Psicóloga infantil fala sobre excesso de telas como fruto da pandemia

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Isabela Pena, psicóloga especialista em criança e adolescente (Foto: Arquivo pessoal)

Com a mudança de rotina causada pela pandemia, tem sido comum ouvir relatos de famílias que enfrentam um desequilíbrio na relação entre crianças e tecnologias. De acordo com a psicóloga especialista em criança e adolescente, Isabela Pena, a permissividade por parte dos pais tem sido uma das maiores consequências desse contexto.

A relação com as telas de uma forma inadequada é tida pela profissional como o resultado de uma situação emocional muito delicada, enfrentada por crianças e adultos. “É um contexto que mexeu com a rotina das crianças e com toda a estrutura familiar. Os pais também estão sofrendo e isso faz com que nem sempre estejam dispostos emocionalmente ou fisicamente para dar a atenção básica que as crianças pedem”, explica a psicóloga.

Segundo orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é fundamental que o tempo de exposição às telas, indicado para cada faixa etária, seja respeitado neste momento para evitar o agravamento dos prejuízos trazidos pelo consumo exagerado das mídias durante a pandemia. Sobre os sintomas que podem ser desencadeados entre os pequenos, Isabela alerta os pais para reações como irritabilidade, variação de humor junto de comportamento agressivo, sintomas corporais e até problemas de estômago.

Criança de 0 a 2 anos

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o tempo de exposição às telas deve ser feito de acordo com cada faixa etária (Foto: Freepik)

Considerando a necessidade do desenvolvimento da coordenação motora geral e do estimular diariamente a coordenação motora fina, Isabela ressalta a importância de redobrar os cuidados sobre a exposição às telas entre crianças de 0 a 2 anos de idade. Entre essa faixa etária, a psicóloga orienta que o uso da tecnologia seja realizada somente de forma passiva.

Bem como recomendado pela SBP, a profissional orienta que nenhum tipo de contato tecnológico seja realizado como parte essencial da rotina. “Eu indico o uso de telas somente para o contato com outras pessoas, como quando uma criança pequena liga para um familiar e os pais fazem disso uma saudável de se usar a tecnologia diante do contexto que a gente está vivendo”, explica.

Readaptação de rotinas

Como um dos motivos para mudanças de comportamentos notadas frequentemente, a psicóloga destaca o fato das crianças terem perdido o contato social e a prática de atividades físicas, mesmo que por meio de brincadeiras entre amigos. “A hora do recreio era um momento diário de interação. É na escola que eles aprendem a dividir e a respeitar um ao outro, então tudo isso influencia diretamente na saúde mental deles”, afirma.

Isabela explica ainda que, diferente dos adultos, as crianças não compreendem a situação de uma forma intelectual, o que impossibilita que eles tenham condições de lidar emocionalmente com a perda de uma rotina “da noite para o dia”. “Os adolescentes, principalmente, estão adoecendo porque tiveram uma mudança muito brusca em suas rotinas e vivem como se uma parte deles realmente tivesse morrido”, destaca a psicóloga.

Embora precise ser tratado com cautela, Isabela acredita que o uso das telas é o único meio que foi encontrado para que crianças e adolescentes não percam seus estímulos pedagógicos, numa realidade em que o uso passivo das telas tem sido a solução para o momento vivido. “Eu indico que os pais participem desse contexto acompanhando o mundo virtual junto com seus filhos, selecionando, inclusive, aquilo que será menos prejudicial para eles”, aconselha.

Outra dica importante é definição de uma rotina familiar aproximada àquilo que as crianças estavam habituadas a viver antes da pandemia. Segundo a psicóloga, essa prática é capaz de desenvolver a confiança interna, preservando a autoestima e a saúde mental das crianças. “Se ela estudava pela manhã, por exemplo, o ideal é que ela mantenha os horários para não perder essa segurança na rotina diária”, diz ela.

Embora seja de extrema importância para o momento, Isabela ressalta que a definição da rotina deve ser realizada com base na avaliação que cada família deve fazer sobre si mesma. “Se a família tem passado por situações diferenciadas como a perda de alguém próximo, por exemplo, é interessante que não exista tanta cobrança”, aconselha.

Para a psicóloga, a única saída que temos diante da pandemia é começar a aceitar e viver verdadeiramente a situação, evitando culpas e situações desconfortáveis para preservar, inclusive, a saúde mental dos adultos. “À medida que a família aceita a situação, os pais tentam se equilibrar dentro do que eles estão vivenciando e é possível passar por esse momento sem grandes prejuízos”, conclui.

por Juliana Melo 

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