O Chamado da Tribo

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Estou a ler “O Chamado da Tribo”, do peruano Mario Vargas Llosa.

Trata-se de uma reflexão memorial daquele que na adolescência fora um ardente apaixonado pela Revolução Cubana de Fidel Castro e pelos escritos de Jean-Paul Sartre, e que ao longo da vida, em tantos desencantos e desencontros acontecidos, atingiu a maturidade como liberal consciente, sem ter que se desculpar, nem ter o que se arrepender.

 

 

Nunca em tão pouco tempo, num espaço de cinquenta anos, tantas utopias nasceram e foram sepultadas.

Cuba, por exemplo, ao fazer uma Revolução destinada a expurgar de vez as Ditaduras da América Latina, foi para muitos um marco decisivo de conteúdo ideológico.

Em suas confissões, Llosa e muita gente se empolgaram com “a façanha fidelista não só como aventura heroica e generosa, de lutadores idealistas que queriam acabar com uma ditadura corrupta como a de Batista, mas também com a criação de um socialismo não sectário, que permitiria a crítica, a diversidade e a dissidência”.

Quase um adolescente ainda, o peruano chegou a viajar a Cuba, quando do bloqueio americano, em 1962, por conta da crise dos mísseis russos, decretada por John Kennedy, tendo se inserido no esforço de sua defesa, naquele momento em que se aguardava uma invasão pelos marines.

A defesa da ilha, segundo suas lembranças, utilizava pequenos canhões antiaéreos, os “bocachicas”, operados por “jovens quase crianças que observavam sem atirar os voos rasantes dos Sabres norte-americanos, o rádio e a televisão dando instruções à população sobre o que fazer quando começassem os bombardeios”.

Neste relato, Vargas Llosa fala que sua empolgação era tamanha em apoio a um povo livre e esperançoso, que o fez enfrentar filas para doar sangue, sentindo-se um redivivo George Orwel em “Homenagem à Ctalunha”  chegando a Barcelona em 1932, como voluntário da Guerra Civil Espanhola.

Depois, quando a invasão não ocorreu, porque Nikita Khrushchev retirara os misseis, recuando diante do ultimato de Kennedy, fez coro aos jovens cubanos decepcionados gritando em passeata: “Nikita, traíra, / o que se dá/ não se tira”.

Tempos depois e já morando na França, sua empolgação com Cuba, levou-o a vistar Havana várias vezes, oportunidade em que partilhou da convivência de Fidel Castro, Che Guevara, e de vários intelectuais, participando ativamente de um Conselho Internacional de Escritores da Casa de las Américas.

Neste tempo, era leitor de vasta intelectualidade, pertencente ou simpatizante do Partido Comunista como Georg Lukácks, Antonio Gramsci, Lucien Goldmann, Franz Fanon, Régis Debray e até Louis Althuser professor da École Normale que enlouquecera e assassinara a própria esposa.

Curioso é que nestes anos de Paris, passara a comprar “escondido” o jornal Le Figaro,  para ler os artigos de Raimond Aron, “cujas contundentes análises da atualidade me incomodavam e ao mesmo tempo me seduziam”.

Aborrecia-se com as notícias vindas dos paraísos socialistas, no qual se inseria perseguido como um verdadeiro dissidente, se russo fosse, ou se em Moscou estivesse, porque ali estaria sujeito, igual a muitos intelectuais seus amigos, a ser condenado a apodrecer num Gulag.

Tal noticiário o levaria a entrar em conflito com os seus amigos Sartre, Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty e Les Temps Modernes, que permaneciam refratários ao que já era por demais sabido, mas que o censuravam, tentando convencê-lo, que “apesar de tudo o que não estivesse bem na URSS, ela representava o progresso e o futuro, a pátria onde, como dizia Paul Éluard num poema em que sabia de cor, ‘Não existem putas, ladrões e padres’”.

Constatava, todavia, existir “uma claustrofobia coletiva”, diante do desconhecimento do que ocorria nos regimes soviéticos, em contraste com o resto do mundo.

Era já sabido que embora as diferenças de classe em função do dinheiro tivessem desaparecido, as desigualdades na URSS continuavam enormes  “com pobreza, bêbados jogados na rua e uma apatia generalizada.

Neste contexto, o próprio Sartre  chocou-o como se fora “uma punhalada pelas costas”, ao dizer numa famosa entrevista que, “Diante de uma criança morrendo de fome, ‘A Náusea não serve para nada’”, e que seria melhor que “os escritores africanos renunciassem à literatura para, primeiro, fazer a revolução e criar um país onde aquela fosse possível”.

À parte tais declarações, de Cuba chegavam notícias da prisão de um poeta seu amigo, Heberto Padilla, ativo participante da Revolução Cubana, caído em desgraça por ter criticado a política cultural do regime, condenado pela “acusação disparatada de ser agente da CIA”.

É aí que acontece a ruptura de Llosa com Cuba, e por via de consequência do socialismo.

Ao redigir uma mensagem internacional de solidariedade a Padilla, protesto endossado por Sartre, Simone de Beauvoir, Susan Sontag, Alberto Moravia, Carlos Fuentes, os signatários recebe uma resposta pessoal do próprio “Fidel Castro, acusando-os de estarem a serviço do imperialismo e afirmando que não voltariam a pisar em Cuba por ‘tempo indefinido e infinito’ (quer dizer, toda a  eternidade)”.

