Transexual de SE está perto de fazer história

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Priscila Sobral Freitas está perto de realizar um sonho

Quem conhece a funcionária pública Priscila nem desconfia que ela carrega o sexo masculino na certidão de nascimento. Com uma determinação tão grande quanto às bijuterias que gosta de usar, ela conseguiu vencer diversas etapas judiciais e está prestes a fazer história na esfera GLBT de Sergipe: conseguir identidade feminina mesmo antes de encarar o procedimento cirúrgico.

Comum em alguns países do mundo, a mudança de sexo em documentos oficiais na justiça verde e amarela é algo dificílimo de conseguir e poucas são as transexuais brasileiras que conseguem esse feito. Feliz por ter a chance de ser pioneira, Priscila Sobral Freitas, que não revela o nome de batismo, está confiante na decisão judicial que deve sair na próxima quinta, 24.

A transexual recebeu a equipe do Portal Infonet para uma conversa sobre a expectativa para o dia que ela julga ser o mais importante de sua vida.

Portal Infonet – Quando é que você percebeu que não era igual aos outros meninos?

Priscila Sobral Freitas – Ser transexual é se sentir mulher desde o nascimento, e é isso que sempre senti. Na escola eu sempre me identificava com o grupo das meninas, minhas brincadeiras sempre eram femininas, ficava conversando com elas sobre namorados, essas coisas. Em casa me maquiava, usava as roupas das minhas irmãs…

Infonet – E foi ainda criança que você resolveu adotar o nome que usa atualmente?

PSF – Não, não foi de imediato não. Faz uns dez anos, mais ou menos.

Infonet – Por que Priscila e não outro nome?

PSF – Não, não foi por causa de ‘Priscila, Rainha do Deserto’ (risos). Acontece que eu conheci uma senhora que gostava muito de mim, e como sou alta ela sempre dizia que eu parecia uma princesa, nome que se parece com Priscila. Depois comecei a fazer desfiles e adotei o nome de Priscila Cicarelli, mas não vou incluir assim nos documentos, vou manter os meus originais. 

Infonet – Quando começou a luta para ter identidade oficial feminina?

PSF – Depois de passar vários constrangimentos em locais públicos, como repartições. Certa vez me obrigaram a utilizar o banheiro masculino e um senhor me pediu desculpas por ter entrado no local errado. Precisei pedir perdão e dizer que eu, sim, estava no lugar que não era meu. Meu comportamento, meus trajes e minha vida não condizem com o nome masculino que carrego no RG. Sei que para todos que me conhecem isso é indiferente, mas é preciso ter uma identidade real para se socializar com outras pessoas.

Infonet – Nessa luta você conta com o apoio da sua família?

PSF – Sim, lógico. Estão todos juntos comigo assim como meus amigos, minhas colegas de trabalho, meu namorado, com quem estou há quatro anos, e muitas outras pessoas. Conto com apoio total também do Centro de Referência de Combate à Homofobia.

Infonet – Mas para adquirir identidade feminina você não teria que passar pelo processo cirúrgico antes?

PSF – Não. Já estou encaminhada para fazer a cirurgia pelo SUS [Sistema Único de Saúde], já fazendo acompanhamento psicológico, mas quero logo mudar o meu nome e quinta-feira, com fé em Deus, vai dar tudo certo. No fórum, a psicóloga me perguntou se mesmo assim eu sou mulher 24 horas por dia; respondi que sou mulher desde que nasci.

Infonet – Caso seu desejo se torne realidade, você acha que vai inspirar outras transexuais a trilharem seu caminho?

PSF – Com certeza. Por ser pioneira acho que muitas que desejam isso e acham impossível conseguir, resolverão ir à luta e assim melhorar suas vidas, buscar aperfeiçoamento profissional e outras coisas. O doutor Miguel, defensor público que me acompanha, já disse que depois de mim já sabe que muitas vão procurá-lo (risos).

Infonet – É difícil lidar com o estigma de que todo transexual e travesti se prostitui?

PSF – Você tocou num ponto importantíssimo. Veja só: eu sou funcionária pública, já freqüentei a universidade e continuo buscando minha identidade profissional aos 36 anos. Muitos transexuais e travestis tem salões de beleza, são empresários e tem outras profissões. Lógico que tem aqueles que vendem o corpo na rua da Frente [Centro de Aracaju], mas espero que caso eu alcance minha vitória, muitas sigam o exemplo e lutem.

Infonet – Não tem medo da decisão do Judiciário?

PSF – Eu confio na Justiça, isso sim. As cabeças dessas pessoas estão mais abertas hoje em dia. Sei que minha vida está nas mãos da juíza da 7ª Vara [Vara de Assistência Judiciária] que vai avaliar meu caso e com fé em Deus vou ter muitas alegrias após a audiência. Vai ser uma festa.

Por Glauco Vinícius

*A reportagem foi alterada às 11h08 de 18/09/2009. Anteriormente o texto afirmava que Priscila seria a primeira transexual sergipana a conseguir a mudança de sexo em seus documentos, mas um internauta entrou em contato com o Portal Infonet e disse que sua prima já alcançou essa vitória nos tribunais sergipanos em 2003. Como este caso tramitou em segredo de Justiça, a sociedade não teve conhecimento do fato e até hoje ela prefere não se expor. Mesmo assim, a personagem desta reportagem pode ser considerada pioneira no estado, por estar prestes a conseguir a documentação de mulher mesmo antes de passar pelo procedimento cirúrgico de mudança de sexo.

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