Willie Machado

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Tentarei falar de saudade, ousarei falar de amizade, de carinho, de doçura e de muitas lembranças. Falar de criança, de sorriso e de esperança. Narrarbobagens, contar histórias, ditar memórias do que era e do que ficou; desimportante, pouco importante, mas para mim mais do que importante, e para os meus.

 

Ah! Que coisa terrível; falar do amor, de um amor que se foi sem pedir nada nem condicionar fronteiras! Mas que demoliu barreiras, suscitando prantos, de muitos choros e lágrimas sofridas, que o racional melhor gostaria banidas, do homem e da vida. Mas, foi assim que Willie, o nosso cãozinho de estimação, nos deixou nesta quinta que passou.

 

Willie Garciia Moreno Cabral Machado, enquanto namorador da Praça da Imprensa.

Willie Garcia Moreno Cabral Machado, para ser exato, possuía pêlo farto e preto, uma mancha branca no peito, o focinho também levemente esbranquiçado, uma feição sisuda, uma ternura singular, em meio ao cenário canino que me rodeou, no decorrer da vida, afinal eu já tivera vários cães. Grandes, pequenos, valentes, hostis, vigilantes, guardadores de raça, vira-latas de pouca raça e alguns até com pedigree, com certidão de nascimento, de avô, bisavô e tetravô. Coisa de muita nobreza, com certeza. Mas, nobreza mesmo quem tinha e sempre teve foi Willie, daí Willie Garcia Moreno Cabral Machado, filho assumido pelos meus filhos Odilon Junior e Daniela.

 

Nascido em 15 de setembro de 1996, Willie chegou a nossa casa no dia 15 de outubro seguinte. Sua chegada aconteceu em meio a muitos protestos de Tereza, minha mulher, que não queria cachorros em nossa casa, afinal nunca tivera qualquer carinho por três outros que criamos em tempos anteriores; um pequinês, um pinscher que nos fugiu e uma cadela boxer.

 

Mas, Odilon Junior, que sempre fora louco por bicho e durante toda infância lhe fora negada esta alegria, me propusera o trato de ganhar um cachorro caso as suas notas no Colégio fossem boas. E eu me comprometi a dá-lo. E as notas que não vinham chegando boas, dali pra frente vieram bem melhores.

 

E Junior começou a cobrar a promessa, com Tereza pintando o diabo em reclamação. Mas, eu não podia deixar de cumprir o que prometera. Estava me sentindo desmoralizado, cometendo um crime que jamais teria perdão.

 

Sim, porque há coisas que em criança desejamos, e que nos negam sem necessidade, mas que ficam pro resto da vida como uma chaga sempre aberta a confirmar um desapreço. Igual a hoje, longe daqueles tempos em que criança valia pouco ou quase nada, mas que acontece a todo instante ao nosso redor, quando vemos muitos pais negando aos seus filhos um desejo bobo, mas importante, de um brinquedo, de um joguinho, um videogame, recusando até mesmo uma manifestação de carinho, como ensinar a andar de bicicleta, a usar um computador, desprezar tudo aquilo que não lhes é prioritário, ou porque não conhece, ou porque desmerece, ou porque não acresce o seu bolso e a carteira. Mas, tudo isso é outra história; um assunto que não desejo insistir, sobretudo, porque nunca foi o meu caso.

 

Mas, a despeito dos reclames de Tereza, vou com Odilon Junior à clínica veterinária Zoo-prev, pertencente ao médico veterinário Dr. Nilo, lá pras bandas do Tecarmo. Havia naquele dia uma ninhada enorme de cachorrinhos, com oferta nos jornais. Os bichinhos eram lindos! Todos! E eu me perdia na escolha do mais bonito porque eram muitos, cerca de doze, eu penso. Mas, Junior foi rápido e certeiro, escolhendo um que caía alegremente por cima dos outros. Comprei-o por cem reais. Foram os cem reais mais bem empregados de minha vida; em alegria, amizade e carinho.