Alvo de ignomínias face a este protesto, Vargas Llosa confessa ter demorado algum tempo para “romper com o socialismo e revalorizar a democracia”.

Foi entendendo que “’as liberdades formais’ da suposta democracia burguesa não eram mera aparência atrás da qual se ocultava a exploração dos pobres pelos ricos, mas sim a fronteira entre os direitos humanos, a liberdade de expressão, a diversidade política e um sistema autoritário e repressivo no qual, em nome da verdade única representada pelo Partido Comunista e seus dirigentes, podia-se silenciar toda e qualquer forma de crítica, impor diretrizes dogmáticas, sepultar dissidentes em campos de concentração, e, inclusive, faze-los desaparecer”.

Ao tempo em que persegue tal relato memorial, o livro de Vargas Llosa, inspirado em Edmund Wilson e seu notável Estação Finlândia, traça biografias de pensadores de seu convívio, “sua tribo”, um chamado reflexivo de lições recebidas desde Adam Smith, por exemplo, o escocês da “Teoria dos Sentimentos Morais” e de uma “História da astronomia”, que depois restou como “Pai da Economia”, sem nunca ter sido Economista, por ter escrito a obra fundante “A Riqueza das Nações”.

Admirado por David Hume, Edmund Burke, Kant e Voltaire, o escocês Adam Smith, retratado por Vargas Llosa, levava uma vida espartana concentrada apenas ao estudo e na redação de suas obras, a ponto de não só fugir do assédio de mulheres, como de apresentar desentendimentos quando num debate.

Neste campo, Llosa fala de algumas inimizades de Smith, como a do lexicógrafo Samuel Johnson, que lhe xingou a genitora, descrevendo-o desairosamente “triste como um cão”, que babava e “se tornava um sujeito dos mais desagradáveis depois de tomar umas taças de vinho”.

Da “tribo” de Vargas Llosa fazem parte  Dom José de Ortega e Gasset, um homem de muitas claridades, alguém que em tempos de muita inautenticidade tivera que fugir de sua Espanha em tempos de Guerra Civil, mesmo pregando a cortesia do filósofo entremeando o seu Esquema das Crises Em torno a Galileu, A Rebelião das Massas, Meditação a Quixote, um homem premido pela circunstância, que derivava de “circum-stantia”(isto é presença em torno).

Alguém que dizia, talvez para agrado de Vargas Llosa; “Ser de esquerda é, como estar na direita, uma infinidade de maneiras que o homem pode escolher ser um imbecil: ambas, com efeito, são formas de hemiplegia [paralisia] moral.”

De Dom José, eu destaco para mim, sua frase lapidar: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”

Quanto à “tribo” de Vargas Llosa constam ainda  Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin, e Jean-François Revel, autores notáveis do século passado.

Se nunca li o Caminho da Servidão de Hayek, e de Karl Popper sei apenas por citações de José Guilherme Merquior, alguma coisa posso falar sobre “O Ópio dos Intelectuais”, de “Dezoito lições da sociedade Industrial” e de “Marxismos imaginários De uma santa família a outra” do francês Raymond Aron.

Já do letão Isaiah Berlin, agradam-me seus ensaios publicados pela Companhia das Letras; “Limites a Utopia” no qual o italiano Gianbatista Vico e seu “corsi e ricorsi” são visitados enquanto “história da cultura”, e seus estudos contidos em “Pensadores Russos”, sobretudo aquele em que estes são classificados como Raposas e Porcos-espinhos, a partir de um verso do poeta grego Arquílico que diz “A raposa conhece muitas coisas, mas o porco-espinho conhece uma só e muito importante”.

Se Berlin dizia ser Dante um porco-espinho e Shakespeare uma raposa, não sei como este classificaria Vargas Llosa.

Seria Llosa um ouriço porco-espinho como Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoievski, Nietzsche, Ibsen e Proust, ou uma felpuda raposa como Berlin dizia de Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Puchkin, Balzac e Joyce?

Embora esteja a me alongar, é interessante contar que Mário Vargas Llosa, em memórias de “Tia Julia e o escrevinhador” conta que na adolescência tivera um longo amor quase incestuoso com uma sua tia, sendo perseguido por seu pai, armado de carabina, que desejava assassiná-lo como ápice de uma turbulenta relação pai e filho.

Llosa, que depois virou autor notável percorrendo antes de mim as caatingas remotas de Canudos, em buscas das pegadas de Euclides da Cunha, em “A Guerra do Fim do Mundo”, um livro formidável.

Um peruano hilário ao descrever suas próprias aventuras com uma chilena-peruana em “Travessuras da menina má”, contar causos em “Pantaleão e as visitadoras”, em “Elogio da Madrasta”, em “Tia Julia e o escrevinhador”, em “Conversa na Catedral”, e ao narrar feitos trágicos como o assassinato das irmãs Mirabal em “A Festa do Bode”

Mario Vargas Llosa alentado ensaísta em “Sabres e utopias”, sendo romancista histórico da violência na América e na África em “O sonho do celta”, e agora batendo tambor em chamamento de sua tribo; um livro notável que estou a deliciar.

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