Preto não é negativo

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Nabby Clifford diz que é preto. Com esse título, há uma postagem nas redes sociais de um “carioca” com sotaque de gringo que é representante no Brasil do reggae jamaicano. Ele até tem nome de natural daquela ilha do Caribe, mas é nascido em Gana e batizado brasileiro há mais de 30 anos.

Nabby Clifford joga limpo e faz uma defesa qualificada, de um didatismo claro, do quanto a questão semântica definitivamente contribui no adiamento da solução para o racismo no Brasil.

Já no tempo da escravidão indígena, lembra o músico e ativista ganês radicado no Rio, os índios eram chamados de negros da terra. Isso até 1755, quando foi abolida a escravidão indígena. Primeiro para o Estado do Grão Pará e Maranhão e, três anos depois, ampliada para todo o Brasil.

Portanto, observa, há uma carga cultural e linguística que faz o Brasil desde sempre usar de forma negativa expressões como lista negra, dia negro, magia negra, câmbio negro, vala negra, mercado negro, peste negra, buraco negro, ovelha negra, fome negra, humor negro, nuvem negra, passado negro, futuro negro…

Para Clifford, não se deve nunca chamar uma criança de negro. “Porque tudo que é negro é relacionado a coisas negativas e a criança fica com dúvidas. Dúvidas sobre a própria identidade”, diz ele. Nos dicionários da língua portuguesa, observa ainda, a palavra “negro” quer dizer infeliz, maldito.

Está no Aurélio (1985): Da cor preta, diz-se do indivíduo de raça negra, preto, sujo, encardido, sombrio, lúgubres, funesto, escravo.

Já quando valoriza algo o brasileiro não fala que aquilo é negro. “Quando valoriza, ele fala que é preto. Ele não come feijão negro, ele come feijão preto. O carro dele não é negro, é um carro preto. Ele não toma café negro, ele toma café preto. Mas quando passa fome, a fome é negra, quando ganha na loteria, ganha uma nota preta. Se branco não é negativo, preto também não é negativo”, ensina o ativista.

“Negro é palavra 100% negativa, e atrasa, causa morte, causa doença, miséria”, ele adverte, por fim, como se buscasse ali a raiz da palavra denegrir. “Já que o mundo mudou, vamos mudar nossa linguagem também, para acompanhar a mudança do mundo”.

No entanto, como há sempre um porém, ativistas descendentes de africanos assumem a palavra negro nos nomes e em textos. Muitos famosos fazem isso. Todos os companheiros da Seleção de 1970 chamavam o rei Pelé de Negão.

Em oposição, não nos esqueçamos de que a palavra “preto” quase sempre foi usada como forma de agredir a identidade negra.

Quem nunca ouviu — ou até não usou — as expressões “preto safado” ou “preto sem-vergonha”? Embora essas também possam ser usadas num contexto positivo e até carinhoso. Apesar de que qualificar cor da pele seja por si mesmo uma discriminação.

E há expressões, como “dia de preto”, “coisa de preto” ou “a coisa está preta”, mostrando que a palavra “preto” pode perpetuar conceitos racistas.

O dicionário oferece a seguinte definição para a palavra Preto: “Diz-se do indivíduo cuja cor da pele é negra”. E a seguinte para a palavra Negro: “Preto; que possui a cor negra ou escura”. Durma-se com um barulho desses.

Sociólogos defendem o uso do termo “negro” para classificar o grupo racial. Mas o nosso herói de Gana, irmão de tantos homens que foram sequestrados e deportados para o trabalho forçado na América, deve bem saber sobre o que está falando.

Nos Estados Unidos, sempre um passo à frente, os pretos há décadas aboliram como distintivo da etnia o termo “nigger”, que é considerado ofensivo, concebendo como mais adequada justamente a palavra “black”.

O termo “preto” remete apenas à cor, mas o termo “negro” remete à ideia de conceito racial, de raça inferior. E como sabemos, sejamos filhos de Adão e Eva ou de Lucy, constituímos uma única raça: a raça humana.

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