 

Desnecessário dizer que minha mulher ficaria ainda muito tempo reclamando, sobretudo quando o bicho sujava a casa, roia os móveis ou quando choramingava querendo maiores agrados. Tereza era na casa a única que não gostava do cãozinho. E o bicho, que deveria gostar mais de mim do que dos demais, passou a gostar mais de Tereza. E eu me sentia até enciumado porque quem cuidava dele era eu, quem tinha obrigação de sair com ele, em passeio ritual, ao nascer e ao por do sol, era eu, quem dava banho era eu, quem educava para não fazer bagunça na casa era eu, quem estabelecia os seus limites em obediência e comportamento era eu, enquanto os outros só faziam brincar com ele; Daniela virou a mãe, Machado virou o tio e Junior que era o pai, desde a casa de Dr. Nilo.

 

Willie com o pai.

A bem da verdade e para consignar responsabilidade, o pai fora eu: o avô Em tudo! E eu até me incomodava em ser seu somente avô. Eu queria mais, eu queria ser seu pai, sobretudo quando ele não me deixava em paz ao ler um livro ou um jornal. O danado se enfiava entre meus braços e só sossegava quando eu tudo largava para lhe agradar.

 

Quando Tereza se aposentou e ficou mais tempo em casa, Willie não a deixou mais um minuto sozinha. Seguia-a pela casa todo tempo. Passou a ser sua companhia permanente. E Tereza se apaixonou tanto pelo cachorro que passou inclusive a conversar com ele. E eu quero crer que ele a compreendia, até com o próprio olhar. Porque o olhar de Willie externava tudo, inclusive o sorriso que lhe faltava nos lábios. Afinal os cachorros não conseguem sorrir porque não são farsantes nem enganadores como nós homens. No máximo, os cães conseguem externar uma cara de mau, exibindo os dentes, com ferocidade inclusive, diferente também dos homens que mais procuram disfarçar para melhor morder e fazer o mal. Mas se há sorriso nos cães, este se situa na cauda longa ou pequenina que possuem. Onde cada oscilar de cauda, sem lisonjas nem servilismo, representa uma espécie amigável de sorriso, que encanta, enternece e acarinha.

 

E Willie era um destes cachorros só carinho, por ser terno, por ser dócil e por ter um gênio de suave agrado.

Ninguém ouvira falar de uma mordida sua, embora o seu latido firme revelasse um Cocker Spaniel tirado a grosso e valente. Mas era tudo mentira. Queria ser amigo de todos, exceto da gataria que visitava o nosso quintal. No mais, o seu rabinho pequenino balançava para todos que dele se aproximassem; velhos, adultos e crianças. Só não gostava do nosso tratador de piscina. Detestava-o O porquê não sei. Foram quase onze anos de uma inimizade sem disfarce. No mais era amigo de todos; dos pedreiros, das lavadeiras, das secretárias da casa, dos visitantes e dos familiares, participando das alegrias e das tristezas, dos aniversários e dos casamentos, sofrendo o diabo com os fogos no Batistão em dia de jogo. 

 

Nas partidas de futebol, virava até torcedor do flamengo, com direito a boné e camiseta, gravatas de todo tipo, agasalhos de várias nacionalidades, com direito inclusive a exibir proselitismo político nas refregas eleitorais acontecidas. Nunca ficando indiferente, sendo algumas vezes cabo eleitoral eficiente.

Willie e o avô.
 

Diga-se até em adição, que enveredou no limite da lei, sendo inclusive um perigoso contraventor. Tudo porque num certo dia aqui nos chegou um moto boy trazendo uma encomenda para certo Willie Machado. Eram uns CDS de programas de computador pirateados. E eu que procuro comprar artigos verdadeiros, me vi às voltas com um perigoso consumidor de pirataria, logo aqui dentro de casa, a espalhar responsabilidade criminal difusa e coletiva.

