o vir a luz de muitos, como a Odilon, o meu terceiro filho, minorando a dor de centenas de mulheres, curando-as muitas, quiçá milhares, sem nunca perder a paciência, nem atender com displicência, virtude mais que requerida aos obstetras em suas horas difíceis e urgentes.

Como Médico, também se fez empresário, criando a Clínica e Hospital Renascença.

Depois, por capricho da vida, atingiu-o uma moléstia progressiva e limitante, em pleno labor e proficiência, saindo pouco, ficando restrito à sua casa, onde, leio-o na internet, atingiu-o esta doença cruel que a todos ceifa e amedronta.

– “Fiquem em casa!” – Gritam loucos e destrambelhados os nossos Governantes cercados de Especialistas do nada, a prescreverem tudo, sobretudo causando miséria e fome a serem cobrados mais adiante.

E o Vírus louco se aproximando de quem está na rua e de quem não está, ficando em casa, como Reginaldo que não mais saia, morrendo sem que nós seus amigos pudéssemos louvá-lo em despedida.

Em tantos ídolos derrubados no noticiário, se o homem morre não mais deixando a fama, ficará sempre a lembrança naqueles que aquecidos permanecem em sua chama e sua luz, memória da sua presença e de sua passagem entre nós.

Que o Deus que é, que era, e que vem, receba em seus braços a alma imortal de Reginaldo de Oliveira Silva, um sergipano da melhor extirpe, para sempre amém.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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