Uma Questão de Autoridade

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Parece que a Polícia Federal pisou no freio – ou na divulgação das operações. Os noticiários estão uma baita monotonia. Nenhum preso ilustre, nenhuma autoridade algemada, nenhum escândalo envolvendo deputado, senador (a absolvição de Renan Calheiros nem escândalo é; é imoralidade da grossa), juiz ou conselheiro de Tribunal de Contas. Enfim, uma chatice. Eles ( os noticiários) ficam apenas repetindo os indefectíveis tiroteios entre a polícia carioca e os traficantes , o vai-prá-lá, vem-prá-cá, para ver quem vai acabar com São Cristóvão e se o bispo Luiz Flávio Cappio morre de fome ou o governo acaba com o negócio de transposição do São Francisco.

 

Depois que a PF resolveu revirar o país, a gente passou a ficar esperando a operação da semana – e até do dia -, tipo Caipora, Navalha, Octopusy, Vampiro, Arroba, Águas Profundas, Pucumã, Jaleco Branco, Muro de Fogo e por aí vai.

 

Vulfânia, a minha assistente free-lancer, que, entre outras qualificações, diz que é especialista em marcas, genéricos e tópicos gerais ( nunca entendi o que é isso), e que tem um caso – dentre tantos outros – com o irmão de um cunhado de um primo de um servente da PF, diz que várias operações estão sendo preparadas – sigilosamente, é claro -, destacando-se:

 

Farinha pouca, meu pirão primeiro – operação para indiciar parlamentares que ficam brigando pelos melhores cargos no governo federal, barganhando o voto.

 

Mamãe eu quero mamar – operação para prender os malandros que colocam soda cáustica no leite.

 

Pagou, passou – operação para desmantelar as quadrilhas que vendem gabaritos de provas de concursos públicos.

 

Não acreditei muito na aloprada, porque acho que ela estava de porre. E eu só admito os seus horríveis hábitos etílicos/pinguçosos ( ela bate ponto diariamente nos botecos do mercado Albano Franco) porque ela é muito competente. Foi ela, por exemplo, que garantiu a Juarez Batista, o prefeito afastado de Pirambu, que era perfeitamente legal dar mesada a ex-prefeito com o dinheiro da prefeitura.

 

Ela não me contou (é muito modesta), mas eu soube que ela provou a Francisco Gualberto, com suas costumeiras análises quânticas e seus enfadonhos gráficos, que Venâncio Fonseca não sabia ser oposição e que ia ser moleza levar ele no bico. E tem mais: depois de conversar demoradamente com ela, o senador José Almeida Lima botou na cabeça que é imbatível, em 2008, para a prefeitura de Aracaju, porque o povo adora suas porraloucantes defesas de Renan Calheiros.

 

Certamente, a PF continuará com as operações para limpar um pouco a sujeira braba do país, mas poderá enfrentar um problema. Rola uma conversa por aí que alguns parlamentares estão se mobilizando para elaborar uma lei proibindo que autoridades sejam algemadas. Alegam, candidamente, que algemas são para ladrão de galinha. Não fica bem, por exemplo, um juiz algemado, mesmo sendo do nível de um Nicolau, o grande Lalau, orgulho e patrimônio moral da ASCOBRA- associação dos Corruptos do Brasil. Como, meu amigo? Autoridade apanhar da polícia? Tá doido?

 

Aprovada a tal lei, outros probleminhas terão que ser administrados. Quem é e quem não é autoridade? No Brasil, quase todo mundo acha que é autoridade. Isso, sem falar nos que se acham autoridade apenas porque têm ligação com alguma autoridade. Mas tudo poderá ser facilmente resolvido com uma classificação e um catálogo, que deve ficar mais grosso que a lista telefônica de São Paulo. E todas as polícias o receberão.

 

—- Identifique-se – o policial fala para o cidadão, flagrado portando dois quilos de cocaína.

 

—- Sou cunhado da amante de um cabo eleitoral de um deputado.

 

O policial, com um jeito mais amável, abre o catálogo de autoridades e sai procurando.

 

—- Cunhado de amante de cabo eleitoral… cunhado de amante de cabo eleitoral…cunhado de amante de cabo eleitoral… ah, achei. O senhor está enquadrado em autoridade XXXII, letra G.

 

—- E o que isso significa?

 

—- Bem, o senhor pode até ser empurrado, mas não posso algemá-lo.

 

Outra situação.

 

—- Sabe com quem está falando? Eu sou amigo do vizinho de um delegado de polícia!

 

O policial procura no catálogo de autoridades.

 

—- O senhor está na categoria XXVI, letra Y.

 

—- E…?

 

—- Posso lhe dar até três tapas, mas não posso algemá-lo.

 

Interessante será o caso de um Corregedor, denunciado por vender alvarás de soltura a traficantes de drogas. O policial, totalmente constrangido, ao verificar a categoria do cidadão: autoridade IV-B.

 

—- Se o doutor quiser, pode me algemar. Assim parecerá que o senhor é que está me prendendo. Depois pode ir dirigindo o seu próprio carro. Ah, pode também me dar até cinco tapas na cara, seis pescoções, sete pontapés na barriga e oito na bunda.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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