 

E logo Willie que era responsável e comedido. Que fora inclusive pai de duas ninhadas, uma de Brenda, uma cachorrinha paquerada na Praça de Imprensa, e outra de uma cadela de propriedade de um primo. Ninhadas concebidas aqui em casa, em visitas consentidas e jamais negadas.  E hoje eu me arrependo porque não consegui ficar com um dos seus filhos, achando que outras ninhadas viriam, mas que não aconteceram, pois os que criam cadelas, com pouca exceção, têm a mania de conservá-las castas, matando-lhes criminosamente a descendência. Uma verdadeira indecência.

 

Pois bem! Este amigo de lembranças mil foi-se embora deixando-nos coberto de lágrimas e muitas tristezas. Anteriormente, por necessidades outras, Dra. Adna realizara cirurgias curando-o a orelha e a pata, bem como da rotineira otite que o Cocker Spaniel tanto padece. Mas dessa vez sua doença era mais grave. Surgiu com uma tosse sem motivo. Pensamos que era um engasgo. Fizemos de tudo, de medicação e exame, com direito a radiografia e antibióticos de moderna geração. Tudo foi em vão. Os pulmões estavam tão estragados, que as injeções de penicilina, os comprimidos de amplacilina, os xaropes de todos os tipos, inclusive o mastruz com leite, nada fazia qualquer efeito.

 

Na quinta-feira pela manhã, seu último médico, Dr. Eduardo da Clínica Petvet, não nos deu mais esperanças. O caso de Willie já era terminal, sendo-lhe sugerido a eutanásia, uma despedida anestesiada, em morte indolor e sem sofrimentos.

 

Rejeitei de imediato. Abracei-me ao cão como se estivesse a protegê-lo. Não! Ele iria morrer conosco, cercado de nosso carinho. E assim foi. Naquele mesmo dia. Não durou muito tempo. Já não comia, nem bebia. Nem dormir mais conseguia. Vivia apenas para respirar com a boca aberta, já com a língua se azulando em cianose.

 

Um amigo nos avisara que quando um cachorro não consegue mais dormir é porque está muito mal.

 

Mas, mesmo moribundo, confirmando seu caráter de doçura, ainda se aproximava de mim para receber os últimos afagos. E assim cercado por Tereza, Odilon Junior e eu, e Machado que chegara por final, Willie nos deixou para sempre em muitas lágrimas e tristezas. Uma coisa que talvez seja boba para muitos, que vêem neste choro por este amigo, um pranto equivocado e sem sentido. E este pranto que só nosso é, não consegue ficar abafado dentro de nós.

 

Para terminar uma última frase lhe foi dita. Uma frase de Machado que traduziu tudo o que poderíamos dizer e estava preso em nossas gargantas. – Vá, Willinho! Descanse em paz, rapaz! Você já cumpriu a sua missão! Você foi um grande companheiro!

 

E Willie que já estava deitado e sem forças, baixou suavemente a cabeça e suspirou. E eu fui o último a sentir com a mão no seu peito os derradeiros batidos de seu coraçãozinho, que se extinguiram, lentos, desrritimados e terminais.

 

E Tereza, minha mulher, mais do que todos aqui em casa, está a chorar doridamente por Willie Negão, o cachorro mais bonito e mais querido de nossas vidas.

 

Dedico estas palavras, de muita dor e agradecimento, aos médicos veterinários de Willie; a Dr. Nilo da Zoo-vet, que o tratou enquanto criança, a Dra. Adna e o Sr. Carlos do Consultório Veterinário próximo ao Galeto Prensado, que dele cuidaram enquanto adulto, a Dr. Edmilson da Clínica Prontovet que lhe fez a última radiografia, e finalmente a Dr. Eduardo da Petvet, que dele cuidou nos seus dias terminais, com muito carinho e muito zelo.

 

Que Deus os abençoe a todos, nos seus trabalhos e ofícios de minorar a dor de quem tanto nos alegra; os nossos animais pequeninos, que muito amor nos dão, a custo de nada.

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